PF prende seu "número 2", acusado de participar de esquema de tráfico de influência em dois Estados e no DF

Piero Locatelli
Do UOL Notícias
Em Brasília

Atualizado às 18h33

A Polícia Federal prendeu nesta terça-feira o diretor-executivo da corporação, Romero Menezes, e mais duas pessoas acusadas de advocacia administrativa, corrupção passiva e tráfico de influência durante ação realizada no Amapá, Pará e Distrito Federal. Também foram presos, de acordo com a Procuradoria Geral da República, José Gomes de Menezes Júnior (irmão de Romero) e Renato Camargo dos Santos, diretor da empresa MMX, de propriedade de Eike Batista.

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Também segundo a Procuradoria Geral da República, as ações ocorreram como resultado de um inquérito aberto sobre o vazamento de informações da operação Toque de Midas, que investiga irregularidades na licitação de uma estrada de ferro no Amapá, vencida pela MMX. A Polícia Federal, porém, disse que a prisão de Menezes não tem ligação nenhuma com o vazamento de informações.

O delegado Romero Menezes, na hierarquia da Polícia Federal, é o segundo homem: ele responde diretamente ao diretor-geral da instituição, Luiz Fernando Corrêa. Ele chegou a ocupar interinamente a direção-geral da PF, em período de férias de Corrêa -inclusive no momento da crise institucional que a PF atravessou em decorrência da Operação Satiagraha, também em julho passado.

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Segundo a Polícia Federal, os detalhes das acusações não podem ser divulgados porque a investigação ocorre sob segredo de Justiça. O superintendente da PF do Amapá, Anderson Rui Fontel, também não quis revelar a jornalistas se foram utilizados grampos na operação.

Segundo o delegado Roberto Ciciliatti Troncon Filho, a suspeita sobre o diretor-executivo da PF é de favorecimento a uma empresa em que seu irmão é gerente. Ainda segundo a PF, não há "prova cabal" contra Menezes.

O pedido de prisão foi feito pelo Ministério Público e acatado pela Polícia Federal. Segundo a PF, o pedido de prisão ocorreu porque Menezes poderia obstruir as investigações no cargo que ocupava. "A prisão temporária é uma forma de garantir a coleta das provas. Na visão do MP, foi preciso a prisão por um curto espaço de tempo", disse o delegado Roberto Ciciliatti Troncon Filho, diretor de Combate ao Crime Organizado da corporação.

Troncon é quem deve deve substituir Menezes do cargo pois, segundo a PF, ele pediu afastamento do cargo.

  • Valter Campanato/ABr/25.out.2006

    Número dois na hierarquia da PF desde 2006, Romero Menezes é acusado de participar de esquema de tráfico de influência

A PF suspeita que um funcionário da EBX, holding controlada pelo empresário Eike Batista, e um prestador de serviços agissem em busca de facilidades para suas empresas junto a Menezes. Entre as benesses procuradas, estavam fraudes em inscrição para curso de supervisor de segurança portuária e credenciamento para instrutor de tiro sem análise prévia dos requisitos legais.

Relembre o caso
Deflagrada em 11 de julho pela PF, a operação Toque de Midas investigava uma suposta fraude na licitação de concessão da Estrada de Ferro do Amapá para a MMX, mineradora do grupo de Eike Batista. A ferrovia escoa minério da Serra do Navio para o Porto de Santana, às margens do rio Amazonas.

Na ocasião, foram cumpridos mandados de busca e apreensão na casa de Eike e em outros 11 locais. No entanto, nenhuma prisão foi feita e a MMX negou a existência de irregularidades na concessão.

PF diz que prisão não era necessária

O diretor de combate ao crime organizado da PF disse que a prisão do diretor-executivo da instituição não era necessária, embora a instituição tenha cumprido a recomendação do MP


A investigação apontou que o responsável pela negociação da suposta fraude à licitação teria atuado também na coordenação da arrecadação de recursos da campanha de reeleição do governador do Amapá, Waldez Góes (PDT). Informação do Tribunal Superior Eleitoral mostra que Eike foi o maior colaborador do comitê de Góes, somando um total de R$ 200 mil em doações.

Imagem da PF
O delegado Roberto Ciciliatti Troncon Filho afirmou, em entrevista coletiva nesta tarde em Brasília, que a imagem da Polícia Federal não deve ficar abalada com a prisão de Romero Menezes, número dois da entidade.

"Eu, sim, posso ficar abalado e chateado, mas a PF tem dado provas que não importa quão chato e doloroso, é tudo sempre feito dentro da regra do jogo", disse Troncon, que deve substituir Menezes no cargo.

Segundo ele a prisão pedida pelo Ministério Público "não é uma situação corriqueira, mas a PF cumprirá qualquer decisão judicial, seja com que quer que seja". Ele também afirmou, durante entrevista coletiva, que no entender da Polícia Federal, está prisão não seria necessária.

Ele negou que haja uma situação de crise na Polícia Federal, com os escândalos envolvendo os grampos da Abin e a operação Satiagraha. Segundo ele, a prisão de Menezes em meio a esses tumultos, é somente mais uma coincidência.

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