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TVs a cabo não são responsáveis por diferença no nível do volume dos canais

Arte/UOL
Imagem: Arte/UOL

Lucas Borges Teixeira

Colaboração para o UOL, em São Paulo

26/09/2018 04h00

Você já reparou que, ao mudar de canal na TV a cabo, sempre há um mais alto do que o outro? Às vezes, é preciso ficar atento ao botão do volume para não levar um susto. Um texto que circula nos aplicativos de mensagem diz ter a resposta para este mistério incômodo.

De acordo com a mensagem, isso não só é uma prática proposital por parte das distribuidoras de TV a cabo como tem um motivo religioso.

"Será que é coincidência que canais como Globo e Record sejam mais altos e canais cristãos, mais baixos? Por que a NET tem volumes diferentes?", questiona o texto. "O Big Brother passa no volume mais alto, a oração no volume mais baixo", afirma a mensagem. "Repasse. Cobre sua televisão. Cancele a assinatura. Não vamos deixar que eles nos digam o que ouvir!"

FALSO: Não são as TVs a cabo que regulam o som, e isso não tem nada a ver com religião

A mensagem é mais um boato sem fundamentação teórica. Especialistas ouvidos pelo UOL afirmam que não cabe às distribuidoras regularem o som dos canais, como afirma a mensagem, mas às próprias produtoras de conteúdo.

Ao UOL, a NET, distribuidora citada na mensagem, negou que a diferença de som tenha relação com qualquer assunto religioso e informou que não é a responsável pelo volume dos canais.

"A diferença de áudio pode ocorrer por conta da tecnologia de som aplicada pelo canal, quando disponibiliza o áudio em Dolby Digital. O controle deste áudio é feito pelo televisor ou pelo Home Theater para preservar a qualidade", declarou a empresa. "Para o melhor equilíbrio do som, o cliente da NET deve deixar o som do decodificador no máximo e equalizar o áudio com o controle remoto da TV."

Especialistas em som para a televisão ouvidos pelo UOL confirmaram que a diferença entre volumes não é de responsabilidade ou culpa das distribuidoras, visto que são os canais que mixam seus conteúdos.

"Normalmente, a distribuidora não mexe no conteúdo que recebe. Do jeito que a programadora [o canal] manda, ela exibe", afirma Luiz Fausto, especialista em estratégia e regulatório da Rede Globo. Segundo ele, as TVs a cabo só são responsáveis pelo áudio que produzem para propagandas, ou nos canais em que promovem seus conteúdos.

"Não tem ninguém que preste atenção nesta parte", concorda Guido Stolfi, do Laboratório de Comunicações e Sinais da Escola Politécnica da USP (Universidade de São Paulo). "Atualmente, isso é muito automatizado, um programa resolve, não precisa ter uma pessoa que o faça."

Segundo os especialistas, a diferença se dá porque cada canal que produz seu conteúdo coloca um volume diferente, não há uma cultura de padronização. "O assunto não é tão simples quanto pode parecer aos leigos", afirma Fausto.

"Na hora de produzir, cada produtora tem seu modus operandi, seu jeito de normalizar o nível de áudio ao longo da sua programação. Isso é necessário porque, dentro do canal, são diferentes produtores, em diferentes programas e, às vezes, em locais diferentes. Então, tem de haver uma norma que padronize, senão o próprio canal teria volumes diferentes em sua grade", observa o especialista da Globo. No entanto, esta padronização não existe de maneira universal.

O que as TVs a cabo poderiam fazer

De acordo com os especialistas, uma distribuidora fazer qualquer ajuste no áudio dos seus canais para criar um padrão ou até influenciar na programação, como sugere a corrente, seria complexo e caro.

"Eles teriam de monitorar o tempo todo cada conteúdo recebido e ter alguém que fizesse isso, mas não é um processo tão simples", afirma.

"Para eles, não faz sentido", concorda Fausto. "Se quisessem criar esta padronização, teriam de fazer de dois jeitos: repassar a obrigação para as produtoras, com um método único, ou eles mesmos processarem toda sua programação, o que complica e encarece muito."

TVs abertas têm regulamentação

Segundo Fausto, uma maneira de padronizar seria estabelecer que todos os canais seguissem o método imposto pela Anatel (Agência Nacional de Telecomunicação) para as TVs abertas. "Dessa forma, haveria um nível de controle entre si", afirma.

Com auxílio da SET (Sociedade Brasileira de Engenharia de Televisão), a Anatel editou, em julho de 2012, a Portaria nº 354, que estabelece parâmetros de controle de áudio para os canais na TV aberta digital.

A norma basicamente padroniza toda a programação dos canais disponíveis na TV digital para que não haja diferença nem entre eles, nem dentro da própria programação. Isso se dá, em especial, para regulamentar os comerciais, que não são parte da obra da emissora, chegam prontos de forma independente e ficam armazenados em um servidor.

Por isso, antes da regra, era comum ter comerciais mais altos do que os programas em um mesmo canal. De acordo com Stolfi, esta era uma prática padrão e proposital. Com as novas normas, isso acabou.

"O cumprimento da regulamentação atual já minimizaria eventuais desconfortos dos telespectadores, fazendo com que as transições entre programas e comerciais ocorram dentro de limites aceitáveis", afirma Fausto.

Não há, no entanto, como evitar certas disparidades. "Ao cortar um filme em blocos e inserir comerciais entre os blocos, supondo que esse corte se dê em uma cena calma, com menor nível de loudness (sonoridade), a transição para um comercial, ajustado com o mesmo loudness médio do filme, ainda terá alguma descontinuidade", explica o especialista. "Esse limite, infelizmente, também afeta a qualidade e a intenção artística do áudio da programação."

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