Brasileiros acham alternativas para enfrentar a crise no Reino Unido

Ana Carolina Abar
Especial para o UOL Notícias
Em Londres (Reino Unido)

Venda de casas a preços jamais cogitados, corte de milhares de empregos a cada semana e a previsão de mais um ano e meio de tormenta econômica. A recessão vai longe e, a cada dia, novas previsões trazem pessimismo e receio à população, especialmente nos países desenvolvidos.

Depois de 16 mil demissões na semana passada, uma nova pesquisa feita pela Local Government Association, a maior organização de trabalhadores da Grã-Bretanha, aponta que um em cada doze trabalhadores perderá o emprego devido à crise. Londres e o sudeste do país, áreas que concentram as grandes empresas de construção civil, serão as mais atingidas.

  • Ana Carolina Abar

    Andrea Ximenes investiu em imóveis e foi beneficiada pela queda dos juros provocada pela crise...

  • Ana Carolina Abar

    ... que fez também desabar o preço dos imóveis para índices jamais cogitados na capital inglesa

  • Ana Carolina Abar

    Andrea pretende vender o imóvel daqui a três ou quatro anos, quando deverá estar valorizado novamente

    Nunca se construiu tanto como nos últimos anos na Inglaterra - e em tempo recorde. Com a expansão da União Européia em 2004, a contratação de trabalhadores do leste europeu a baixo custo permitiu o aumento da mão de obra e o aquecimento do setor. A eles, juntaram-se os imigrantes. Muitos, brasileiros que agora também pagam o preço da crise. Alguns, no entanto, conseguiram encontrar um caminho e transformaram a tormenta em fonte de renda.

    Lucro em meio à crise
    Andrea Francioli Ximenes, 34, não se importou com os rumores de crise e decidiu investir no setor de imóveis no início do ano. Ela comprou uma casa em leilão, com a idéia de reformá-la para revenda. Gastou pouco, mas, na hora de encontrar compradores, deparou-se com a falta de boas ofertas.

    Em dois meses, recebeu quatro propostas. Os dois primeiros interessados bem que tentaram, mas também foram vítimas do "credit crunch". Mesmo com o empréstimo aprovado, as financeiras exigiram um depósito mais elevado do que os costumeiros 5%. Queriam de 15% a 20% do valor do imóvel como garantia - quantia que os compradores não tinham. "Dificultaram muito para quem queria comprar pela primeira vez", conta Andrea.

    Os outros dois interessados eram investidores que pretendiam comprar o imóvel para alugá-lo, mas ofereceram uma quantia baixa demais. "Como não tínhamos a necessidade financeira de vender rápido, por um preço baixo, decidimos que alugar era a melhor solução", diz.

    Andrea pretende vender o imóvel daqui a três ou quatro anos, quando acredita que estará valorizado novamente. Até lá, beneficia-se do aluguel como fonte de renda e de outra conseqüência da crise: os juros e, portanto, o valor das parcelas do empréstimo que fez para comprar a casa despencou. "A crise, no fim, foi interessante para mim", conclui Andrea.

    Próprio negócio
    Jorge Rabuske, 42, trabalha com construção civil em Londres há mais de uma década e começou a sentir os efeitos da crise no ano passado, quando passou a não receber mais aumento de salário ou benefícios.

    O motivo, segundo ele, é o chamado "cheap labor", ou mão-de-obra barata oferecida por imigrantes, especialmente cidadãos vindos do leste europeu. Há dois meses, decidiu abandonar a vida de funcionário e abrir o próprio negócio. Apesar de os grandes empreendimentos estarem suspensos, as classes média e alta continuam as reformas e, com a crise, também querem aproveitar serviços mais em conta.

    "A mudança foi que, antes, contratavam apenas as grandes empresas de construção civil. Hoje, buscam os trabalhadores autônomos", diz. De dez cotações que faz, quatro são aprovadas. Satisfeito, Jorge acredita que a boa fase para os autônomos deve ser mantida, pelo menos, pelos próximos 2 anos. "Agora é época de se fortalecer porque, daqui a pouco, vamos voltar a competir com empresas grandes".

    Pessimismo
    Para quem depende do emprego nas companhias de construção civil, a situação é bem diferente. Luiz Severo Junior, 43, trabalhava com pesquisa quantitativa - a avaliação das condições e do valor do imóvel. Este trabalho é um item exigido pelos bancos na hora de conceder crédito ao comprador. Recebia como pagamento uma porcentagem pequena do valor do imóvel e, desde que os preços despencaram, o salário dos profissionais do setor também encolheu.

    Hoje, Luiz dedica-se aos estudos, especializando-se em engenharia quantitativa. Para enfrentar a crise, também pretende abrir o próprio negócio, mas não está nada otimista. "O pior está por vir", diz, receoso. A expectativa dele segue a dos analistas, que prevêem uma queda de mais 30% no valor dos imóveis até 2010.

    Receba notícias do UOL. É grátis!

    Facebook Messenger

    As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

    Começar agora

    Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

    UOL Cursos Online

    Todos os cursos