Roubos, tráfico interrompido e rivalidade esportiva entram no seqüestro de Santo André

Rodrigo Bertolotto
Do UOL Notícias
Em Santo André (SP)

Três moleques jogavam bola quando policiais militares chegaram evacuando, passando fita para isolar a área considerada de risco. Um vizinho embriagado desistiu de olhar pelo binóculo e começou a cantar, chamando a atenção da aglomeração: "O teu chamego é o meu xodó".
 

Vizinhos assistem de "camarote"

Uma história de chamego mal resolvida fez um apartamento vizinho ser o local mais focado nacionalmente desde segunda-feira por câmeras de TV e fotografia. Tudo porque Lindemberg Alves, 22, decidiu seqüestrar a ex-namorada de 15 anos após o fim do relacionamento.

"Esse trouxa está prejudicando a vida de muita gente, não só a dela. Minha mãe não pode sair de casa, e meu pai não consegue voltar e está abrigado em casa de amigo", conta a vizinha Viviane Souza, 24. "Daqui a pouco, não vai ter mais comida para ela", reclama a jovem (veja vídeo ao lado).

O caso é considerado o crime de cárcere privado mais longo da história do país. Começou às 13h30 de segunda-feira, quando o rapaz invadiu armado o apartamento em que ela mora, com desdobramentos diários para manter o interesse midiático. Teve liberação de reféns, disparos quase todos os dias e um pastor evangélico e um dirigente esportivo tentando entrar nas negociações.

Mas o fato mais revelador que a situação era sem controle foi a decisão da polícia de retornar com a amiga da seqüestrada, também de 15 anos, à cena do crime. Libertada na noite de terça, a garota de 15 anos voltou por exigência de Lindemberg e com autorização da mãe dela. O pai, que não sabia de nada, teve uma crise de hipertensão e foi hospitalizado ao tomar ciência.

O seqüestrador, porém, não cumpriu o trato de encerrar a ação. E ganhou de novo mais uma vítima. A polícia diz que não considera a amiga (nome preservado por ser menor) uma refém, mas as autoridades ligadas ao Conselho Tutelar e da Vara da Infância e da Juventude não foram comunicados da ação, condenaram o fato e pedem uma apuração.

O saldo do quarto dia foi expressivo. Além de a adolescente voltar ao poder do seqüestrador, dois cachorrinhos saíram e os vizinhos estão presos do lado de fora e de dentro do prédio 24 do conjunto habitacional CDHU do Jardim Santo André, região miserável de Santo André, município da Grande São Paulo.
 

Dirigente são-paulino tenta negociar

A outra novidade foi uma camiseta do São Paulo ser colocada na janela do banheiro do apartamento. A informação na TV motivou o presidente tricolor, Juvenal Juvêncio, a enviar para o local seu superintendente, Marco Aurélio Cunha, que acabou de se eleger vereador paulistano (confira vídeo ao lado).

"Não vim com intenção de aparecer. Queria falar para ele para não ficar preso nesse apartamento, há coisas melhores para fazer na vida", disse para os microfones após estacionar seu carro nas vielas do bairro.

Ele conversou com policiais, que o desestimularam de entrar nas negociações. Saiu meia-hora depois, dizendo que estava ali como uma "presença solidária", mas os especialistas eram os policiais. Foi cercado pela molecada atrás de um autógrafo. "Agora não é o momento. Não fica bem", recusou os pedidos.

A chegada do dirigente são-paulino despertou a rivalidade com os palmeirenses, afinal, os dois times se enfrentam neste fim-de-semana em partida decisiva do Campeonato Brasileiro.

"Olé, Porco", "chama o Richarlyson também" e "vereador bambi" foram alguns dos gritos dos populares que rondavam por ali. Alguns estranhavam as câmeras correndo atrás do senhor de cavanhaque. "Quem é essa coisa feia?", perguntou uma garota. Um menino ao lado tentou explicar: "É um comentarista do Mesa Redonda, da TV Gazeta."

Já os repórteres de plantão 24h no conjunto habitacional preferiam fazer brincadeiras com os PMs. "Coronel, coronel: está indo para o Palácio dos Bandeirantes? O pau está comendo. É melhor ir para lá", ironizou um jornalista quando uma viatura saiu cantando pneu. No boteco vizinho, com o nome "Bebi, Cai e Levantei", a TV mostrava as cenas do enfrentamento de policiais civis, em greve, com militares em protesto perto da casa de governo estadual, no Morumbi.

Os dois casos deixaram em posição delicada o governador, José Serra, e o secretário de Segurança Pública, Ronaldo Marzagão. Afinal, uma batalha campal entre policiais e uma adolescente devolvida a seqüestrador não são fatos que credenciam muito.
 

  • Folha Imagem

    Irmão de sequestrada retira dois cachorrinhos que estavam no apartamento desde segunda-feira

  • Folha Imagem

    Pai de amiga da sequestrada passa mal ao saber que filha voltou a ficar em poder de Lindemberg

Na noite de quinta, foram ouvidos dois disparos no Jardim Santo André. Aconteceram após o público fazer coro para acabar o seqüestro. Na segunda e na terça, outros pares de tiros foram ouvidos.

Mas a origem dos tiros desta quinta não foi determinada. Poderia ter partido de Lindemberg. Também poderia ser de algum traficante local de droga contrariado com a situação.

"Os traficas daqui estão perdendo muito dinheiro com tanto gambé por aqui. Esse Lindemberg não pode mais aparecer aqui", conta um vizinho que prefere não se identificar. À noite, as ruelas no bairro servem como um drive thru de entorpecentes. "A coisa aqui está suave, cinco anos atrás nem a polícia entrava aqui. Você, jornalista, então, nem pensar", revela.

Os que continuam atuando são os assaltantes. Um deles apontou um revólver para um cinegrafista de TV e levou seu instrumento de trabalho. Em outro momento, um garoto tentou bater a carteira de um cameraman, que, em meio à aglomeração, se defendeu com uma cotovelada.

Todos ali tentam aproveitar a fama que a quebrada do ABC Paulista ganhou. Um garoto tira fotos com seu celular da confusão para colocar em sua página de Orkut. Vizinhos alugam janelas e banheiros para equipes de TV, que trabalham ao som de funk carioca no talo que vem do apartamento vizinho.

Lindemberg é a celebridade. No reality show bem real, ele já deu entrevistas para várias TVs, jornais e sites, com o número de telefone do apartamento circulando entre os repórteres. Ele fala de "ingratidão", chama a ex-namorada de "egoísta" e promete entregar as reféns "sem avisar". Por isso, o compasso segue de espera na rua, afinal, a qualquer momento virá o desfecho.

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