UOL Notícias Cotidiano
 
17/06/2008 - 21h42

Saiba quem eram os três jovens do morro da Providência mortos no fim de semana

André Naddeo
do Rio de Janeiro
e da Redação, em São Paulo

Dos três jovens do morro da Providência (centro do Rio) torturados e mortos depois de supostamente serem levados a traficantes do morro da Mineira, dois tinham passagem pela polícia. Dois deles iriam começar a trabalhar na segunda-feira passada. Um deles sonhava em completar 18 anos logo para, ironia do destino, alistar-se no Exército. David Wilson Florêncio da Silva, 24, Wellington Gonzaga da Costa Ferreira, 19, e Marcos Paulo Rodrigues Campos, 17, teriam desacatado os militares na manhã de sábado, na praça Américo Brum, quando voltavam de um baile funk.

Segundo a Polícia Civil, Ferreira teve passagem pela polícia por "associação para o tráfico", quando era menor de 18 anos, e Silva por porte de arma e corrupção de menores.
 

Também segundo a polícia, os militares (que atuam em operação no morro desde dezembro) alegam que os abordaram porque um deles tinha na cintura um volume semelhante ao de uma arma. Eles tinham acabado de descer de um táxi, com uma moça. Os militares os revistaram e encontraram apenas um celular. Depois da revista, os três e outras pessoas que se juntaram ao redor começaram a protestar. Segundo os militares, houve brigas e troca de ofensas. Os três foram detidos, levados ao quartel da Companhia de Comando.

Ouvidos pelo capitão Ferrari, que respondia pela Delegacia Judiciária Militar do quartel, os três foram liberados. Com um grupo de 11 militares, os três teriam sido então levados ao morro da Mineira, dominado pela facção ADA (Amigos dos Amigos), inimiga da facção CV (Comando Vermelho), que atua no morro da Providência. David, Wellington e Marcos desapareceram e os corpos dos três foram encontrados no domingo em um aterro sanitário em Duque de Caxias.

A reportagem do UOL conversou com parentes e amigos dos três para saber um pouco mais sobre eles. Leia abaixo:
 

  • Arquivo pessoal

David Wilson Florêncio da Silva, 24, como a maioria dos moradores da Providência, teve uma infância difícil. Ainda bebê, foi abandonado pela mãe. Como o pai já era falecido, acabou criado pela avó materna, dona Benedita Florêncio. "Ele sempre me levava ao médico, fazia tudo por mim", conta ela, segurando as lágrimas.

A relação com a avó sempre foi estreita. "Ele levava os doces feitos por ela e vendia na escola quando garoto", lembra a amiga Deyse Lay, 30, que o conheceu na 5ª série do ensino fundamental. "Era um bom rapaz, eu garanto, sempre tive amizade com ele", diz.

Desde cedo, além da avó Benedita, David tinha uma outra paixão: o futebol. Mais especificamente o seu clube de coração, o Flamengo. "Ele era apaixonado, ia sempre que podia ao Maracanã comemorar a vitória do time", conta a avó. Festa, aliás, era com ele mesmo: "Era uma pessoa alegre, divertida. Gostava de reunir os amigos sempre. Ele queria comemorar tudo. Tudo era na base de festa", conta a amiga Deyse.
 

No enterro, emoção e revolta

Já adulto, usou o conhecimento futebolístico adquirido para dar aula de futebol para crianças carentes do morro da Providência. Mas como o trabalho era voluntário e o dinheiro curto, David teve que interromper os estudos. Em 2005, ele largou o 1º ano do ensino médio para trabalhar.

Em Gamboa, bairro da região central do Rio, conseguiu emprego em uma obra como auxiliar de pedreiro. Em 2008, porém, o torcedor flamenguista conseguiu voltar à escola. Trabalhava durante o dia e fazia o supletivo à noite. Há cerca de uma semana, conseguiu vaga nas obras de remodelagem de casas do programa Cimento Social, principal motivo da ocupação do Exército na Providência. Começaria na última segunda-feira.

Ele cumpria o segundo ano do ensino médio, sonhava em fazer faculdade de educação física e planejava o casamento. "Ele não era envolvido com o tráfico, ele iria começar a trabalhar. Isso tudo é um absurdo", conta a noiva Gisele Pereira de Lima, 19.
 

  • Arquivo pessoal

Wellington Gonzaga da Costa Ferreira, 19, apesar de nunca ter trabalhado no ramo, também iniciaria na última segunda-feira trabalho como pedreiro no programa Cimento Social, razão pela qual os militares ocupam o morro da Providência. "Ele estava bastante ansioso", conta Débora Cristina Gonzaga, 32, prima.

À noite, o jovem trabalhava como entregador de pizza dentro da própria comunidade. Era bastante amigo de David Florêncio, que o apresentou à namorada Tamires. "Ele gostava de sair sempre com ela. Gostavam de shopping e cinema. Ele a tratava muito bem, tinha foto no Orkut [site de relacionamentos da Internet] dele fazendo coração para ela. Era uma pessoa querida", conta Deyse Lay, 30, que também o conheceu por intermédio de David.

Vascaíno de coração, acompanhava o time de perto e rivalizava com o amigo David, flamenguista. "Quando tinha clássico do [Campeonato] Carioca, os dois saiam com suas camisas e ficavam apostando quem iria ganhar", conta a prima Débora.

Wellington, que nunca tinha dado muita atenção aos estudos, estava correndo atrás do tempo perdido. Cursava a 2ª série do ensino fundamental, em processo de alfabetização.
 

  • Arquivo pessoal

Marcos Paulo Rodrigues Campos, 17, era o mais novo dos jovens assassinados no morro da Mineira. E o que tem a história mais irônica: seu sonho, desde garoto, foi ingressar no Exército. "Ele sonhava em fazer logo 18 anos para poder se alistar, ele queria usar farda e tudo o mais", relembra a mãe, Maria de Fátima Barbosa, 48, agora indignada ao ver que, supostamente, seu filho foi levado justamente por militares e entregue a uma facção criminosa.

Desde cedo, para seu próprio sustento e dos seus outros seis irmãos, ajudava a mãe descarregando caminhões de areia em obras dentro da própria comunidade da Providência. "Ele arrumava um dinheirinho com isso, né. A gente não tinha dinheiro, sempre passamos por bastante dificuldade", conta Maria de Fátima.

O adolescente flamenguista cursava a 7ª série do ensino fundamental. Gostava de namorar. Mas sem compromisso sério. "Ele não gostava de namorar sério, para ele, o que importava era aproveitar a vida", conta a mãe.

O futebol também era motivo de descontração. Reunir os amigos para uma partida na Praça Américo Brum, mesmo local onde foi abordado e levado pelos militares, era algo comum, quase diário.

"Ele era um adolescente 'crianção'. Lá em casa está um vazio no nosso coração, uma dor imensa, todo mundo calado. Lá em casa era uma alegria", conta Maria de Fátima, não contendo as lágrimas. "Se eu pudesse eu iria junto. Mas eu quero só guardar coisas boas dele, não quero pensar que ele morreu assim brutamente. Prefiro lembrar do sorriso dele."

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