São Paulo assume compromisso de transferir 3.000 pessoas de hospitais psiquiátricos

Breno Castro Alves
Especial para o UOL Notícias
Em São Paulo

O Estado de São Paulo adotou uma nova política manicomial e vai retirar cerca de 3.000 pessoas de hospitais psiquiátricos. "O desafio desinstitucionalizante que São Paulo se coloca interessa a todo o país. Sua efetivação aqui consolidaria o modelo", afirmou o coordenador de saúde mental do Ministério da Saúde, Pedro Gabriel.

A afirmação foi feita durante Seminário Estadual de Saúde Mental, em São Paulo, na mesma manhã em que o secretário de Saúde do Estado, Luiz Roberto Barradas Barata, assumiu o compromisso de mover 3.000 moradores de hospitais psiquiátricos para residências terapêuticas apoiadas por uma rede de serviços de saúde que promovam sua desinstitucionalização e inclusão social.

"O cotidiano de instituição absoluta desses hospitais é brutal. Ensina aquelas pessoas a serem párias, formaliza esse comportamento", avalia a psiquiatra e doutora em saúde mental Ana Pitta, uma das palestrantes do evento.

O seminário é baseado na divulgação do Censo Psicossocial e nos desafios para a desinstitucionalização. O l evantamento aponta a existência de 6.349 moradores em 56 hospitais psiquiátricos paulistas.

Mais da metade dos internados de longa data do Brasil estão hoje no Estado de São Paulo -621 estão na área da capital e 2.273 em Sorocaba, região que abriga quase 20% de todos os moradores de hospitais psiquiátricos do país.

Viver na cidade
São chamados de moradores aqueles que estão há mais de um ano em uma instituição. Pedrolina Gelinski fez parte de uma das mesas do seminário, expondo sua vivência de retorno à cidade e ao convívio social.

"No hospital a gente sente que é louca, ou fazem a gente sentir, não sei como dizer. Louca eu não sou, só acho que me atrapalho um pouco quando quero", afirmou.

Ela perdeu 20 de seus 59 anos entre muros de quatro instituições paulistas. Fugia sempre. Seu negócio mesmo é andar e ver as coisas bonitas da cidade. Só parou de fugir quando encontrou Antonio Pereira. Andavam de braços dados o tempo todo, namorando escondidos. A senhora negra de cabelos brancos e fala pausada se emociona ao lembrar-se do companheiro falecido, até hoje o homem mais importante de sua vida.

O caso não é excessão. O tempo médio de internação dos pacientes é de 15 anos. A maioria absoluta não possui qualquer tipo de acompanhamento profissional regular e 90% deles tiveram apenas um diagnóstico psiquiátrico em todo seu período de permanência.

Habitar uma casa
Sônia Barros, coordenadora do Grupo Técnico de Ações Estratégicas (GTAE), responsável pela realização do censo, explica os mecanismos que deram origem ao tratamento manicomial: "A lógica da exclusão vem do século 19 e do capitalismo em formação. Era preciso retirar sistematicamente do convívio social aqueles que não produziam ou consumiam. Não só os loucos. Entram aí também os vagabundos e os inválidos. Excluímos essas pessoas negando autonomia de decisão, massificando seus comportamentos".

Sobre a necessidade de superar essa postura, diz Sônia: "Viver a diversidade faz parte da humanidade. Se integrar como ser que se reconheça, que tenha identidade, que possa dizer 'eu sou José, moro naquela casa com Maria', faz parte do que é ser humano. Não sei se isso pode ser interpretado no sentido de tratamento terapêutico, mas certamente é saudável".

Respirar liberdade
Em algum momento ao longo dos anos de instituição, muitos pacientes deixam de ver naqueles muros eternos seu cárcere e passam a encará-los como proteção contra um mundo que não dominam. Ana Pitta considera que "muitas dessas pessoas não desejam espontaneamente a liberdade, é preciso um trabalho para ensiná-las. Viver lá fora significa negociar constantemente com a vida, com suas provocações e riscos cotidianos, e isso eles desaprenderam a fazer". O número de pacientes paulistas que expressaram o desejo de morar fora do hospital é de 3.150, ou seja, menos da metade do total.

Durante o evento, o Conselho de Secretarias Municipais de Saúde assumiu o compromisso de trabalhar em conjunto com o governo do Estado para criar as 400 residências terapêuticas necessárias para cumprir a meta de 3.000 desinstitucionalizados em 2009.

"Perdemos décadas e rios de dinheiro pasteurizando comportamentos e agora temos que gastar novos rios para desisntitucionalizar esses pacientes. Valorizar o indivíduo é nossa obrigação como sociedade", conclui Ana Pitta.

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos