UOL Notícias Cotidiano
 

02/01/2010 - 13h49

Tragédia expõe fratura entre ricos e pobres em Angra dos Reis

Maurício Savarese
Enviado especial do UOL Notícias
Em Angra dos Reis (RJ)
Atualizada às 18h15

Os deslizamentos de terra que nos últimos dias mataram mais de 40 pessoas em Angra dos Reis, litoral sul do Rio de Janeiro, afetaram tanto os mais ricos - que trouxeram elegância e fama à cidade e a suas centenas de ilhas na década de 80 - como os pobres que ocupam os morros dali, atraídos pelos recursos do petróleo e do turismo na região. Moradores denunciam que, além da condição social, o tratamento também tem sido diferente em meio à crise.

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Na manhã deste sábado (2) as equipes de resgate localizaram mais corpos na região do deslizamento que atingiu a pousada Sankay, na praia do Bananal, em Ilha Grande, distrito de Angra dos Reis. Com isso, o número de mortos na área, onde os trabalhos não pararam desde o incidente da madrugada de ontem, avançou para 28.

Já no morro da Carioca, parte pobre da área continental da cidade, 13 mortos foram encontrados. Ali, no entanto, os trabalhos foram interrompidos durante a noite e retomados na manhã deste sábado. Apesar das críticas dos moradores, o Corpo de Bombeiros informou que interrompeu as buscas por conta de risco de novos deslizamentos na região ocupada principalmente por migrantes atraídos por recursos do petróleo e do turismo.
  • Felipe Dana / AP

    Colchões e outros ítens que restaram da Pousada Sankay são colocados em um barco


"Aqui a prioridade nunca foi para quem é da região, é para o turista sempre", disse Edson Silveira, 39, que atende passageiros da viagem de lancha entre a parte continental e o distrito de Ilha Grande. "O turista é importante, mas sem a gente que vive aqui no resto do ano a cidade não anda. E somos gente também, oras."

Sentado no estrado de madeira do píer que dá visão para o deslizamento no morro da Carioca, ele aponta também descaso dos moradores da região. "Eu mesmo já vivi ali e sei que não é seguro. Tem gente que não vai sair nem depois disso. Mas a verdade é que a cidade ganha dinheiro de royalties (de petróleo), só se fala em royalties, que ninguém nem sabe direito o que é, e esse morro só cresce desde que me conheço por gente."

Mais cedo, o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB), também criticou os moradores que não querem deixar áreas de risco e disse que eles assinarão um termo de responsabilidade para seguir nas áreas de encostas ameaçadas de desabar.

Angra rica
Reduto de artistas e empresários que nutrem hobbies como descobrir novas ilhas e promover festas em iates, Angra dos Reis é reconhecida como um dos destinos mais luxuosos do país. Em Ilha Grande, que abrigava um temido presídio durante o Regime Militar (1964-1985), o movimento de turistas aumentou em meados dos anos 80, segundo Elias Souza, 62, dono de uma pousada que acabou de completar sua terceira década de vida.

"Quem é daqui sempre soube que existe uma Angra mais rica e outra pobre, nos morros. Essa é uma coisa que vai mudar, eu percebi que desde ontem (1º) as pessoas que fazem reservas aqui me perguntam sobre os morros, sobre se é perto da favela que desabou", comentou.

A dona de casa paulista Silvia Nogueira, 48, chegou a Angra na quarta-feira para sua primeira visita à cidade e se assustou ao ver a clareira aberta pelo deslizamento no morro da Carioca. "Confesso que a imagem que sempre tive foi a de que a cidade era muito rica, cheia de velejadores e de gente elegante. Não sabia que aqui tinha gente sofrendo nos morros", disse.

A prefeitura de Angra criou um centro de apoio às famílias das vítimas dos deslizamentos. Ele está funcionando na sede da TurisAngra, na avenida Júlio Maria, no centro da cidade, e tem o objetivo do órgão de prestar apoio e fornecer informações a familiares das vítimas. O centro pode ser contatado ainda pelo telefone 0/xx/24/3367-7518.

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