Médicos do maior pronto-socorro de MG param por 24 horas

Rayder Bragon
Especial para o UOL Notícias
Em Belo Horizonte

Os médicos do Hospital João 23, o maior pronto-socorro do Estado de Minas Gerais, fazem paralisação de advertência por 24 horas nesta quinta-feira (27) e somente os casos mais graves estão sendo atendidos no local. A inatividade deve durar até as 7h da manhã de sexta-feira (28) na unidade localizada na região hospitalar de Belo Horizonte e que faz cerca de 400 atendimentos diários.

Os profissionais reclamam reajustes salariais e melhoria nas condições de trabalho, além de alertarem para a debandada de colegas que são atraídos por melhores remunerações em outras instituições da área de saúde.

"A principal reivindicação é a melhoria salarial. Os salários estão muito defasados, e nós estamos perdendo os médicos, as equipes estão totalmente desfalcadas. Então, em plantões, você tem dois neurocirurgiões quando deveria ter cinco. A falta de profissionais interfere no bom atendimento", afirma a médica Solange Magalhães, vice-diretora clínica e plantonista do setor de toxicologia do pronto-socorro. Ela informa trabalhar no local há 20 anos.

A vice-diretora argumenta serem os plantões trabalhados cada vez mais exaustivos em razão da não-reposição de médicos, o que acarretaria sobrecarga aos médicos remanescentes.

"O plantão é muito pesado. A gente trabalha 24 horas por semana (plantões de 12 horas cada um). A demanda é muito grande, o estresse é muito grande e, com a saída dos colegas, a gente está trabalhando o dobro, porque se tem metade do pessoal, você trabalha o dobro", afirma.

Além da perda de profissionais experientes, ela aponta como fator de inibição à captação de recém-formados o baixo piso salarial ofertados aos iniciantes.

"O profissional não se fixa ao serviço, principalmente os profissionais mais novos, porque o salário deles é só o salário-base, de R$ 2.400. O médico mais antigo ainda tem alguns penduricalhos que o fazem agüentar", revela.

A vice-diretora ainda disse pesar sobre a equipe a necessidade de busca de outros empregos para a complementação da renda mensal.

"O médico tem de trabalhar em vários outros lugares. Tem médico que trabalha em 3, 4, 5 lugares diferentes para poder ter retorno de tudo aquilo que ele gastou na sua formação e ainda gasta para continuar se aprimorando. Você (médico) gasta em congressos, em livros, os livros são caros, o material médico, de uso pessoal, é caro", pondera.

Atendimento comprometido
O presidente do Sinmed-MG (Sindicato dos Médicos do Estado de Minas Gerais), Cristiano da Matta Machado, alerta para a deficiência de atendimento à população em caso de acidentes de grandes proporções.

"O João 23 vive um problema sistêmico. Grande parte dos pacientes que estão lá internados deveria estar em terapia intensiva, não ocupando vaga em um ambulatório de politraumatizados (caso do hospital). Numa eventual catástrofe, eles ocupariam lugar de pacientes que necessitariam de atendimento imediato", analisa.

Em situações atípicas, o presidente do sindicato afirma que médicos voluntários teriam de se unir à equipe do hospital para atender à demanda provocada por evento de maior monta.

Ele ainda denuncia, além da falta de profissionais, a ausência de alguns medicamentos e aparelhos no pronto-socorro.

"O que nós temos no João 23 é uma condição muito precária porque as equipes estão incompletas. Faltam materiais, faltam medicamentos, de uma forma aleatória, e exames complementares" disse.

Governo
A assessoria do governo do Estado garantiu que a população não será prejudicada com a paralisação. Segundo a Fhemig (Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais), órgão gestor dos hospitais públicos do Estado, o atendimento aos casos mais graves transcorre de forma normal no Hospital João 23 e a população ainda pode recorrer ao restante do sistema hospitalar da capital, que segundo o órgão, funciona normalmente.

Por meio de nota, o governo refutou as acusações ao afirmar ter investido R$ 25 milhões, nos últimos quatro anos, somente no hospital.

Os recursos foram empregados na melhoria da infra-estrutura, na compra de equipamento e na criação de novos setores visando moldar o local ao nível de hospitais que são referências mundiais em atendimento de traumas.

Ainda segundo a nota, mais R$ 22 milhões serão investidos nos próximos dois anos no local, sendo que R$ 5 milhões serão utilizados para compra de equipamentos, segundo dados da Fhemig.

Além de afirmar a qualidade dos equipamentos utilizados no hospital, a nota destaca que são da ordem de 85 mil os exames complementares aos quais os pacientes atendidos no local são submetidos. 95% dos pacientes necessitam de exames, segundo informou a assessoria do governo.

Em relação aos salários, a nota esclarece que os salários pagos aos profissionais estão dentro da normalidade para funções públicas. Diz a nota:

"Em setembro de 2005, foi dado aos médicos um reajuste médio de 20,65%. Em junho de 2006 mais 5% e, a partir de janeiro deste ano, os salários foram reajustados em 3%. Com isso, a remuneração média chega a R$ 4.023,78, excluídos horas extras, adicional noturno, periculosidade, abono permanência, opção de vencimento, função gratificada; gratificação estratégica, Função Gratificada Hospitalar, percepção por cargos comissionados, auxílio transporte, auxílio alimentação e gratificação de função".

O governo estadual também diz que os profissionais reposicionados por meio de promoção por escolaridade adicional, em 2006, e foi implantado, desde 2007, a progressão na carreira.

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos