Políticas de meio ambiente não podem ser imediatistas, defende Marina Silva

Claudia Andrade
Do UOL Notícias
Em Brasília

Para a senadora Marina Silva (PT-AC) as políticas de preservação ambiental não podem ter caráter imediatista. Garantir que as regras estabelecidas sejam cumpridas e novas ações sejam implantadas é dever também da sociedade, alertou a ex-ministra do Meio Ambiente, ao participar da Eco2008, nesta sexta-feira, em Brasília (DF).

"O PT tem um programa de combate ao desmatamento da Amazônia, o governo Fernando Henrique fez uma lei aumentando a reserva legal de 50% para 80% para proteger a Amazônia. Então, se vier outro governo, vai tirar tudo isso? A sociedade brasileira não pode permitir", alertou. "As políticas não podem ser imediatistas, devem ser de médio e longo prazo, de longuíssimo prazo. E todos os governos têm que estar comprometidos com essas políticas", acrescentou.

A senadora ressaltou também a importância de se analisar as propostas dos políticos para a área ambiental. Como exemplo do peso do voto no futuro do Brasil e do planeja, ela lembrou que a lei para proteger a Mata Atlântica levou mais de uma década para ser aprovada. "Aí, a gente pensa que a culpa é dos políticos que não aprovaram. Mas será que a sociedade não mandou para lá (Congresso) parlamentares que não estão nem aí com a Mata Atlântica?", criticou.

"Nós temos que começar a ter pessoas que sejam comprometidas com esta plataforma, e não precisa ser do mesmo partido. Esse é um esforço que vai envolver todos os segmentos, todas as pessoas e, inclusive, todos os partidos", completou a ex-ministra, sob os aplausos do público.

Metas para o Brasil
Para a ex-ministra, o compromisso inclui ainda a necessidade de se estabelecer metas para redução das emissões de gases que provocam o efeito estufa. "Tanto o Brasil como a Índia, a China e o México estão diante de uma situação em que não se poderá fugir desse debate", disse Marina Silva, citando países em desenvolvimento, que não teriam, em tese, as mesmas obrigações dos países ricos, segundo as discussões realizadas em fóruns internacionais.

"O Brasil tem a possibilidade de liderar esse processo, sobretudo dentro do G-77 (grupo dos países em desenvolvimento). Não é uma discussão fácil, e também não pode ser utilizada como um escudo pelos países ricos para fugirem de suas responsabilidades, da mesma forma que nós, os países em desenvolvimento, não podemos nos esconder atrás das emissões históricas, que são pequenas, para não dar conta das emissões atuais, que já são significativas. Se não resolvemos essas emissões, daqui a 20, 30 anos, estaremos iguais aos Estados Unidos", alertou.

Sobre as eleições americanas, aliás, a senadora disse que, independente de quem seja o vencedor - Barack Obama ou John McCain -, o novo governo terá de "transitar da posição atual para uma nova postura diante da questão da mudança do sistema climático."

Marina Silva foi o grande nome do evento realizado ao longo desta semana e que teve como tema principal "A Paz Através da Sustentabilidade". O ministro Carlos Minc, que substituiu a senadora na pasta de Meio Ambiente, era esperado para dar uma palestra nesta quinta-feira, mas não compareceu. As discussões contaram ainda com a participação de especialistas do Brasil e do exterior.

Um deles, Henrique Brandão Cavalcanti, que também foi ministro do meio Ambiente, abordou a questão da ausência de metas brasileiras para preservação do planeta. "A meta representa uma resposta das autoridades, do governo, para a população. O partido que se dispõe a disputar uma eleição tem a obrigação de dizer quais são suas prioridades, para que quem votou neles possa cobrá-las", afirmou.

Em sua opinião, o Brasil perde "oportunidades históricas de se tornar um país mais confiável" a cada vez que evita essa discussão. "Se você não quer ser cobrado, deve se antecipar", ressaltou.

Raposa Serra do Sol
Em sua palestra, Marina Silva também defendeu os índios que vivem na reserva Raposa/Terra do Sol, em Roraima. A área de 1,7 milhão de hectares é alvo de disputa no STF (Supremo Tribunal Federal) porque rizicultores querem dividir a terra com os povos indígenas. Os agricultores defendem a demarcação em ilhas, enquanto os índios querem a demarcação contínua.

"Um modelo de desenvolvimento que não seja capaz de fazer a diferença entre a grandeza de ter um povo que tem uma cultura, uma língua, uma cosmovisão estabelecida naquele ponto que é único no mundo, e um grupo de arrozeiros que pode plantar onde tiver terra fértil, e de forma legal, este modelo não nos serve, porque ele é uma quebra da capacidade humana de aprender com o diferente", destacou a ex-ministra, lembrando que os agricultores teriam ocupado a terra de forma ilegal, depois da demarcação.

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