Mídia multiplica protesto cicloativista no Dia Mundial Sem Carro

Rodrigo Bertolotto
Em São Paulo

Era uma bicicletada para marcar o Dia Mundial Sem Carro, mas uma hora antes da manifestação os cerca de 50 ciclistas e suas magrelas estavam cercados por todos os lados por veículos.

Incluindo aí muitos veículos de comunicação, o que inspirava propor também o Dia Mundial Sem Mídia, afinal, fotógrafos, cinegrafistas e jornalistas esbarravam uns nos outros atrás de personagens para suas reportagens. Seria mais um na lista, que inclui o Dia Sem Tabaco, o Dia Sem Compras, o Dia Sem Celular ou o Dia Sem Avião.

Com a proximidade das 20h, os ciclistas já formavam ampla maioria, chegando a cerca de 500. Meia-hora depois inauguravam a ciclovia que eles mesmos improvisaram na rua Bela Cintra, distribuindo placas nos postes e pinturas no asfalto. O cerimonial incluiu até o corte de uma faixa, uma fita crepe que acabou rasgada por um motoboy apressado que disparou quando o semáforo abriu.
 

Um garçom que trabalha nas redondezas acreditou nas indicações na rua, que forma quase um quilômetro de pirambeira (um desafio até para atletas). "Isso foi uma boa, porque antes tinha que descer da bicicleta e empurrar porque não tinha espaço. Agora vou pedalar", se entusiasmou diante dos microfones. Quando voltou ao guidão, quase foi abalroado por um automóvel (confira ao lado, depoimento do primeiro usuário e cenas da ciclovia inventada pelos manifestantes).

Mas até um marronzinho da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) caiu na ciclovia falsa. Um deles se dirigiu a vereadora e candidata a prefeita Soninha Francine (PPS) e se queixou da tinta usada. "Vou verificar com a empresa porque pintam a faixa com tinta tão vagabunda. Sai em menos de um mês", disse o funcionário diante do olhar atônito da política que usa seu hábito ciclístico em sua campanha (chegou aos debates televisivos pedalando para marcar sua opção).

O ato desta segunda teve um clima de Carnaval, com apitos, marchinhas, cerveja, bolinhas de sabão e máscaras cirúrgicas, de gás e de fantasia mesmo. Alguns estavam vestidos de palhaços. Outros tinham bóias na cintura. "Esse é meu air-bag", brincou um deles. As músicas defendendo a causa animavam a concentração antes da pedalada. Uma entoava: "Parem os Carros/Parem os Cigarros/Queremos pedalar/Queremos Respirar." Outra era mais concisa: "Menos gasolina, mais adrenalina."
 

Havia também muitas placas com lemas. A mais enigmática era a que tinha a seguinte frase: "Leve-me a seu líder". Na verdade, era uma referência aos policiais, que sempre querem identificar o responsável pela manifestação para detê-lo. Em protesto no último mês de junho, quando os ciclistas ficaram nus, o preso foi o analista de sistema André Pasqualini, que renega qualquer papel de liderança todo momento (veja entrevista ao lado).

Um participante se aproximou dele e pergunta: "Líder, quero ir ao banheiro, posso ir antes da gente sair?". Ao que André disparou: "Líder é o caralho." Antes da interrupção, ele criticava a cultura do carro, e mostrava como a adoção da bicicleta é uma saída para estes tempos de congestionamento recorde e de lei que proíbe qualquer gota de álcool no motorista.

"Nós nos divertimos bebendo e pedalando. Os motoristas de carro não têm nenhuma: ficam no trânsito e na lei seca. Só ganha stress", sentencia Pasqualini.

Dessa vez, os policiais militares chegaram e pediram o RG do responsável pelo ato. Mas eles são despistados. "O líder é ele", "não é ele, eu sou o vice-líder", "cadê o gerente?", "pega o RG da Soninha", "aqui não tem entidade, é só uma coincidência" foram algumas das declarações para os "coxinhas" (nome dado aos PMs) têm que ouvir dos manifestantes.

Os atritos também vêm dos carros, que reagem com buzinadas a mais um obstáculo a atrapalhar o fluxo. "Viados", gritou um motorista ao passar pelos ciclistas. "Babaca. Buzina, otário", respondeu um ciclista.
 

A presença feminina foi grande. Além da candidata Soninha, a celebridade do movimento é dona Teresa, uma senhora de 60 anos que se declara a "matriarca" da bicicletada. "Desde que me separei aos 37 anos, adotei a bicicleta. Agora, estou com essa molecada e não abro", afirmou Teresa D?Aprile (assista ao lado a trechos da entrevista de Soninha e dona Teresa em vídeo).

Os próprios ativistas, porém, sabem que o ato é simbólico, afinal, o carro faz a cultura e a economia atuais girarem a seu redor (exemplo disso é que, quando se quer mostrar que uma desaceleração ou estagnação, a foto típica é o pátio de concessionária cheio de veículos sem consumidor). Mas querem marcar território e mostrar o irracionável de tantos carros a poluir e atravancar a cidade.

O evento é uma oportunidade para boas imagens. Os fotógrafos aproveitam a luz dos faróis dos carros, que formam sombra no asfalto ao passar pela silhueta das magrelas para fazer seus retratos. Um cinegrafista coloca sua câmera no chão para o melhor enquadramento dos ciclistas passando. A mídia deu seu espaço para os adeptos das bicicletas - mesmo que depois e antes tenham entrado propagandas de montadoras.

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