UOL Notícias Cotidiano
 

05/02/2009 - 07h20

Em Paraisópolis, tropa de choque se junta a cenário que mistura PCC, milicianos e ONGs

Rodrigo Bertolotto
Do UOL Notícias
Em São Paulo (SP)
"A violência começou depois que mataram três rapazes. O comando do bairro pediu vingança. Foi aí então que tudo começou. Um rapaz chamado Alemão, que comanda o bairro de Paraisópolis ajuntou um tumulto de traficantes, e eles começaram a atacar. Ao chegar a polícia todos correram e começaram a botar fogo."

Contraste social, filantropia e repressão policial

  • Tuca Vieira/Folha Imagem

    Edifício de alto nível é vizinho às ruelas de Paraisópolis

  • Divulgação

    Kaká já visitou creche da favela para fazer doações a crianças

  • Moacyr Lopes Junior/Folha Imagem

    Cavalaria da PM faz vigília em rua comercial do bairro da zona sul

Esse é o começo da redação de uma moradora de 15 anos. Escreveu por tédio. Da mesma forma que engrossou os distúrbios da segunda-feira (2) por não ter o que fazer nesse verão. O irmão é ajudante da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital). Testemunhou a depredação de carros e lojas. Depois, viu a repressão da polícia.

"Senti um calafrio. Era uma bala de borracha da polícia. Acertou o outro moleque." Ela não consegue emprego, como várias de suas amigas - as que têm são empregadas domésticas nas mansões vizinhas. Já aprendeu a fazer decoração de bolo na sede de uma ONG incrustada no bairro.

Na zona sul de São Paulo, Paraisópolis, a segunda maior favela da cidade (60 mil habitantes de baixa escolaridade, renda e nível de emprego), sofre ocupação militar desde quarta-feira por, no mínimo, dois meses na chamada de Operação Saturação, com 300 homens de suas tropas de choque em suas ruas e vielas, mais 100 agentes nas imediações.

A população se queixa do tratamento brusco dos agentes. Um garoto foi revistado quatro vezes durante o primeiro dia de operação. Até o padre da paróquia São José, Luciano Borges, se queixou da agressividade policial.

Entretanto, o tenente-coronel Almir Ribeiro, chefe do estado maior do Comando de Policiamento de Choque, afirmou que esses são casos isolados e irá investigar. Mesma postura é tomada perante as acusações de moradores que dois PMs, apelidados de Zoio Roxo e Raio, tentavam anteriormente dominar a favela (no estilo das milícias do Rio) e estariam por trás da mortes e detenções que motivaram o vandalismo de dois dias atrás - o secretário de Segurança Pública, Ronaldo Marzagão, disse que essas denúncias são "um grão de sal".

Policiais camuflados para a selva, montados em cavalos ou escoltados por cães, desfilam agora por ruas estreitas dessa favela que é considerada privilegiada em relação às suas similares de periferia, por receber projetos sociais de seus vizinhos endinheirados do Morumbi.

O Hospital Albert Einstein, o mais caro da cidade, mantém posto por lá. A Bovespa custeou biblioteca. O colégio Porto Seguro, com mensalidades até de R$ 1.000, oferece bolsas na comunidade. Igrejas vizinhas disponibilizam vagas em suas creches. O jogador Kaká já distribuiu bolas para creche local. A atriz Karina Bacchi já promoveu calças jeans recicladas por lá em ONG que é administrada por sua mãe.

Na ladeira, que foi cenário de quebra-quebra e fuga dos manifestantes, há uma escadaria feita de mosaico de azulejos, um escorregador que acaba em poça de lama e duas pouco usadas mesas de concreto para jogar xadrez - tudo obra de filantropia.

Formada a partir dos anos 60 por operários que trabalharam na construção do estádio do Morumbi e outras edificações vizinhas, Paraisópolis se caracteriza por ter recebido forte presença de migrantes nordestinos, muitos vindos da mesma família ou mesma cidade.

A atuação da associação de moradores seria uma das razões pelas quais o crime organizado demorou a entrar na área. O outro motivo seria a presença de justiceiros, que afugentaram até 2003 o PCC. Quando finalmente dominou Paraisópolis, a facção tinha à frente Francisco Antonio Cesário da Silva, 31, o Piauí. Ele liderava as "biqueiras" (locais de venda de droga) e comandava as festas no Batucão, local das festas funk.

Sua detenção no final de 2008, seguida pela prisão de comparsas, teria criado um vácuo de poder do PCC na área. Por depoimentos de moradores, PMs agindo como milicianos tentavam intimidar a facção. Também há relatos que Alemão, dono de um lava-rápido local, teria controlado as ações do PCC e teria incitado o tumulto que foi um tiro pela culatra para a facção, afinal, o comércio de entorpecente parará por várias semanas.

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,38
    3,156
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h22

    0,41
    65.277,38
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host