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17/07/2008 - 06h01

Situação melhorou, mas está longe do ideal, dizem aeroviários

Fabiana Uchinaka Da Redação Em São Paulo
A segurança de vôo melhorou, a fiscalização da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) está mais rígida e o aeroporto de Congonhas foi reestruturado, mas estamos longe do ideal. A análise é do presidente do Sindicato dos Aeroviários de São Paulo, Reginaldo Alves de Souza, ao fazer um balanço da aviação um ano depois do acidente com o Airbus 320 da TAM, que deixou 199 mortos. "A situação melhorou, mas fico muito chateado que foi preciso dois acidentes para que as coisas fossem mudadas", disse, referindo-se também à queda do Boeing da Gol, em 29 de setembro de 2006, que matou mais 154 pessoas.

Segundo ele, desde que Solange Vieira assumiu a presidência da Anac, em setembro de 2007, houve uma preocupação maior com a fiscalização de procedimentos de segurança e as empresas aéreas passaram a investir mais na manutenção das aeronaves. "Mas ainda falta pessoal para uma fiscalização mais eficiente", afirmou.

Souza acredita que o aeroporto de Congonhas ficou mais seguro depois da redução da pista principal de 1.941 para 1.640 metros, do grooving (ranhuras para escoamento de água) feito na pista principal e na auxiliar e da proibição de aeronaves descendo com o reverso (sistema que ajuda a frear a avião) travado. Para ele, a readequação no número de pousos e decolagens, que caiu de 48 para 30 por hora, também ajudou.

"Desde então não houve mais problemas. O acidente aconteceu porque o avião da TAM nunca deveria ter pousado, e não deveria sequer estar operando, naquelas condições climáticas com o reverso travado, mas não foi problema de grooving ou de tamanho de pista", declarou.

O principal agora, diz ele, é a enorme pressão que os aeroviários vêm sofrendo para que as aeronaves sejam liberadas rapidamente da pista. "É um assédio moral feito pelas empresas aéreas, que não querem pagar taxas aeroportuárias, que está levando a uma demissão em massa. A pressa e a correria induzem ao erro, ao extravio de bagagens, por exemplo, e a culpa recai sobre os aeroviários", explicou.

Congonhas é seguro, dizem especialistas
Especialistas ouvidos pelo UOL concordam que o aeroporto de Congonhas é seguro, mas ressaltam que o grande problema da aviação brasileira, escancarado pelo acidente e pela crise aérea, é a falta de planejamento do governo, resultado das tumultuadas transições do Departamento de Aviação Civil (DAC) para a Anac e, posteriormente, da presidência de Milton Zuanazzi para Solange Vieira.

Segundo o professor de transporte aéreo e aeroportuário da Faculdade de Engenharia da USP, Jorge Leal Medeiros, o acidente da TAM não teve "absolutamente nada a ver" com carência de infra-estrutura aeronáutica ou aeroportuária. "Eu acredito que houve erro de equipamento e de piloto", disse.

A opinião é compartilhada pelos especialistas em segurança de vôo Roberto Peterka e Ronaldo Jenkins. "O aeroporto não foi o culpado e a infra-estrutura em si não foi predominante para o acidente. O problema é a máquina operada pelo homem. É óbvio que os aeroportos precisam de melhorias e tudo que for feito para aumentar a segurança será bem-vindo. Mas se Congonhas for operado dentro dos limites que tem, não há nada de perigoso", disse Peterka. "Nunca estivemos inseguros antes. O acidente, pela própria palavra, foi uma ocorrência fortuita que não está relacionada a qualquer tipo de insegurança. Nenhuma aeronave pousa em Congonhas sem que o aeroporto tenha condições para isso", completou Jenkins.

Para Peterka, a crise aérea é conseqüência de uma "desorientação" da Anac, que não conseguiu recuperar o que foi perdido com o fim do DAC, em 2006, e errou ao não priorizar a tecnicidade do setor. "Acho que os acidentes podem ser atribuídos, de certa maneira, à transição que estamos passando. Tínhamos o DAC implantado há 60 anos, com uma cultura enraizada desde a direção até os mais subordinados. Muito do pessoal do DAC voltou para a Força Aérea e o pessoal que assumiu não era oriundo da aviação. Entrou em choque e isso tumultuou a atividade aérea", explicou. Quando Solange Vieira assumiu a presidência da Anac, "a direção deixou de ser política e passou a ser essencialmente técnica. Essa foi a grande mudança que aconteceu depois do acidente", completou Medeiros.

A mudança levou a uma melhora imediata na fiscalização da segurança, mas ainda falta muito para que a crise aérea seja superada. "Estão investindo em modernização do sistema de controle aéreo, que estava desatualizado, e estão contratando mais gente. Mas não se forma 600 controladores do dia para a noite. A necessidade de 600 controladores não apareceu de um ano para o outro, foi uma coisa que se acumulou. Agora não adianta correr", destacou o especialista. Peterka explica: "No DAC, os militares não eram remunerados pela capacidade, mas pelo posto que tinham. Com esse salário hoje a Anac não consegue contratar a mesma capacidade pensante, nem garantir a eficiência que os militares desempenhavam".

A Infraero informou que contratou por meio de concurso público mais de mil funcionários para reforço em diversas áreas de atuação e em diversas partes do País, sendo 37 controladores de vôo civis. A FAB (Força Aérea Brasileira), responsável pelos controladores de vôo militares, diz ter 2.700 profissionais sob seu comando, sendo que 600 profissionais foram formados nos últimos dois anos, entre civis e militares.

Atraso nos vôos em Congonhas
Ainda segundo a Infraero, desde dezembro do ano passado a tendência é de queda nos atrasos de vôos nos aeroportos do país e também em Congonhas. Segundo a empresa, a média mensal de atrasos no aeroporto paulista, no primeiro semestre de 2008, é de 5,71% para atrasos de 60 minutos. A média de todos aeroportos administrados pela Infraero é de 9,31%. Veja o gráfico:


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