Cai o número de atingidos por balas perdidas, no Rio; especialistas dizem que é cedo para comemorar

Rafaella Javoski
Do UOL Notícias
No Rio de Janeiro

As 135 pessoas feridas por bala perdida no Estado do Rio de Janeiro neste primeiro semestre de 2008 representam uma redução de 21,1% em relação ao mesmo período do ano passado, como indica o Relatório Temático de Bala Perdida, divulgado nesta sexta-feira (26) pelo Instituto de Segurança Pública (ISP).

De janeiro a junho de 2008, a capital fluminense registrou o maior número de casos, com oito vítimas fatais e 93 feridos. Em segundo lugar está a Baixada Fluminense, com três mortes e 23 pessoas atingidas por bala perdida.

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A redução no número de atingidos por balas perdidas é motivo de comemoração?


Nos seis primeiros meses de 2007 foram registradas 36 vítimas a mais, totalizando 171. Dessas, 12 morreram. Em todo o ano de 2006, 224 pessoas foram atingidas e houve 19 óbitos.

As operações da polícia foram mencionadas em quatro casos. Apenas uma morte foi relacionada à alguma ação dos policiais nas proximidades do local onde a vítima foi atingida e, entre os feridos, a atuação dos mesmos foi lembrada em três oportunidades.

Segundo o estudo, os adultos com idade a partir de 30 anos constituem 37,5% do total das vítimas fatais, com três ocorrências. Os adolescentes de 12 a 17 anos são 25%, com duas mortes por bala perdida.

Os homens correspondem a 75% do total de mortos por balas perdidas, o que representa seis vítimas fatais. A pesquisa relata ainda que 94 casos acontecerem em vias públicas

O ISP usou o campo "dinâmica dos fatos" para identificar estas vítimas. De acordo com o relatório, esse critério leva em conta a descrição feita pelo policial responsável pelo registro de ocorrência. Sendo assim, são consideradas vítimas de bala perdida as pessoas que não tinham participação ou influência no fato que originou o disparo.

Especialistas comentam
Para o diretor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, José Augusto Rodrigues, a redução é positiva, mas é cedo para classificá-la como uma tendência, pois isso exigiria um estudo de anos seguidos. A primeira vez que o ISP fez este balanço foi em 2006.

Rodrigues explicou o que acredita ser uma das causas para essa diminuição. "A bala perdida resulta de confronto entre traficantes rivais ou traficantes e policiais. É provável que nesse período a política de confronto da polícia não tenha sido tão enfática", opinou.

Sobre o procedimento usado pelo ISP, o diretor comentou que "eles utilizam metodologia diferente do Ministério da Saúde. Quando uma pessoa morre algum tempo depois de estar internada em um hospital, o ISP não conta". Segundo ele, por este motivo esses números podem apresentar diferenças se comparados aos dados do Ministério da Saúde.
O presidente da ONG Rio de Paz, Antonio Carlos Costa, afirmou que a redução é recebida com alegria. Porém, ele critica a falta de uma causa sólida. "Ficaríamos mais felizes se conhecêssemos as metas do governo de redução de morte violenta e o planejamento para isso", disse.

Para ele, impedir que as armas e drogas cheguem ao Rio é fundamental para colaborar com a diminuição das vítimas de balas perdidas. "Os narcotraficantes estão armados até os dentes. As casas nas comunidades carentes têm estrutura frágil, essas balas atingem facilmente uma criança", argumentou. Costa lembrou ainda o caso da menina Fabiana, 11, atingida dentro de sua residência em dezembro de 2007.

Ao contrário de Antonio Carlos Costa, Luis Flávio Sapori, autor do livro "Segurança Pública no Brasil - Desafios e Perspectivas", acha que esses dados não devem ser comemorados considerando que o número de cidadãos mortos em confronto com a polícia, os chamados autos de resistência, continuam altos. No primeiro semestre deste ano, 754 pessoas morreram nessa situação.

Na opinião de Sapori, os confrontos com a polícia são a principal causa para as mortes por bala perdida no Estado. Para ele, a tática de confronto utilizada pela polícia do Rio de Janeiro é "equivocada e ineficiente". O autor defendeu que a melhor estratégia é a ocupação de território. "Se não ocupar, perde o sentido. A polícia tem que entrar e ficar", enfatizou.

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