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28/06/2008 - 07h00

Refugiados palestinos reclamam das condições de vida precárias e querem deixar o Brasil

Cláudia Andrade Em Brasília
Os motivos são variados, mas o objetivo é o mesmo. Os palestinos que estão acampados em frente à sede do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados no Brasil (Acnur), em Brasília, querem mudar para outro país. O grupo que tinha nove homens passou a ter oito depois que um deles voltou para o Rio Grande do Sul. Outros dois também haviam decidido voltar para São Paulo esta semana, mas o ônibus em que viajavam foi assaltado e eles voltaram para Brasília. "Não sei mais se eu vou querer ir para lá. O choque foi muito grande", disse um dos palestinos assaltados, que preferiu não se identificar. "Eu fiquei só com a roupa que estou usando. Levaram todo o resto: dinheiro, documentos, até o maço de cigarros, que não vale nada, levaram".

Os palestinos que protestam em frente ao Acnur fazem parte do grupo de pouco mais de cem que foram reassentados no Brasil no final do ano passado, vindos do campo de Ruweished, no deserto da Jordânia, onde ficaram depois de fugirem do Iraque por sofrerem perseguições após a queda de Saddam Hussein. Os que querem agora deixar o Brasil alegam que as promessas feitas ainda no campo da Jordânia não foram cumpridas em território brasileiro.

  • Claudia Andrade/UOL

    Farok Mansur, 60 anos, diz que precisa se mudar para um país onde possa ser submetido a uma delicada cirurgia na coluna. "Eles me deram um travesseiro de criança e um cobertor muito fino. A casa (em Mogi das Cruzes, São Paulo) é velha, tem mofo e insetos. Eu tenho diabetes e hipertensão e preciso de remédios", diz

    Ajuda de R$ 350 e atendimento médico precário
    As principais queixas referem-se ao sistema de saúde e à ajuda de custo recebida, que parte do valor mínimo de R$ 350 para um homem solteiro - caso da maior parte dos que estão acampados em Brasília. Ahmad Mustafa, 41 anos, é a exceção. Morador de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, ele conta que viajou a Brasília com a mulher e os dois filhos para reclamar das condições encontradas no país. Sem ver melhoras, voltou sozinho e ficou acampado com o grupo. "Quando chegamos ao Brasil, nós ficamos em uma igreja em Porto Alegre e Santa Maria por mais de um mês. Um dia, levaram um grupo de 40 pessoas para passar no médico, ficamos o dia inteiro esperando, sem comer nada, e, no fim, só atenderam seis pessoas. Por que então levaram 40 para lá?", questiona.

    "Quando tentamos falar com a ONG (Organização não-governamental) em Santa Maria, dizem que não têm tempo para nos receber. Pediram-me para escrever os problemas em uma carta e mandar para eles. Não quiseram ouvir. Eu mandei várias cartas para o Acnur dizendo como a ONG lida conosco, mas eles também não ouviram", acrescenta.

    Para Mustafá, o problema pode ser a "falta de experiência brasileira em receber refugiados. "Outros países que recebem refugiados falam sobre a história, a geografia do lugar, nos guiam. Nós fomos pacientes, esperamos que a situação melhorasse, mas as condições foram ficando piores. Você acha que dá para sustentar uma criança com R$ 80? Mas é isso o que eu recebo por criança", diz.

    Farok Mansur, 60 anos, fala longamente sobre seus problemas de saúde e diz que precisa mudar para um país onde possa ser submetido a uma delicada cirurgia na coluna. Ele acredita que a operação não pode ser realizada no Brasil. "Eles me deram um travesseiro de criança e um cobertor muito fino. A casa (em Mogi das Cruzes, São Paulo) é velha, tem mofo e insetos. Eu tenho diabetes e hipertensão e preciso de remédios", afirma.


    Amor pelo povo brasileiro
    Durante toda a entrevista, os palestinos ressaltaram várias vezes que "não têm nada contra o Brasil, o povo brasileiro ou o governo brasileiro". "É importante falar isso, porque contam a história pela metade, dizendo que não gostamos do Brasil, o que não é verdade. Somos gratos ao governo brasileiro por nos ter recebido", diz Mustafa. "E às pessoas do Brasil também. Em Santa Maria, os vizinhos nos ajudaram mais do que a ONG", completa.

    Para os acampados, a responsabilidade é do órgão da ONU. "Eles nos obrigaram a ficar nessa condição, por não cumprir a responsabilidade que tinham conosco. Não queremos uma vida luxuosa, com carro, nada disso. Queremos uma vida simples com a nossa família, como acontece em outros países que recebem refugiados. Não temos uma pátria. Estamos em busca de dignidade", conclui Mustafa.

    Eles também falam em dignidade nas tarefas do dia a dia. Contam que comem o que compram nos mercados da região, improvisam o banho no trecho do Lago Paranoá que fica próximo ao escritório do Acnur e procuram lugares afastados para usarem como banheiro. "Esta situação não é confortável nem para mim nem para os vizinhos, mas não tenho outra opção. Por isso tem de ser resolvida logo", avalia Mansur, que estendeu um cobertor para a repórter do UOL se sentar, na calçada, no início da entrevista.

    A conversa foi toda em inglês, com tradução feita pelos que sabiam o idioma. O mais fluente era o que havia sofrido o assalto na viagem de volta a São Paulo. "Eu dormi muito mais tranqüilo aqui na rua do que na viagem", contou o homem de 43 anos, que tem formação técnica na área de engenharia. Ele estudou no Iraque e diz ter viajado bastante a trabalho, até precisar ir para o campo na Jordânia e, depois, vir para o Brasil. "Agora, na minha idade e sem falar português, fica difícil", lamenta.

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