"Foi a decisão mais absurda que eu já vi", diz promotor do caso João Roberto

Rafaella Javoski
Do UOL Notícias
No Rio de Janeiro (RJ)

"Foi a decisão mais absurda que eu já vi em 16 anos de tribunal", resumiu o promotor Paulo Rangel sobre a absolvição do policial militar William de Paula. O PM foi inocentado, em julgamento na noite da última quarta-feira (10), de matar João Roberto Amorim, de 3 anos, após uma perseguição policial na zona norte do Rio de Janeiro, em julho deste ano.

Decisão revolta família do menino

O Ministério Público entrou com recurso alegando que a decisão do júri popular é contrária às provas dos autos. "O réu confessou, o filme mostra o PM atirando, o coronel da PM diz que está errado e que a polícia não recebe esse treinamento e ele é absolvido?", desabafou o promotor, inconformado.

Rangel acredita que a defesa irá fortalecida para o julgamento de Elias Gonçalves, o outro acusado que ainda irá a júri popular. O promotor garante que não há uma tendência para que o resultado seja o mesmo e que jurados comprometidos não vão absolver o policial.

Nova tese
Para o advogado do policial, Maurício Neville, o promotor teria mais sucesso se sua tese fosse outra. Ele afirma que Paulo Rangel deveria mostrar ao júri que o acusado não tinha intenção de matar o menino. "O promotor é muito ético e justo, mas ele vai numa linha que o jurado não vai entender nunca", justificou.

William de Paula foi acusado de homicídio duplamente qualificado e de lesão corporal contra a mãe de João Roberto, Alessandra Amorim, e seu filho de nove meses. Pela segunda incriminação, o PM foi condenado à sete meses de regime aberto, mas como o crime é de "pequeno potencial ofensivo", cabe suspensão da pena e prestação de serviços à comunidade por um ano.

Neville entrou com recurso contra a decisão por acreditar que, se os jurados o absolveram do homicídio, ele não pode ser culpado pela lesão corporal. O advogado acrescentou que William de Paula exercia sua obrigação. "A tese de defesa é que ele estava no estrito cumprimento do dever legal. Ele não cometeu ilícito nenhum, então não tem pena", afirmou.

Família
João Tancredo, advogado da família do menino, teme que os policiais interpretem a decisão como "salvo-conduto para sair matando". E completa: "Ele [o PM] agiu de forma inteiramente ilegal e o juiz diz que ele agiu dentro da lei".

Ele apóia o recurso do promotor, e considera que a absolvição é "diametralmente oposta à prova dos autos". Tancredo explicou que caso o pedido de Paulo Rangel seja aceito, o julgamento será anulado e outro será marcado. Caso seja condenado, a sentença de William de Paula pode chegar a 70 anos de prisão.

O advogado não acredita que a decisão de ontem do júri influencie no resultado do julgamento do outro PM, também acusado pelo crime. "Não quer dizer absolutamente nada, pois cada conselho é diferente", garante.

Crime
João Roberto foi morto em julho, na Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro, quando o carro em que estava com a mãe e o irmão foi alvejado 17 vezes por policiais militares. Os policias disseram que confundiram o carro com o de bandidos, durante perseguição.

A mãe de João Roberto contou que chegou a jogar uma bolsa de criança para fora do carro como forma de indicar que havia inocentes no veículo, mas o filho já havia sido atingido por um projétil.

A juíza concedeu o pagamento de tratamento psiquiátrico para os pais, o irmão e os avós da criança assassinada.

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