Amigos picham muro em SP para lembrar garota presa na Bienal

Rodrigo Bertolotto
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Pichadores que atuaram na Bienal de São Paulo saíram na noite passada para pintar muros em protesto à prisão de Caroline Piveta da Mota, garota detida desde 26 de outubro por danos ao patrimônio cultural. Eles partiram do "point", local na rua central Dom José de Barros em que se reúnem todas as quintas-feiras, e partiram para o "rolê" no Bom Retiro, no centro de São Paulo.

SPRAY, PAREDE E FUGA

  • Rodrigo Paiva/UOL

    A bolsa plástica guarda os tubos de spray para o protesto

  • Rodrigo Paiva/UOL

    Pixobomb escreve frase de crítica à Bienal e pela liberdade de...

  • Rodrigo Paiva/UOL

    ...Caroline, para depois empurrar o carro e escapar dos vizinhos

Em um muro azul escreveram o pedido de liberdade da gaúcha de 23 anos presa por desenhar nas paredes do segundo andar (a planta do vazio) da tradicional exposição, em uma ação que reuniu 40 pessoas. Rafael Augustaitiz, apelidado de Pixobomb, escreveu uma frase na parede (Negligência no Ar/Invólucro falsificador/Liberte a Carol) e outras no papel para se manifestar sobre a situação de Caroline (leia texto abaixo).

Moradores vizinhos bateram boca com pichadores e chegaram a jogar pedras nos carros deles, principalmente no Chevette 1978 dos grafiteiros Piaba e Zeca Cascatas, vindos do Embu, que emperrou. Terminada a ação em disparada, para evitar a chegada da polícia, eles voltaram para o reduto.

"A gente picha por protesto, pela adrenalina, por hobby, mas principalmente como forma de expressão", disse o rapaz que assina Piaba por São Paulo, mas prefere não dar seu nome de cartório para evitar a onda de repressão aos pichadores.

Já Zeca se orgulha do que faz: "É arte. É um rabisco que faz parte da paisagem." Não é o que a organização da Bienal pensou quando trancou os pichadores e chamou a polícia após a ação no primeiro dia de exposição. O resultado é que só Caroline foi detida. "Ela era a única menina. Foi fácil para a polícia marcá-la. Ela nem ia subir, mas acabou indo", fala Piaba, que conta também que a garota nem queria participar da ação.

O curioso é que, em carta de próprio punho, ela pediu para não picharem seu nome. A correspondência serve como válvula de escape para o aprisionamento. "Tem gente que gosta de escrever no papel. Eu, particularmente, não gostava, aprendi aqui. Preferia a parede, mas aqui não tem parede para isso", escreve em carta para o amigo Rafael Martins, que ficou oito dias detidos por sua atuação no protesto da Bienal.

Por outro lado, traduz a dureza da vida na cela 265 da Penitenciária Feminina SantŽAna, no Carandiru. "Aqui está osso. Eu sou mais forte que imaginava, mas isso aqui não é lugar para mim", escreve em papel de carta com ursinhos e grafismos. A primeira pessoa detida tanto tempo por grafitar descreve seus temores com a experiência carcerária. "Se eu ficar muito tempo por aqui, eu vou sair daqui louca e lésbica", relata em um trecho e completa: "Eu tô firmona. Eu sou + forte que imaginava. Isso aqui não é lugar para mim. Eu apenas vou sair com o trauma da roupa amarela."

E a temporada adia um sonho. Ela escreve para os amigos (sem citar nomes para não prejudicá-los) que queria conhecer o litoral paulista neste verão, mas "estou aqui guardadinha na colônia de férias", "tô jogadinha sem meus piercings".

A família tenta trocar de advogado para tentar um habeas corpus para soltá-la. Caso contrário, já vai cumprindo uma pena que pode ir de um a três anos por destruição do patrimônio cultural. Muitos artistas, porém, se colocaram ao lado dos protestantes e pediram que a Bienal a tire de trás das grades. A organização do evento, porém, não se pronuncia sobre o caso.

Os amigos pichadores terminaram a noite tomando uma cerveja no bar Gaucho Restaurante, no centro, falando sobre o racha no movimento entre pichadores e grafiteiros, como a repressão aumentou após a intervenção na Bienal e como Caroline caiu em vários boletins de ocorrência nos últimos meses (incluindo a invasão de uma galeria de artes e de um edifício militar).

Pixobomb escreveu no bloco de anotações da reportagem do UOL uma espécie de manifesto: "Pixar é humano, demasiado humano. O que se faz por amor sempre se faz além do bem e do mal. As instituições tem oprimido a imaginação e desonrado o intelecto, degradando as artes afim de estupidificá-lo e promover a escravidão espiritual, a propaganda para o Estado e o capital, reações puritanas, lucros injustos, mentiras e arruinamentos estéticos. Recupere sua humanidade e revolta-se em nome da imaginação ou será considerado inimigo da raça humana."

Já Caroline deve nesta quinta à noite ter repetido seu ritual dos últimos dias: "De noite, me sento nua e fico olhando as luzes vermelhas dos prédios vizinhos." A Bienal, que foi palco do "terrorismo poético" ou do "vandalismo autoritário", termina neste sábado. Se receber sentença máxima, Caroline só poderá conferir a Bienal de 2012.

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