Lula lança hoje programa de combate à violência em favela do Rio, mas pesquisadores já mostram descrença

André Naddeo Do UOL Notícias No Rio de Janeiro

As primeiras linhas do material de divulgação distribuído pelo Palácio do Planalto aos jornalistas sobre a viagem do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, hoje ao Rio de Janeiro dizem: "A partir desta quinta-feira (4), o Complexo do Alemão será transformado em Território da Paz..." O Território da Paz é como o governo federal batizou mais um projeto que faz parte do Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci), lançado nesta semana em Olinda e agora no Rio de Janeiro, onde, anuncia o governo, serão 20 projetos de enfrentamento à criminalidade e ações sociais.

COMPLEXO DO ALEMÃO

  • Rafael Andrade/Folha Imagem - 1º.out.2008

    Foto do dia 1º de outubro passado mostra soldados tomando posição de tiro em área de morro com vista para comunidades do Complexo do Alemão, no bairro de Ramos, durante ocupação militar (Operação Guanabara) que visava dar garantia de segurança as eleições municipais

Mas, quando se fala do maior conjunto de favelas da capital fluminense (são 12 no total), onde as operações policiais e o tráfico fazem parte da rotina dos moradores, o lançamento de programas como este acabam sendo vinculados a ações de marketing, na mesma medida que tais ações, como rondas permanentes executadas sempre pelos mesmo policiais, acabam se tornando insuficientes para o combate à violência cotidiana. É o que afirmam especialistas em segurança pública ouvidos pela reportagem.

"Pode se chamar Território da Paz, mas os jovens ali vão continuar armados", dispara a antropóloga e coordenadora do Núcleo de Pesquisas das Violências (Nupevi), Alba Zaluar. O projeto do governo federal visa a capacitação de 200 jovens do Alemão, com bolsa-auxílio de R$ 100, para que eles próprios identifiquem outros menores em situação de risco e os encaminhem para programas sociais do Pronasci.

"Eu não considero isso suficiente se não for feito processo pedagógico, educativo, que as pessoas entendam as práticas sociais não violentas. Não basta, enquanto não se mudar as cabeças desses jovens, as práticas criminosas que envolvem armas de fogo. Estou falando de latrocínio, assalto, de várias outras coisas", completa Zaluar.

Além dos 200 jovens e dos 600 policiais que trabalharão permanentemente em 20 postos do conjunto - 450 deles já iniciam o trabalho nesta quinta-feira - o plano de segurança prevê ainda a participação de lideranças femininas, com salário de R$ 190, que terão a missão de prevenir conflitos locais e amparar menores de idade envolvidos com a criminalidade. Serão 2.550 mulheres ao todo no Rio de Janeiro - a quantidade específica para o Complexo do Alemão ainda não foi divulgada.

"Enquanto o tráfico não for desarmado, tais medidas tornam-se inócuas. Não existe a 'bala de prata' que resolve a questão da pacificação. Imaginar que é possível pacificar essas comunidades só com essas medidas é uma ilusão sociológica", afirma o chefe do Laboratório de Análise da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), José Augusto Rodrigues. "Não existe solução local para a questão da segurança pública. Não é possível imaginar que exista uma solução local para o Alemão, para a Rocinha...Vejo isso tudo como uma operação de marketing", completa.

Propaganda

Panfletos, anúncios na rádio local, faixas estendidas. Durante a semana foi possível perceber que o Complexo do Alemão, como já havia ocorrido no dia 7 de março deste ano em um evento para o anúncio das obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), estava prestes a receber o presidente Lula.

"É a velha sujeira para debaixo do tapete para não aparecer no dia que o Lula for, enquanto a polícia estiver ali presente. Os traficantes ficam na moita, mas depois fica tudo como era antes. Foi o mesmo que aconteceu com o Favela Bairro [projeto de revitalização de favelas do Rio], houve pouca mudança, os traficantes continuaram ali, presentes", diz Alba Zaluar.

Na verdade, Lula nem ingressará para valer no Complexo do Alemão. Ele e sua comitiva, que inclui o ministro da Justiça, Tarso Genro, discursarão no Largo do Itararé, que fica nas adjacências do acesso à favela da Grota, uma das mais perigosas da região. Por ali, fica clara a ausência do Estado.

"Tá vendo essa rua aí que você acabou de passar? Você pensa que está tudo tranqüilo, mas vocês são da imprensa. Eles sabem que vocês estão aqui. Então montam o circo. É você virar a esquina e a boca-de-fumo volta, os fuzis voltam. Ninguém passa por aqui, não...", relatou à reportagem do UOL um comerciante da região, que não se identifica por medo de represália dos traficantes á sua integridade física e ao seu próprio modesto estabelecimento.

De fato, enquanto a reportagem esteve presente por lá, não se viu um fuzil nem se ouviu um tiro.

Depósito de armas

O Complexo do Alemão ganhou tal apelido por ter sido um vasto terreno da Serra da Misericórdia (abrange os bairros de Inhaúma, Ramos, Bonsucesso, Olaria e Penha), na zona norte do Rio, cujo dono, na década de 20, foi o comerciante polonês Leonard Kaczmarkiewicz. Dos cabelos louros do proprietário veio a alcunha: "Alemão".

No ano de 1946 foi construída a avenida Brasil, que fica próxima à região. Na época, a região rural da Zona da Leopoldina tornou-se, ironicamente, pólo industrial carioca, uma vez que os produtos tinham vazão rápida. Muito tempo depois, a mesma localização geográfica privilegiada é usada agora no sentido oposto.

"O Complexo de Alemão é um grande depósito de armas. Fica no caminho para São Paulo, e Minas Gerais. Esta é a rota para o Paraguai. Ali chegam os armamentos mais modernos que se pode imaginar", explica Alba Zaluar. Assim como as armas, as drogas também são recebidas por ali na maioria das vezes para serem distribuídas.

Com a ocupação desordenada, a localização geográfica do Alemão facilitou também o entrincheiramento dos traficantes. As operações policiais no local são sempre as mais complicadas. Na mais "famosa" delas, o Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) , ocupou o complexo entre maio e junho do ano passado. Para impedir a passagem do Caveirão (apelido do veículo blindado do Bope) , traficantes puseram óleo no asfalto e fizeram barricadas nas estreitas ruelas. No alto da Vila Cruzeiro, formou-se uma espécie de "bunker" onde os criminosos agiam como atiradores de elite. No saldo final, pelo menos 19 mortos e 13 pessoas feridas.

"É uma fortaleza do tráfico, os caras se escondem ali. Porque é um local sempre inexpugnável, tudo ilegal, informal, não se tem controle. Tem pouquíssimo Estado ali", conclui Alba Zaluar.

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