Metade dos brasileiros que se prostituem no exterior o fazem por conta própria, diz Itamaraty

Claudia Andrade
Do UOL Notícias
Em Brasília

Metade dos brasileiros que se prostituem no exterior o fazem por conta própria e não por serem vítimas de tráfico de pessoas. A informação foi dada nesta quarta-feira (8) pelo diretor do departamento das Comunidades Brasileiras no Exterior do Itamaraty, Eduardo Gradilone. Ele falou com base nos atendimentos que são feitos pelo órgão no Brasil e pelos consulados brasileiros espalhados pela Europa.

Brasileiras em Portugal

Estudo do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) de Portugal aponta que as mulheres brasileiras que se prostituem em Portugal são maiores de idade, não possuem antecedentes nesta atividade no Brasil, têm um curso médio ou superior, são brancas, prostituem-se por motivos financeiros, e chegaram ao país por sua própria conta - e não inseridas em redes de tráfico de pessoas

O Itamaraty não tem estatísticas sobre o número de atendimentos que realiza, já que não há um canal específico para vítimas de tráfico de pessoas. Citando dados da Organização Internacional para a Migração (OIM), Gradilone lembrou que 80 mil prostitutas brasileiras trabalham na Europa. Ele participou de uma audiência pública na Comissão de Relações Exteriores da Câmara para debater o tema.

"Nosso serviço de call center recebe solicitações de pais, familiares, amigos, procurando o paradeiro de alguém que foi para o exterior. Em 50% dos casos, as pessoas imigraram voluntariamente e decidiram se prostituir. É difícil criar políticas de atendimento sem levar em consideração esse aspecto", afirmou o representante do Itamaraty.

Nos casos de tráfico para a prostituição, o diretor afirma que a dificuldade para levantar dados estatísticos está no fato de que a maioria das vítimas prefere manter o anonimato. "Nós demos um curso para profissionais de 15 consulados do Brasil na Europa e ressaltamos que o atendimento deve ser feito de maneira não discriminatória, sem necessidade de identificar a atividade profissional".

O representante do Itamaraty traçou um perfil da situação das mulheres que são levadas para trabalharem como prostitutas na Europa. A porta de entrada mais comum é a França e de lá as pessoas vão para Portugal e Espanha. Aquelas que chegam ao Velho Continente e querem voltar enfrentam muitas barreiras. "São impostas condições quase impossíveis de serem cumpridas, como pagar de três a cinco vezes o valor comercial da passagem de avião. A partir daí, as mulheres passam a ser mantidas em cárcere privada", exemplificou Gradilone.

No Brasil, é no Estado de Goiás que ser recruta o maior número de mulheres para se prostituírem na Europa. Por isso, um representante do governo goiano foi convidado para participar da audiência pública desta quarta. Elie Chidiac, assessor para assuntos internacionais, ressaltou a importância da prevenção no combate ao tráfico de pessoas. "É preciso uma campanha de mídia televisiva que chegue a todos os brasileiros. Já se tentou fazer folhetos para pôr no aeroporto, mas quando chegam lá, as meninas já estão totalmente convencidas. Criando uma campanha mais abrangente, nós criamos um escudo psicológico", defendeu.

O assessor afirmou que o governo estadual faz um trabalho de assistência voltado para a desintoxicação de mulheres que voltaram da Europa viciadas em drogas. "Muitas chegam a fazer 12 programas no mesmo dia e, se o cliente não pagar, elas têm que pagar no lugar deles. Acabam usando droga para suportar essa situação", explicou.

Perfil das vítimas de tráfico de pessoas
Segundo Chidiac, o programa do governo de Goiás atende mulheres de 18 a 45 anos. "Muitas são separadas e têm filhos, que podem ser coagidos se houver uma colaboração com a polícia. Por isso, elas têm medo de denunciar", disse.

A representante da secretaria de políticas para as mulheres, Ana Teresa Iamarino, acrescentou que muitas das mulheres que são levadas para o exterior já sofreram alguma violência no Brasil. "Elas já tiveram algum contato com a violência social no Brasil e muitas são mães solteiras", definiu.

Para ela, o tráfico representa uma violação aos direitos humanos. "Independente de ir (para o exterior) de forma voluntária ou não, trata-se de uma violação aos direitos dessas pessoas. Por isso, a repressão e o combate não podem representar uma nova forma de violação".

A jornalista Marília Assunção, que trabalha em um jornal de Goiás e também foi convidada para a audiência na Câmara destacou a necessidade de se acabar com a imagem de que apenas mulheres miseráveis são vítimas do tráfico. "Também há advogadas, enfermeiras, cabeleireiras, universitárias - inclusive de instituições privadas", disse.

Plenário esvaziado
A audiência desta quarta foi precedida de uma reunião deliberativa da comissão, que conta com 31 parlamentares. Da primeira para a segunda parte dos trabalhos, o plenário esvaziou. Apenas dois titulares e dois suplentes acompanharam a totalidade da discussão a respeito do tráfico de mulheres brasileiras para a Europa.

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