Fontes para combate a fome podem estar secando, alerta representante da ONU

Claudia Andrade
Do UOL Notícias
Em Brasília

O representante da FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) no Brasil, José Tubino, alertou nesta quinta-feira (16) para a possibilidade de falta de recursos para investimentos no combate à fome. Segundo ele, é preciso repensar as prioridades para aplicação de verbas.

"No ano passado, as Nações Unidas solicitaram US$ 30 bilhões para aplacar a crise alimentar e reduzir a pobreza no mundo, mas não conseguimos esse valor. E agora, com este investimento de US$ 2,5 trilhões que foram dirigidos para mitigar a crise financeira, nós temos uma grande preocupação de que talvez as fontes financeiras para programas de desenvolvimento estariam secando. Nós temos esta preocupação", disse.

Medidas protecionistas devem ser evitadas durante
a crise, diz diretor da FAO

Segundo Jacques Diouf, diretor-geral da FAO, diante da crise mundial, é preciso que os governos evitem medidas protecionistas no comércio. "Será muito ruim se isso acontecer e a vontade política mobilizada recentemente para apoiar a agricultura dos países em desenvolvimento também evaporar", ressaltou, em comunicado

Para Tubino, a crise financeira trouxe uma perspectiva pouco otimista para as questões ligadas ao desenvolvimento no futuro próximo. "Nós vamos enfrentar anos difíceis daqui pra frente, que vão exigir mudanças de valores para saber quais serão as prioridades. Não tenho bola de cristal para saber o que vai acontecer no mundo dentro de dois, três anos, mas digo que isso vai depender de uma série de fatores, inclusive de quem vai ganhar as eleições nos Estados Unidos e que medidas serão tomadas, já que o que acontece lá tem impacto no mundo todo", destacou.

Também nesta quinta, Dia Mundial da Alimentação, o diretor-geral da FAO, Jacques Diouf, divulgou um comunicado destacando que somente cerca de 10% do valor necessário para promover a segurança alimentar foram aplicados. E a maior parte dos recursos foi empregada em ações emergenciais.

"Precisamos de vontade política e compromisso financeiro se quisermos fazer os investimentos essenciais para promover um desenvolvimento agrícola sustentável e garantir segurança alimentar nos países mais pobres", ressaltou.

Crise de valores
Mais do que vontade política, Tubino acredita que é preciso uma mudança de comportamento por parte das autoridades. "Quais são os valores por trás disso? Como é que existe dinheiro em abundância para algumas coisas e não existe para outras coisas tão ou mais importantes do que isto que está acontecendo agora? Há uma inversão, uma crise de valores", afirmou.

O representante do organismo da ONU no país lembrou que está mais difícil atingir a meta de reduzir o número de pessoas que passam fome no mundo. O objetivo era chegar a 420 milhões de pessoas até 2015. Atualmente, mais de 900 milhões sofrem com o problema da fome.

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