Marcos Valério é preso pela PF acusado de "encomendar" inquérito para favorecer empresa

Gabriela Sylos*
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Atualizado às 20h15

Uma operação realizada pela Polícia Federal nesta sexta-feira (10) prendeu o empresário Marcos Valério, conhecido como o operador do caso mensalão, em sua casa na região da Pampulha, em Belo Horizonte (MG), e mais 16 pessoas. Rogério Tolentino, sócio de Valério e também personagem do esquema do mensalão, está entre os detidos.
  • 09. ago.2007 - Folha Imagem

    O empresário Marcos Valério chega à sede da PF, em Belo Horizonte, na manhã desta sexta-feira após ser preso durante a operação Avalanche. Além de Valério e um dos seus sócios, a Polícia Federal prendeu mais 15 pessoas


A chamada operação Avalanche foi deflagrada na madrugada de hoje e efetuou mandados nos Estados de São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo. A polícia investiga, desde o final do ano passado, um grupo criminoso composto por empresários, despachantes aduaneiros, advogados e policiais civis e federais que praticavam extorsão, fraudes fiscais e corrupção.

Em coletiva de imprensa realizada nesta tarde, em São Paulo, a PF explicou que foram descobertos três núcleos durante as investigações.

Um deles, onde atuava Marcos Valério, foi identificado quando uma empresa, da região de Sorocaba (interior de SP), foi autuada pela Receita Estadual em mais de R$ 100 milhões e os envolvidos tentaram desmoralizar os fiscais responsáveis pela autuação. Marcos Valério, conselheiro da empresa, atuou junto com um advogado para fazer com que dois policiais federais instaurassem um inquérito fraudulento contra os fiscais, o que de fato aconteceu, segundo as investigações. O inquérito, aberto em Santos, já foi apreendido e será analisado pela polícia.

Em setembro, "a polícia apreendeu R$ 1 milhão em Sorocaba, que seria levado para pagar o grupo em Santos", afirma Leandro Daiello Coimbra, superintendente da PF em São Paulo.

A polícia não divulgou o nome da empresa autuada e afirmou que seus executivos estão sendo investigados, mas não foram presos. O UOL apurou que se trata da Cervejaria Petrópolis, dona da marca Itaipava.

Mais tarde, a Justiça Federal divulgou, por meio de nota, que a empresa em questão chama-se Praiamar Indústria, Comércio e Distribuição Ltda., que pertence ao grupo Cervejaria Petrópolis. O proprietário da companhia, Walter Faria, teve seu pedido de prisão temporária negado pela juíza federal Paula Mantovani Avelino, da 1ª Vara Criminal Federal . "É de se reconhecer que seu nome não é mencionado em nenhum diálogo e nem foi interceptada conversa mantida por ele próprio", afirmou a juíza.

Outro lado
Procurada, a assessoria de imprensa da cervejaria afirmou que agentes da Polícia Federal cumpriram mandados de busca e apreensão na unidade de Boituva (SP), mas que a empresa "não possui qualquer tipo de contrato de trabalho com o Sr. Marcos Valério Fernandes de Souza". A empresa completou que vai se pronunciar apenas depois de analisar o inquérito, mas que "está à disposição das autoridades para prestar qualquer tipo de esclarecimento".

O advogado de Marcos Valério, Marcelo Leonardo, afirmou no início da tarde que seu cliente será transferido a São Paulo para prestar depoimento ainda hoje. "Nós estamos neste momento sem nenhum detalhe para dar, mas posso te afirmar que (a prisão) não tem nenhuma ligação com o caso do mensalão. (O mandado de prisão temporária) envolveria alguma coisa da cervejaria Itaipava", disse Leonardo. A PF confirmou que a prisão não tem relação com o chamado mensalão.

Valério foi preso temporariamente e permanecerá na cadeia por cinco dias, prorrogáveis por mais cinco.

Outros núcleos
As investigãções da PF chegaram primeiro a um grupo que obtinha, através de um empresário do Brás (região central de São Paulo), informações privilegiadas sobre determinados empresários que apresentavam problemas junto ao fisco. O informante tinha contatos em órgãos públicos, como a Polícia Civil e Federal, e a Receita Federal e Estadual. Com os dados em mãos, o grupo praticava extorsão em troca de uma solução ao caso.

Em seguida, foi descoberto um grupo que fraudava tributos de importação através de empresas de fachada com a ajuda de despachantes aduaneiros junto ao porto de Santos, litoral de SP. "Neste grupo estavam dois policiais federais aposentados, dois despachantes e um empresário", afirma o superintendente da PF.

Segundo a PF, os três núcleos agiam separadamente, mas tinham ligação por meio de pessoas que atuavam nos três esquemas, como policiais e advogados.

Balanço
Ao todo, foram 17 prisões (8 preventivas e 9 temporárias), sendo 13 em São Paulo e quatro em Minas Gerais. Entre os presos estão dois policiais civis, três policiais federais da ativa, dois policiais federais aposentados, três advogados, três empresários, três despachantes e um servidor da Receita Federal.

Segundo a Justiça Federal, os presos temporariamente são: Áfonos José Penteado Aguiar, Eduardo Roberto Peixoto, José Roberto do Nascimento, Youssef Nakamori do Nascimento, Giorgio Khouri Zarif, Leandro Marinny Lage Balducci, Eloá Leonor da Cunha Vellozo, além de Marcos Valério Fernandes de Souza e Rogério Lanza Tolentino.

Os presos de forma preventiva são: Francisco Pellicel Juniro, Edisom Alves Cruz, Ildeu da Cunha Pereira Sobrinho, Paulo Endo, Daniel Ruiz Balde, Fabio Tadeu dos Santos Gatto, Silvio de Oliveira Salazar e Antonio Vieira da Silva Hadano.

Além das prisões, foram expedidos 33 mandados de busca e apreensão. Os policiais apreenderam notebooks, mídia eletrônica, documentos e mais de R$ 500 mil na casa de um advogado preso em Minas Gerais.

Os acusados podem responder pelos crimes de corrupção ativa e passiva, extorsão, formação de quadrilha, contrabando e descaminho, quebra de sigilo e divulgação de dados sigilosos. As penas, somadas, ultrapassam 15 anos.

* Com informações de Rayder Bragon, em Minas Gerais

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