UOL Notícias Cotidiano
 

01/12/2009 - 16h40

Unidade de Polícia Pacificadora privilegia zona rica do Rio, dizem especialistas

Herika Pacheco
Do UOL Notícias
No Rio de Janeiro
Atualizada às 17h51

A nova política de segurança pública do Estado prioriza a zona sul do Rio de Janeiro, região mais nobre da capital fluminense. Esta é a crítica que especialistas da área fizeram à reportagem do UOL Notícias sobre a ocupação da Polícia Militar para a implantação de mais uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), desta vez nas comunidades do Pavão-Pavãozinho e Cantagalo, em Copacabana e Ipanema, respectivamente.

Sem "proibidão" e com UPP, morro da Dona Marta (RJ) se adapta à vida enquadrada

  • Rosanne D'Agostino/UOL

    Há quase um ano, a comunidade Santa Marta é controlada pela polícia e divulgada como "favela modelo" na chamada política de policiamento de proximidade, da atual gestão no Estado do Rio



Para a socióloga Alba Zaluar, coordenadora do Núcleo de Pesquisas e Estudo de Violências da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), a segurança nas comunidades é importante, mas "é preciso saber qual o critério que a secretaria de Segurança Pública utiliza para escolher as comunidades a serem atendidas pelas UPPs. Estudos mostram que há outras regiões mais problemáticas e que precisam de mais segurança do que as favelas daquela região. As comunidades do subúrbio, da região central do Rio de Janeiro e do entorno da Tijuca [na zona norte] são exemplos. É preciso mapear as áreas e traçar ações mais estratégicas.", enfatizou.

A critica foi feita um dia depois que a Polícia Militar, Tropa de Choque e homens do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) ocuparam as favelas. Com o objetivo de expulsar traficantes, o efetivo permanecerá no local por mais vinte dias, prazo para a implantação da UPP naquela área.

Alba Zaluar concluiu que ainda é necessário buscar alternativas para o tráfico. "Os governos precisam realizar ações integradas nas áreas da saúde, educação, cultura e lazer nas comunidades.".

Julita Lemgruber, diretora do Centro de Estudos em Segurança Pública da Universidade Cândido Mendes, também criticou as ações do governo focadas na zona sul do Rio de Janeiro. "Espero que comunidades mais perigosas, carentes de segurança recebam as UPPs. As favelas da Maré e o Complexo do Alemão são exemplos. Elas reúnem muitos problemas e precisam da presença permanente da polícia pacificadora", disse.

O governador Sérgio Cabral anunciou também nesta terça-feira (1º), em entrevista à rádio CBN, que as próximas UPPs também serão destinadas à zona sul. "As comunidades Ladeira dos Tabajaras e Morro dos Cabritos, em Copacabana, serão as próximas beneficiadas", disse. "Em 2010 vamos levar UPPs para a Tijuca (zona norte) e Vila Leopoldina (região central)", completou.

O governo afirma que a nova UPP no Pavão Pavãozinho e Cantagalo beneficiará 11 mil moradores. Trezentos policiais militares que se formam este mês serão destinados à unidade e às duas próximas UPPs anunciadas.

A secretaria de Segurança Pública informou que priorizou as favelas menores do Rio de Janeiro, localizadas na zona zul, porque ainda não possui efetivo suficiente para atuar nas grandes comunidades, mas que até o final de 2010 três mil novos policiais militares serão formados e estarão trabalhando nas próximas UPPs. Os policiais receberão uma complementação salarial de, no mínimo, R$ 500, paga pela prefeitura carioca por meio de convênio.

"Essa proposta não vai parar. É um aceno concreto de que nos preparamos para fazer isso e vamos continuar fazendo. E teremos um grande número de pessoas beneficiadas até o final do ano que vem. Pretendemos chegar a 30% das comunidades, que sofrem hoje a lógica do território imposto pelo fuzil, livre dessa arma, livre do comando desses marginais", disse o secretário José Mariano Beltrame.

Atualmente, 10% da população carioca que vive em favelas é atendida pelas Unidades Policiais Pacificadoras.

Com a UPP de Pavão-Pavãozinho e Cantagalo, sobe para sete o número de comunidades regidas pela nova política de segurança pública. Atualmente, Dona Marta (Botafogo, na zona sul), o Jardim Batan (Realengo, na zona oeste), Cidade de Deus (Jacarepaguá, na zona oeste), Babilônia e Chapéu Mangueira (ambos no Leme, zona sul), já contam com as mesmas unidades policiais.

"Esperamos sempre o melhor"
Um dia após a ocupação, moradores das duas comunidades ainda tentam assimilar como será a vida por lá. E estão receosos em dar declarações. Uma moradora da comunidade Pavão Pavãozinho, que preferiu não se identificar, tem esperanças de que a paz chegue à favela. "Eu acredito que a presença da polícia trará mais tranqüilidade para nós e nossos filhos. Esperamos sempre o melhor", disse.

O presidente da Associação de Moradores da comunidade Dona Marta, José Mário Ilário, falou que a presença da polícia pacificadora na favela tem aprovação "de 98%" dos moradores. A PM ocupa o local desde novembro do ano passado. No entanto, ele faz uma ressalva. "O policiamento foi bom, mas a gente precisa de mais atuação do governo em educação e projetos sociais", cobrou.

A ocupação
Durante a ocupação da PM nas comunidades de Copacabana e Ipanema, os traficantes receberam a polícia com tiros. Um homem foi morto e outro, com mandado de prisão expedido anteriormente, preso. Segundo a polícia, os dois tinham ligação com o tráfico de drogas.

Até o final da tarde desta terça-feira, quatro granadas, duas pistolas, uma carabina 38, uma escopeta 12, uma metralhadora 9 mm, e uma sub-metralhadora 9 mm foram apreendidos. Segundo a polícia, o armamento estava num saco enterrado em uma terreno baldio no alto do morro Pavão-Pavãozinho.

Além disso, foram encontrados também 498 sacolés de cocaína, 49 de haxixe, 200 pedras de crack e diversos rádios transmissores que eram provavelmente usados pelos traficantes.

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