No rastro da violência, a decaída do subúrbio no Rio

Da Agência JB

O esvaziamento industrial do Rio de Janeiro é um dos muitos desafios que o novo prefeito vai ter que enfrentar. Segundo pesquisa da Secretária Municipal de Urbanismo sobre imóveis abandonados na cidade, o subúrbio e a Zona Norte concentram grande parte dessas construções. A região corresponde a 80 dos 159 bairros da cidade e abriga dois milhões e trezentas mil pessoas de acordo com o estudo técnico da Secretaria Municipal do Habitat (SMH). Desse total, 500 mil moram em favelas.

No início do século 20, o subúrbio crescia e se desenvolvia através de incentivos públicos para a criação de um parque industrial. Construções importantes como a Avenida Brasil inaugurada em 1946, durante a administração do prefeito Henrique Dodsworth, uma das principais vias para o escoamento de produção das empresas para outros estados. O espaço atraiu muitas fábricas, mas agora é visto como uma zona desvalorizada e insegura em decorrência dos muitos assaltos a cargas na região.

Ao longo dos 58 quilômetros e 27 bairros da Avenida Brasil é possível constatar a degradação do entorno com vários prédios e galpões abandonados. Muitas empresas fecharam as portas ou se mudaram de endereço. Quem persiste conta as dificuldades de se manter, como Nilton Mota Pinheiro, que trabalha com reciclagem há dois anos dentro de uma antiga fábrica de madeira. Segundo ele, o espaço corria risco de ser invadido quando fez uma parceria com o dono para instalar um centro de coleta seletiva.

"Muita gente queria invadir, mas mostramos que o espaço estava sendo usado. A fábrica estava fechada há 10 anos e chegou a ter 50 funcionários trabalhando diariamente. Dos tempos de glória restou apenas o esqueleto do prédio e a visão privilegiada da região", conta.

No início do ano, a fábrica da General Eletrics, no bairro de Maria da Graça, fechou as portas depois de 86 anos. No total, 900 pessoas ficaram desempregadas. O fim das atividades de mais uma empresa na região, que já foi o segundo maior parque industrial do Rio de Janeiro na década de 60, é mais um sintoma das transformações sócio-econômicas que aconteceram no local.

No bairro do Jacaré, são mais de 40 imóveis de uso industrial que estão abandonados ou foram invadidos. No início de 2007, uma refinaria de açúcar, fechada há 15 anos, foi ocupada por 300 famílias. O lugar foi batizado de Vila União, tem associação de moradores e registro na Federação de Favelas do Rio de Janeiro (Faferj).

Segundo a vice-presidente Regiane Cristina, muitos moradores vieram com a esperança de ter o seu espaço, mesmo com medo de serem obrigados a sair:

"A maioria veio do Jacarezinho e não tinha mais condição de pagar aluguel de um barraco. Nenhum representante da fábrica nos procurou. Esperamos conseguir o usucapião desse espaço".

Existem várias ocupações similares a Vila União na região que já têm associações de moradores. Segundo Regiane, os responsáveis pela refinaria abandonaram o imóvel e nunca procuraram os moradores. Para provar, ela mostra o carnê do IPTU que a associação recebeu de 2008 no valor de R$ 1,7 milhões.

A relação entre público e privado dentro das ocupações segue uma lógica própria para se avaliar o preço de um espaço. Segundo ela, se a pessoa quiser comprar uma casa pronta, o preço pode variar até R$ 4 mil dependendo das melhorias feitas, mão-de-obra e material gasto.

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