Em debate sobre caso Eloá, deputados pedem regulação da mídia

Piero Locatelli
Do UOL Notícias
Em Brasília

Deputados federais presentes em audiência pública sobre o caso Eloá na Câmara dos Deputados nesta terça-feira (11) se mostraram favoráveis a regulação da mídia pelo governo em casos específicos. Os parlamentares presentes, no entanto, não manifestaram a intenção de elaborar uma proposta sobre o tema. A jovem Eloá Pimentel, de 15 anos, foi morta pelo ex-namorado no dia 17 de outubro após ser mantida refém por mais de cem horas em Santo André (SP).

Na audiência de hoje, o deputado Luís Bassuma (PT-BA) falou da necessidade de regulação e criticou a cobertura da mídia chamando ela de "circo de horrores". Para ele, existe um trauma no Brasil quando se fala a palavra censura depois da ditadura militar. "Em nome de uma não censura, as conseqüências são terríveis" disse "A tragédia não foi o acontecimento, foi essa espetacularização do caso."

Celso Russomano (PP-SP), apresentador de televisão e deputado, falou que os limites devem começar dentro da própria emissora. "Há a necessidade de normativos e procedimentos para casos como esse". Segundo ele, os problemas da cobertura vêm de uma busca incessante de audiência. Citando exemplo dos programas apresentados por ele próprio, ele disse que se mostram mais de dez vezes a mesma cena se o Ibope estiver subindo.

Já o deputado Ivan Valente (PSOL-SP), requerente da audiência, falou que não se trata de censura. Ele disse que as emissoras devem responder ao interesse público, ao lembrar que os canais de televisão trabalham a partir de concessões dadas pelo governo, a maioria ainda durante a ditadura. "A idéia é que existe uma impunidade [da mídia]. É necessário um controle social da mídia, controle pelo congresso na mídia" falou o deputado ao final do debate.

Para ele, a mídia teve clara responsabilidade no desfecho trágico do caso Eloá. "Existia uma psicopatologia grave. A transformação daquele cidadão em celebridade ao vivo, para milhões de pessoas, e a busca de sair do seu total isolamento, certamente dilatou o tempo de seqüestro e contribuiu para o fim trágico da questão."

Venício Artur de Lima, pesquisador de mídia da UnB, também criticou a cobertura no debate. "Não se pode tratar esse caso isoladamente [...] O problema é que a violência é tratada como banal. A violência mostrada na mídia é muito maior do que na vida real."

Sobre a regulação, ele falou que ela não fere a liberdade de imprensa e é normal em Estados democráticos. Como exemplo, ele citou o caso da Inglaterra, em que há proibição de mostrar a imagem e citar o nome de menores, o que impediria o desfecho de casos como o de Eloá.

Emissoras ausentaram-se do debate
Das quatro emissoras convidadas para a audiência pública, duas delas enviaram representantes e nenhuma enviou seus presidentes, como havia pedido a Comissão de Defesa do Consumidor, solicitante do debate.

Os deputados ficaram visivelmente incomodados com a ausência de convidados como Roberto Irineu Marinho, presidente da Rede Globo e Alexandre Raposo, da Rede Record. O deputado Luís Bassuma reclamou da falta de resposta das emissoras, dizendo que só haviam "dois representantes que não respondem por seu corpo superior."

Evandro Guimarães, vice-presidente de relações institucionais da Rede Globo e presente no debate, defendeu a cobertura da emissora, falando que ela cobre "todo e qualquer seqüestro". Para ele, o interesse público não foi ferido durante a cobertura. "É norma nossa não divulgar dados que podem ajudar o seqüestrador, nisso prevalece o interesse publico".

No começo da audiência, foram mostrados vídeos com a cobertura da Rede TV, da Record e da Globo, em que as emissoras entrevistavam o sequestrador de Eloá, Lindeberg Fernandes Alves. A questão causou polêmica no debate, quando Ivan Valente perguntou ao representante da Globo se ele achava correto a entrevista com o seqüestrador feita pela sua emissora. Evandro respondeu que não cabia a ele julgar isso e, na sua réplica, Valente reclamou da ausência de alguém que pudesse julgar a situação, como Marinho. O deputado se mostrou insatisfeito ao final do debate, falando que "não sentiu a autocrítica que deveria ter acontecido".

O representante da Rede Record, Márcio Novaes, defendeu a cobertura da emissora e disse que ela deve continuar da mesma forma depois do episódio. "Se as imagens não ferirem nenhuma questão legal, vamos levar da mesma maneira", disse ele ao lembrar que a emissora não utilizou imagens ao vivo de entrevistas com o seqüestrador.

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