Praça derruba prédios e despeja moradores no centro de SP

Rodrigo Bertolotto
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Até sexta-feira, o edifício Mercúrio ficará tão deserto como o prédio que é seu irmão siamês: o São Vito, o famoso "treme-treme", fechado desde 2004. É o prazo máximo dado pela prefeitura de São Paulo para os moradores abandonarem completamente os 24 andares e seus 84 apartamentos. Aquele quarteirão e mais dois vizinhos no centro da cidade serão demolidos para virarem uma praça próxima ao Mercado Municipal.
 

LÁGRIMAS NOS OLHOS, PÉS NA RUA

"Praça nas redondezas só serve de abrigo para mendigo e nóia fumando crack. Com a falta de moradia que tem nessa cidade, os homens decidem derrubar dois prédios como esses." Quem se queixa é Luisa Helena Salles, que trabalha de camelô na região do Brás e habitava com três filhos um apartamento no sétimo andar há 11 anos.

Como ela, boa parte dos habitantes do Mercúrio trabalha no comércio informal do centro. Outra parte é de aposentados, remanescentes de tempos melhores na região. "Só de pensar que vou abandonar o centro pela primeira vez na minha vida me dá vontade de chorar. Se eu tivesse bem das pernas, andava o tempo todo pelas ruas daqui", se emociona Terezinha Leitão, aposentada do Poder Judiciário.

A senhora de 77 anos, 22 deles morando naquele quarteirão, diz que teve "um choque" quando recebeu numa manhã o oficial de Justiça. "Era um colega meu trazendo a notificação. No final, servi um café para ele, e conversamos", conta a moradora do apartamento 175, entre samambaias de plásticos e uma vista esplendorosa que inclui a torre branca do Banespa e as cúpulas azuis da catedral da Sé em meio ao paredão de prédios.

Terezinha e Luisa vão agora morar juntas em uma casa em Artur Alvim, distante bairro da Zona Leste, onde encontraram um aluguel similar aos R$ 450 que pagavam por suas quitinetes. "Fiquei apavorada quando vi o papel da prefeitura. Foi muito desgastante achar um lugar e ver tudo o que está acontecendo aqui", reclama Luisa Helena. Outros despejados vão parar de favor em casas de parentes e amigos em lugares como Mauá ou Grajaú.

Para piorar a situação, os moradores se queixam que a síndica está ficando com parte do auxílio aluguel dado pelo município. "Sabemos que a prefeitura está oferecendo R$ 4.800 por inquilino, mas só estamos recebendo R$ 2.400. Todos aqui estão querendo bater nela", afirma a desempregada Maria Selma Silva, que está sem lugar para ir com os dois filhos gêmeos de dois anos e o marido que sustenta a família fazendo bico na rua 25 de Março, pólo do comércio popular em São Paulo.

A pressa para desalojar os moradores aconteceu porque a licitação para demolição foi interrompida na Justiça justamente pela presença deles por lá. A implosão pode ser descartada caso haja ameaça de afetar a estrutura do Mercado Municipal, além de criar uma altura de seis andares só de entulho a ser retirado durante meses.

A demolição na ponta da marreta, apesar de bem mais demorada, pode ser a solução. A idéia é ter uma área verde entre o Mercadão e o Palácio das Indústrias, antiga sede municipal, que deve virar um museu do brinquedo. Pelo plano de revitalização do centro, também deve sumir do mapa o viaduto Diário Popular, vizinho aos prédios.
 

RETRATOS DE UM DESPEJO

  • UOL

    Pichadores protestam pelo tratamento dado aos moradores

  • Rogério Cassimiro/Folha Imagem

    Em primeiro plano, o viaduto vizinho que também será demolido

  • Jefferson Coppola/Folha Imagem

    Morador de prédio a ser demolido observa vista privilegiada de SP

Clausurado desde o último ano da gestão Marta Suplicy, o edifício São Vito está marcado para tombar desde 2005, uma promessa da gestão de José Serra e Gilberto Kassab. Mas só se cumpriu após a reeleição do vice. "Ele esperou passar a eleição. Se a Marta vencesse, a gente ficaria aqui", afirma Luisa Helena. A idéia da administração petista era restaurar os edifícios, opção descartada pelo atual comando como mais alternativa custosa que a simples remoção.

Tanto o São Vito quanto o Mercúrio foram construídos na década de 50, tinham linhas arrojadas e o conceito novo na época de oferecer apartamentos de um quarto, as quitinetes. A decadência deles acompanhou a do centro paulistano, abandonado pela população de classe média e pelos escritórios de empresas.

Há 30 anos na sobreloja do Mercúrio, o Sindicato do Comércio Varejista teve que conviver anos atrás com uma vizinhança formada por travestis e prostitutas. Já o interditado São Vito virou um outdoor gigante para pichadores e um reduto para usuários de drogas que abrem fendas nos bloqueios de cimento.

"Aqui não tem PCC ou nóias, como falam por aí. Tem muita família, as pessoas se conhecem, formam amizade", conta a autônoma Doralice Moreira. Ela reclama que as assistentes sociais da prefeitura, de plantão no térreo do prédio, não estão amparando os despejados. "Na verdade, elas estão pressionando para a gente sair logo", se queixa.

A tática para afugentar os últimos moradores incluiu até o corte de água, obrigando os moradores a descerem os 24 andares com baldes para enchê-los em uma torneira da portaria.

Passa uma senhora ao celular falando que resistirá e não sairá. "Eles estão falando que vão jogar bomba e gás para a gente sair. Mando meus filhos para fora, mas eu fico", prometia para o interlocutor ao outro lado da ligação.

O temor seguinte é a retirada em janeiro das barracas de camelô da região da 25 de Março - os comerciantes informais já perderam a moradia e perderiam também o ganha-pão no mês seguinte.

Nesse centro revitalizado projetado pela prefeitura, a nova praça São Vito teria também um estacionamento para dar mais conforto aos sofisticados clientes do Mercadão vorazes por seus quitutes de bacalhau e mortadela.

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