60% das áreas afetadas pelas chuvas em Blumenau não poderão voltar a ser ocupadas, avaliam pesquisadores

Luiz Nunes
Especial para o UOL Notícias
Em Florianópolis (SC)

Atualizada às 16h56

Pesquisadores da Universidade do Vale do Itajaí (Univali) apresentaram nesta sexta-feira um mapa das áreas de risco da região atingida pelas chuvas no Estado de Santa Catarina a fim de auxiliar a Defesa Civil a se antecipar e evitar novos desmoronamentos, retirando pessoas de locais em que há possibilidade de acidente. A previsão é ainda de chuva para os próximos dias e há riscos de mais deslizamentos de terra.

A Defesa Civil confirmou mais uma vítima fatal em Blumenau, e a tragédia agora contabiliza 100 mortes. O governo de Santa Catarina anunciou a liberação imediata de recursos para três hospitais do município, uma das cidades mais atingidas, num total de R$ 2,1 milhões. A CEF (Caixa Econômica Federal) anunciou que vai disponibilizar R$ 1,5 bilhão, por meio de várias ações e operações de crédito, para as famílias. As doações em dinheiro para as vítimas já chegam a R$ 3 milhões.

Os pesquisadores percorreram as áreas de calamidade de Blumenau e concluíram que cerca de 60% delas estão em risco iminente e dificilmente poderão ser ocupadas outra vez. Segundo o engenheiro Luis Fernando Sales, pesquisador do Centro de Ciências Tecnológicas da Terra e do Mar da Univali, o monitoramento constante do nível de saturação das encostas serve para atuar em dois momentos: primeiro, auxiliar onde vale a pena às pessoas retornarem para suas casas; segundo, auxiliar futuramente as prefeituras a desenvolverem melhor o planejamento urbano.

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"A gente fala de encostas, mas há casas também em margem de rio. Foram identificadas, em Itajaí, áreas que costumeiramente alagam com chuvas de fim de tarde, no verão. Essas áreas têm que ser preservadas, é preciso deixar que a água ocupe esse espaço e não colocar pessoas para morar ali", diagnostica. Além da Univali, a Defesa Civil conta com o apoio do Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo nos estudos de impacto no solo.

De acordo com informações do governo do Estado de Santa Catarina, foram registrados pelo menos 40 deslizamentos na região de Blumenau, nos últimos dias. A ocupação desordenada dos morros, para o pesquisador, pode ser conseqüente das enchentes da década de 1980.

Na ocasião, somente em Blumenau, 63 pessoas morreram - a maior parte por afogamento. Desde aquela época, a população migrou para as encostas, fugindo dos alagamentos em áreas baixas e ocupando áreas consideradas de risco. "Isso independe de classe social. Há casas bem estruturadas em locais irregulares. É o mesmo caso de Florianópolis", aponta.

Segundo Luiz Fernando Sales, grupos econômicos e políticos foram coniventes com essa migração desordenada ao legitimar a ocupação de áreas indevidas, com as ligações de água, luz, telefonia e esgoto. Para ele, este é também um momento de aprendizado para os políticos e a população local.

"Quando há uma área ocupada numa encosta e a prefeitura coloca o pavimento, a drenagem, a iluminação e a água, está assumindo a responsabilidade pela ocupação indevida. Muitas vezes, o gestor público não percebe isso e está até tentando ajudar, mas traz risco para quem mora naquele espaço", alerta.

Outra ferramenta para tornar regular o sistema habitacional, para o pesquisador, é a criação de institutos de planejamento independentes de gestões políticas.

Saldo das chuvas
A situação de Ilhota, no Vale do Itajaí (SC), onde 29 pessoas morreram, é cada vez pior. Com medo de que as pessoas se recusem a sair de residências em áreas de risco, ele baixou um decreto dando poderes à Polícia Militar e ao Exército para que se tire à força os moradores que se negarem a abandonar os pontos críticos.

Quatorze cidades decretaram estado de calamidade pública: Gaspar, Rio dos Cedros, Nova Trento, Camboriú, Benedito Novo, Blumenau, Luis Alves, Itajaí, Rodeio, Itapoá, Brusque, Ilhota, Pomerode e Timbó.

Trechos das rodovias estaduais e federais que cortam Santa Catarina continuam bloqueados, mas algumas vias foram liberadas, informam a Defesa Civil e a Polícia Rodoviária Federal.

A Defesa Civil de Santa Catarina divulgou na quinta lista parcial com os nomes dos mortos na tragédia e a Polícia Militar de Itajaí continua recomendando que os moradores não saiam de suas casas após as 22h para não atrapalhar a logística de distribuição de alimentos, medicamentos e roupas para os desabrigados pelas enchentes. Três pessoas foram detidas e conduzidos a prestar esclarecimentos em delegacia durante a primeira noite de vigência do toque de recolher.

Ontem (27), o Estado definiu a instalação de um hospital de campanha com estrutura disponibilizada pelos ministérios da Saúde e da Defesa, no trevo entre Itajaí e Ilhota. Inicialmente prevista para sábado, a instalação do hospital foi adiada para segunda-feira.

Veja a situação de cada município (para mais informações, passe o mouse sobre a cidade)






Prejuízos econômicos
O porto de Itajaí amarga um prejuízo diário de pelo menos US$ 35 milhões. Itajaí é o porto com maior movimentação de carne refrigerada do Brasil, principalmente de frango, e o segundo maior no fluxo de cargas em contêineres. A administração afirma que 4% do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro passa por este porto.



Moradores saquearam supermercados e residências e a polícia teve que reforçar a segurança nas cidades mais afetadas pela chuva.

Doações
Cestas básicas, colchões, cobertores e kits de higiene estão sendo entregues às famílias atingidas pela chuva. A Defesa Civil distribui alimentos, água potável e medicamentos. Em Florianópolis, doações podem ser feitas no Portal do Turismo, Assembléia Legislativa e Procon. No interior do Estado, os produtos devem ser encaminhados aos abrigos, Defesa Civil e prefeituras. O governo pede prioridade à doação de água potável para as cidades atingidas, como Itajaí, onde a falta de água é crítica.

A Cruz Vermelha Brasileira e a Comdec (Coordenadoria Municipal da Defesa Civil-SP) também anunciaram a criação de postos para arrecadar doações para as vítimas das chuvas que atingem Santa Catarina. A arrecadação vai funcionar 24 horas na sede da Comdec, na rua Afonso Pena, 130, no bairro Bom Retiro, e na sede da Cruz Vermelha Brasileira, na avenida Moreira Guimarães, 699, no bairro Saúde. As defesas civis das subprefeituras receberão doações em horário comercial.

A recomendação é de que produtos de limpeza não sejam misturados com alimentos e roupa. Os alimentos devem estar dentro da validade, de preferência não perecíveis e com a embalagem em boas condições.

Segundo informações da Agência Brasil, a partir desta quinta-feira (27), as escolas técnicas federais recebem recebem doações. Os interessados em oferecer água potável e doar agasalhos, cobertores e alimentos não-perecíveis devem ligar para o telefone 0800 616161. O endereço das escolas técnicas está disponível no site do Ministério da Educação (MEC).

A Campanha Nacional de Solidariedade é promovida pela Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica (Setec) do MEC. De acordo com o ministério, a Rede Federal de Educação Profissional e Tecnológica reúne 214 unidades de ensino em todo o país.

Para quem deseja ajudar as vítimas com doações em dinheiro, a Defesa Civil disponibilizou três contas correntes: no Banco do Brasil, a agência é 3582-3, conta corrente 80.000-7; no Besc, agência 068-0, conta corrente 80.000-0; e no Bradesco S/A - 237, agência 0348-4, conta corrente 160.000-1. O nome da pessoa jurídica é Fundo Estadual da Defesa Civil, CNPJ - 04.426.883/0001-57.

*Com agências Estado e Brasil e Folha Online

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