Mães de crianças desaparecidas compartilham dor e esperança em encontro no Rio

Júlio Trindade
Do UOL Notícias
No Rio de Janeiro (RJ)

Às vésperas do Natal, a árvore da casa de Elizana Cardoso ainda não está montada. No dia 29 de dezembro de 2004, seu filho, responsável pela decoração natalina, saiu para visitar a avó no Parque Esperança, em Anchieta (RJ). Elizana ainda espera por ele. Esta é apenas uma das diferentes histórias das mães que participam esta semana do 2º Encontro da Rede Nacional de Identificação e Localização de Crianças e Adolescentes Desaparecidos, no Rio de Janeiro.

"Não vou desistir nunca. Só quero uma resposta. As mães que continuam procurando são as que têm certeza de que seus filhos não eram bandidos", diz Eliana, que era auxiliar de tesouraria, mas desde que seu filho desapareceu, não consegue mais trabalhar. Sua outra filha, hoje com 15 anos, tem problemas no coração que começaram quando o irmão sumiu.

Estima-se que 40 mil crianças desapareçam por ano no Brasil. Cerca de 60% delas fugiram de maus-tratos e violência familiar. Este, no entanto, não foi o caso do filho da comerciante Maria Josefa, moradora de São Gonçalo. Há cinco anos, seu filho, Luiz Henrique, com 16 anos na época, disse que ia ao shopping com os amigos. A última notícia que Maria tem é que ele e outros dois amigos foram espancados e deixados nus, algemados, na favela Pé Pequeno, em Niterói. Em seguida, teriam sido executado por traficantes. Além de Luiz Henrique, um dos amigos ainda está desaparecido. O outro conseguiu fugir e é a testemunha da história.

"Mesmo que meu filho tenha feito alguma coisa errada, isso não é tratamento para ser dado a ninguém, muito menos a uma criança", diz a mãe, que acusa os policiais da região de terem participação no caso. Maria Josefa é boliviana e veio morar no Brasil há 20 anos. Perguntada se depois do acontecido gostaria de sair do país, diz que sim, "mas não sem antes resolver esta história."

Final feliz
A esperança de Maria Josefa e Elizana encontram alento na história de outra mãe, Maria de Lourdes Rodrigues. Depois de três anos desaparecida, sua filha Thais, hoje com 16 anos, retornou ao lar. Ela foi seqüestrada pela cunhada, que a trancou no terraço de casa, onde deixava apenas comida por debaixo da porta e um balde para que a menina fizesse as necessidades.

À noite, Thais era levada para a Lapa, bairro da boemia carioca, para que se prostituísse. O mais alarmante da história é que durante o tempo todo que Thais esteve seqüestrada, Maria de Lourdes tinha quase certeza de onde ela estava: no Complexo do Alemão, onde a mulher de seu filho mora.

Todas as vezes, no entanto, que buscou delegacias para pedir que procurassem sua filha, ouviu como resposta que a polícia não poderia subir o Complexo do Alemão "por ser muito perigoso". O Complexo do Alemão é a comunidade que o presidente Lula visitou nesta quinta-feira, para lançar, ironicamente, o projeto Território da Paz.

Maria conta que só quando procurou uma delegacia na zona oeste do Rio, no ano passado, ouviu do delegado que ele iria buscar sua filha. "Era um delegado magrinho, confesso que nem levei fé", conta. Na operação, dois bandidos foram mortos e outro baleado. "Venho nesse encontro para prestar solidariedade às outras mães. Sei que não há dor maior", diz.

Propostas
Segundo Benedito dos Santos, coordenador do Programa Garantia de Direitos de Crianças e Adolescentes da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, há dois projetos de lei com relação ao tema em tramitação na Câmara. Um pretende criar a obrigatoriedade das delegacias de todo o país a informarem o desaparecimento de crianças ao Cadastro Nacional de Crianças Desaparecidas. O outro faz com que as emissoras de TV sejam obrigadas a veicular fotos de crianças desaparecidas em sua programação diariamente.

De acordo com o gerente do Programa SOS Crianças Desaparecidas da Fundação para Infância e Adolescência Estado do Rio de Janeiro (FIA-RJ), há cerca de 40 ligações diárias para o Disque 100 no Estado. A Fundação também oferece suporte psíquico-social para mães de crianças desaparecidas, além de cursos, como de costureira, por exemplo.

Informações sobre crianças desaparecidas no Estado do Rio de Janeiro podem ser fornecidas pelo Disque 100 ou pelo e-mail soscriancasdesaparecidas@fia.rj.gov.br. No site do órgão há fotos de algumas destas crianças.

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