Falhas dos controladores e dos pilotos do Legacy levaram a acidente com boeing da Gol, diz relatório

Piero Locatelli
Do UOL Notícias
Em Brasília

Atualizado às 18h33

O relatório final sobre acidente do vôo 1907 da Gol aponta como fatores contribuintes para a tragédia a atuação dos controladores de vôo e dos pilotos do Legacy. Segundo a Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidente Aeronáuticos), não foram identificadas falhas ativas por parte da tripulação ou da empresa do Boeing.

O relatório aponta que o desligamento inadvertido do transponder do Legacy contribuiu para a colisão das aeronaves. O aparelho, que teria ficado desligado por 59 minutos em uma área de abrangência de cinco radares, é responsável pela localização da aeronave, que era pilotada por dois americanos.

FUNDADOR DA GOL É INDICIADO

O empresário e sócio-fundador da companhia Gol Linhas Aéreas, Nenê Constantino, 77, foi indiciado por homicídio. Ele é acusado de pela morte de Márcio Leonardo de Sousa Brito, 27, em 2001, na cidade de Taguatinga (DF). O empresário nega a acusação



Segundo a investigação da Cenipa, não havia como desligar o transponder sem querer. Então, é possível que o desligamento tenha sido feito pelos próprios pilotos.

Após a divulgação do relatório, familiares mostraram indignação. "Quem é que liberou os pilotos para sair sem treinamento?", questionou Angelita de Marchi, presidente da Associação de Familiares e Amigos e das Vítimas. "Precisamos de mudanças seríssimas no nosso sistema de tráfego aéreo", completou Salma Assad, que perdeu o sobrinho no acidente.

O transponder foi desligado às 19h59h50. A hipótese mais provável obtida foi a de que eles teriam colocado o aparelho em modo stand-by de forma não intencional, no momento em que um dos dois pilotos fazia o cálculo de combustível no notebook e o outro mexia no RMU (um tipo de painel de controles) da aeronave.

O documento aponta ainda outros fatores para o acidente, como pressa do Legacy para decolar, planejamento inadequado do vôo, falta de divisão de tarefas da tripulação e pouca experiência com a aeronave. Além disso, a empresa Excelaire não tinha um manual adequado de procedimentos para o modelo do jato.

A Excelaire não quis ser entrevistada pelos investigadores da Cenipa. Segundo o coronel Rufino, chefe da comissão que investiga o caso, isso não atrapalhou a investigação, somente a atrasou.

Também ocorreram problemas técnicos por parte dos operadores de vôo. Houve irrgularidades nos controladores de São José dos Campos (SP), Brasília e Manaus.

Em São José, a autorização de vôo não foi dada nos padrões previstos. O posto de Brasília não deu a informação de uma freqüência para a aeronave se comunicar. Ela também não agiu de maneira adequada quando o transponder entrou em stand-by. Já o controlador de Manaus não informou ao controlador de Brasília as condições de navegação para o vôo de maneira adequada.

A investigação aponta falta de informações para troca de freqüência quando o Legacy mudou o espaço aéreo, o que contribuiu para a falha de comunicação dos controladores com o Legacy.

O vôo da Gol ia de Manaus para o Rio de Janeiro com escala em Brasília e deixou 154 mortos. O Legacy saíra de São José dos Campos (SP), rumo a Manaus, e não teve vítimas fatais. Os aviões colidiram no Mato Grosso.

Em setembro de 2007, foi feita uma reconstituição do vôo da Gol baseada nas informações da caixa preta do avião. Foi comprovado que a viagem do Boeing não teve falhas. Também foram confrontados os restos das duas aeronaves pra verificar como havia sido a colisão.

Segundo o Brigadeiro Kersul, da Cenipa, o caso foi o primeiro da história em que dois aviões colidiram no espaço aéreo brasileiro.

Recomendações
Desde o início das investigações, a Cenipa fez 65 recomendações para que acidentes semelhantes não voltem a acontecer.

Destas 65, 39 recomendações não tiveram resposta de nenhum órgão ou empresa. Oito das recomendações eram destinadas à Excelaire, que não respondeu nenhuma.

O Brigadeiro Kersul, chefe do Cenipa, disse que a entidade não tem como impôr regras à aviação brasileira. "Nós não temos forças para obrigar nenhuma instituição a adotar as recomendações".

Ele descartou também qualquer possibilidade de haver intenção no acidente entre o Legacy e o boeing da Gol. "Não existe nada que comprove que houve intenção, não há por quê disso".

Para o brigadeiro, uma série de fatores levou ao acontecimento, e não somente uma causa. Ele defende que duas atitudes diferentes, uma por parte do controladores de vôo e outra pela tripulação do Legacy, poderiam ter evitado a colisão.

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