Tarefas simples do dia-a-dia exigem "jogo de cintura" dos anões

Gabriela Sylos
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Basta um anão atravessar a porta de casa para começar a encontrar obstáculos pela frente. "Temos problema nos ônibus, nos caixas eletrônicos, em banheiros públicos. Não usamos roupa de criança, como muita gente acha, temos que comprar e refazer os modelos", conta Hélio Pottes, 53 anos, 1,33 m, publicitário e presidente da associação Gente Pequena, voltada para a conscientização sobre o nanismo. "Em qualquer lugar temos problema, no supermercado, em balcões, no elevador. Quem é tímido e tem que pedir favor aos outros sofre", afirma.
  • Roberto Setton/UOL

    Hélio Pottes usa sua garrinha de plástico para alcançar os produtos que ficam nas prateleiras altas do supermercado

  • Roberto Setton/UOL

    Kênia Hubner usa seu banquinho quando tem que lavar a louça. Ela e o marido Hélio não quiseram fazer grandes adaptações na casa porque pessoas mais altas trabalham lá e, se vendesse a residência, teriam que "desfazer" as mudanças


    Mas Hélio não é nada tímido. "Eu saio para criar problema", brinca. Quando ele encontra um carro parado na vaga de deficiente físico, reclama. Quando tem uma planta na frente do botão que chama o elevador, ele empurra. Quando quer um produto que está na prateleira de cima do supermercado, sobe nas prateleiras debaixo —ou usa sua garrinha de plástico para alcançar o produto. Quando tem que tirar foto para o crachá de visitante, levanta a mão. "Assim todo mundo já sabe que sou eu".

    O ônibus é um caso à parte. "Onde a catraca bate no joelho dos outros, é a minha bunda. Para subir em ônibus não adaptado, só andando de quatro". A atriz e dona da loja Casinha Pequenina, Mila Poci Cabral, 39 anos, 1,20 m, diz que quando vai entrar no ônibus olha bem para o rosto do motorista para se certificar que ele a enxergou. "Uma vez ele arrancou enquanto eu estava subindo, e eu fiquei pendurada. Comecei a gritar e ele teve que parar o ônibus", lembra.

    A advogada Tatiana Muniz, 29 anos, 1,26 m, lembra que quando trabalhava em um escritório de advocacia, as visitas aos cartórios eram desafiadoras. "Os balcões são altos, então a gente tem que pedir para entrar para verificar os processos. Eu fui maltratada pelos funcionários algumas vezes e não recebia atendimento preferencial", relata. "Para se locomover também era um problema, são pouquíssimos os ônibus com adaptação e em alguns prédios faltam elevadores", diz a advogada.

    Lazer e vida em família
    Hélio e sua mulher Kênia Hubner, 53 anos, 1,23 m, não tem medo de sair mesmo que, às vezes, ir ao cinema signifique pedir para as pessoas levantarem. "A distância entre as poltronas é pequena, a gente não consegue passar com as pessoas sentadas. O segredo é não chegar atrasado", diz Hélio.

    Mila e sua irmã Adriana Poci Cabral, 42 anos, 1,30 m, freqüentam bares, festas e shows. Elas também organizam eventos com os colegas lojistas e os outros anões. "A gente já fez campeonato de autorama, de mini-golfe e queria fazer dos 'pintores de rodapé'", divertem-se as irmãs.

    O cotidiano filmado

    • Os anões foram parar em um reality show produzido nos EUA e exibido pelo canal Discovery Home & Health na TV paga. "A Pequena Grande Família" (em inglês, "Little People, Big World") é composta pelo casal Matt e Amy -ambos anões-, e os quatro filhos: Jeremy, Molly, Jacob e Zachary, este último o único dos filhos que tem nanismo. Entre outras atividades, a família administra uma fazenda em Oregon. O programa captura as frustrações e os sucessos da família, e mostra como eles lidam com os problemas cotidianos de acessibilidade e preconceito.

    Solteiras, as duas moram com os pais, que são primos de primeiro grau. "Quando nasceram duas anãs, eles não quiseram mais ter filhos", conta Adriana. A mãe ajuda as duas a cuidar da loja, mas a relação delas com o pai é mais distante. "Quando eu tinha 12 anos, um médico me disse que aos 19 eu não andaria mais. Eu tive pesadelo por um ano, mas eu não queria fazer cirurgia porque era muito sofrido. Dessa época que o meu pai começou a implicar comigo, eu acho que ele não entendia por que eu não queria fazer", relembra Mila.

    Mas as irmãs ainda querem sair de casa e casar. "A Mila espera um príncipe encantado", conta Adriana. "E a Adriana é mais 'ficante'", retruca Mila. Mas nenhuma das duas quer ter filho: Mila diz que não gosta de criança e Adriana tem medo de sofrer um aborto. "Uma amiga minha teve quatro", explica, temerosa.

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