Índios fundam a Maloca Dez Irmãos em homenagem aos indígenas baleados em maio

Carolina Juliano
Enviada Especial do UOL
No Distrito de Surumu (Roraima)

No dia 5 de maio deste ano dez indígenas foram baleados por homens encapuzados enquanto davam início à construção de mais uma maloca dentro da Terra Indígena Raposa/Serra do Sol. Segundo relato dos índios, homens da fazenda de Paulo César Quartiero, prefeito da cidade de Pacaraima e líder dos arrozeiros na região, chegaram atirando pelo fato de estarem construindo nas proximidades da entrada de uma das fazendas de Quartiero.

  • Arte UOL

    Infográfico: entenda o conflito na Raposa/Serra do Sol e saiba quem são os envolvidos

O empresário nega que tenha atirado contra os índios. Na ocasião, Quartiero se defendeu dizendo que deu recomendações a seus funcionários para que não deixassem ninguém invadir a fazenda. "Dei ordens para que atuassem conforme a situação. Como eles foram recebidos a flechadas e estavam em um número menor, reagiram atirando até para salvarem suas vidas", declarou.

Alguns dos atingidos ainda se recuperam dos ferimentos. Mas desde aquele dia, um grupo de indígenas ocupa o mesmo local onde eles foram atingidos que foi agora denominado Maloca dos Dez irmãos. "Já íamos construir antes, e agora fazemos mesmo questão de manter essa ocupação aqui. A terra é nossa, ninguém nos pode impedir", diz Dionito José de Souza, coordenador do Conselho Indígena de Roraima (CIR).

As estruturas que já estão construídas foram cobertas de lona e plástico provisoriamente para que o local possa ficar sempre ocupado. "Depois vai ser feito tudo direitinho, com palha, e vamos plantar ao redor", explica Dionito. "Mas assim já dá para colocar as redes e o pessoal fica aí tomando conta."

De Mitsubishi, com um índio, na Raposa/Serra do Sol

Tive sorte ao pegar no telefone em Boa Vista, capital de Roraima, e tentar contatar Dionito José de Souza, o líder indígena que está mais por dentro da situação da homologação da Raposa/Serra do Sol. "Estou indo agora para aquela região, vou para a reserva." Depois de uma pequena insistência da minha parte, ele concordou em me levar de carona. Só pediu que eu contribuísse com alguma quantia para pagar o combustível porque para me deixar depois em Pacaraima teriam que desviar o caminho e percorrer mais 60 km. Aceitei sem pensar.

A Maloca Dez Irmãos fica a menos de cinco quilômetros da entrada da fazenda de Quartiero. Alguns funcionários do arrozeiro passam por ali diariamente. "Eles tentam nos intimidar, passam de moto, fazendo barulho, mas não temos medo", conta Eneiza Maria Mel, índia macuxi que é prima de Dionito.

"Vivo nessas terras há 40 anos. Meus pais e meus avós sempre me disseram que as terras eram nossas. Por isso nunca saí daqui e não vou sair agora porque alguém inventou de dizer que as terras não serão mais nossas", diz Eneiza.

Ela é uma dos cerca de 20 índios do CIR que permanecem na Dez Irmãos pelo menos até o STF julgar a ação que contesta a homologação da Terra Indígena Raposa/Serra do Sol. "Paulo César diz que é forte e poderoso. Eu sou índia, sou muito mais forte do que ele", diz ela completando: "E você faça o favor de escrever direito tudo o que nós falamos, viu?"

Diariamente índios de outras comunidades levam comida aos irmãos que mantêm a ocupação da Maloca Dez Irmãos. Os planos do CIR é para que cerca de 60 pessoas assumam o local depois que "as coisas se arranjarem". "É uma zona boa, além de ter solo bom para plantar, está próxima de uma boa área de caça", diz Dionito.

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