Começar a trabalhar muito cedo reduz chances de conseguir bons salários no futuro, avalia ONU

Claudia Andrade
Do UOL Notícias
Em Brasília

O trabalho infantil tem conseqüências imediatas ao desenvolvimento humano, além de gerar limitações para o futuro da criança e do adolescente, destaca o relatório sobre emprego e desenvolvimento humano divulgado nesta segunda-feira pela Organização das Nações Unidas (ONU). "A entrada prematura no mercado de trabalho limita significativamente as oportunidades de obter um trabalho decente na idade adulta", aponta o estudo.

A diretora da OIT (Organização Internacional do Trabalho) no Brasil, Laís Abramo, explica que "pessoas que começaram a trabalhar antes dos 14 anos tem chances menores de conseguirem rendimentos superiores a R$ 1 mil na idade adulta. Quem começou a trabalhar aos 9 anos raramente consegue um rendimento acima de R$ 500", citando um estudo realizado com base nos dados da Pnad (Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios).

Para Laís, é falsa a idéia de que exercer uma atividade durante a adolescência é uma preparação para o mercado de trabalho. "Acontece exatamente o contrário. O trabalho prematuro confina ou condena a pessoa a uma situação de trabalho não-decente", ressaltou. De acordo com a ONU, o trabalho decente envolve, entre outras coisas, boa remuneração, boas condições no ambiente de trabalho e uma jornada que não seja excessiva, além da não-existência de mão-de-obra infantil.

O desnível de renda entre os que começaram a trabalhar mais cedo e os que puderam adiar a entrada no mercado é sentido com o passar do tempo, aponta o relatório. Até os 30 anos, a renda não é muito diferente para quem começou a trabalhar entre 15 e 17 anos e quem ingressou com 18 ou 19 anos, mas à medida que a pessoa envelhece os que começaram a trabalhar mais tarde têm mais chances de conseguir um salário melhor.

Quem entrou no mercado depois dos 20 anos têm mais possibilidade de ter melhor remuneração ao longo da vida, porque provavelmente teve chances de ter alcançado níveis de escolaridade e qualificação mais elevados.

"Esse é um ponto que precisa ser acompanhado mais de perto. São necessárias novas políticas públicas para dar condições de financiamento para esses jovens, neste período de inatividade durante os estudos, porque quem tem financiamento privado, pode se sustentar durante os estudos, acaba tendo melhores oportunidades. Essa diferença transforma o mercado de trabalho em uma reprodução das desigualdades da sociedade brasileira", analisou o economista do Ipea (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas) e consultor do estudo da ONU, Marcio Pochmann.

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