Município mais pobre da Grande São Paulo tem vereador rapper

Rodrigo Bertolotto
Do UOL Notícias
Em Francisco Morato (SP)

"Tio, é embaçado usar esse terno e gravata. Só vesti em quatro vezes na política. Ainda bem que nossa Câmara é flexível. É mais confortável legislar de calça larga e camiseta." Anderson parte para sua segunda vereança em Francisco Morato, o município com os piores índices sociais entre as 38 cidades da Grande São Paulo. Como rapper, ele atendia pelo nome de Anderson 4P (sigla do lema "poder para povo preto"). Agora é o nobre colega Anderson Domingos da Silva.



Mais de 30 candidatos ligados ao hip hop se candidataram nas últimas eleições municipais, mas apenas três conseguiram se eleger. Desses, Anderson é o único reeleito. Como compositor, fazia as letras do grupo EIP (Exterminadores da Ignorância Preta) que convocavam na década passada uma "guerra preta" contra os "brancos otários". Hoje, como legislador do PT, faz outras composições, como sua desistência da candidatura para presidente da Câmara local para fechar aliança com político do PTB.

"Eram letras de identidade racial, para aumentar a auto-estima dos manos. Agora minha visão da política é mais complexa. Antes pensava que a revolução viria pelas armas, afinal, cresci em um bairro sem lei, vendo corpos pela rua. Peguei o primeiro revólver na mão com dez anos. Assim, era fácil imaginar uma guerra. Agora sei que a mudança chegará votando e elegendo gente comprometida com a mudança", argumenta o político de 33 anos.

As leituras passaram do líder negro norte-americano Malcolm X para o pensador alemão Karl Marx e, depois de eleito, para o regimento municipal. As letras de hoje, porém, continuam incisivas. "Político tem cara de besouro-rola-bosta/Eu sou inseticida que acaba com essa corja" é trecho da música Disciplina, que fez para o grupo OPS (Odiados Pelo Sistema).

Ele cresceu e continua vivendo no Jardim Alegria, que define como "subúrbio do subúrbio". Aos 15 anos formou com os amigos uma equipe de som para animar as festas da vizinhança de ruas de terras (ainda hoje metade das vias de Francisco Morato não conhece o que é asfalto). Do pai técnico em eletrônica, pegava as peças e os aparelhos. Das viagens para o centro de São Paulo (47 km e 13 estações de trem), arranjava os discos com os manos do largo São Bento e da praça Roosevelt para tocar em sua quebrada.

Em 1989, formou o grupo Enemy Boys. Em 1992, era a vez do EIP, conjunto que segue até hoje, mas o vereador só colabora com as letras. "Nos meus discursos no plenário, uso a retórica que aprendi fazendo rap, mas tenho que controlar meu jeito e seguir os preceitos para não ferir o decoro e não atropelar o discurso dos colegas", confessa.
 

O mano é vereador

  • RodrigoBertolotto/UOL

    Anderson faz gesto típico do "Vida Louca", um V e um L nos dedos

  • RodrigoBertolotto/UOL

    O vereador rapper ao lado de seus colegas em sessão da Câmara

  • Arte UOL

    Francisco Morato fica no caminho entre São Paulo e Jundiaí

Os manos de boné e senhores com chapéu de vaqueiro na cerimônia de posse entregam que Francisco Morato é uma mistura de periferia com interior. O município tem o pior IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) da Grande São Paulo, além de ser também o campeão metropolitano em desemprego, analfabetismo, mortalidade infantil e gravidez prematura.

Só a segurança melhorou ultimamente, mas não por conta da ação da polícia: a facção criminosa PCC escolheu a cidade como seu entreposto. "É curioso um cara que foi para a via institucional falar isso, mas essa organização pacificou a área criando condutas dentro do crime. A situação está suave porque Morato acabou como virando um suporte para a logística deles. Isso só um sociólogo para explicar", critica Anderson.

Ele culpa a falta de atuação das forças oficiais. "O Estado não se faz presente desde minha infância: no meu bairro só tinha a escola, mais nada. Dos 30 alunos homens da minha série, sou um dos poucos remanescentes. Muitos entraram para o tráfico e morreram. Mas eu sou um exemplo para a molecada que está vindo agora, para ocupar espaços de poder sem precisar ser um gerente de boca de fumo", dispara o "papo reto" de quem "corre pelo certo".

A popularidade de Anderson começou há dez anos com muito trabalho social, incentivando grupos de estudos região de maioria negra, alfabetizando adultos e formando MCs e DJs entre os jovens - muitos seguiram nos estudos e são advogados e professores hoje. "Esses são os verdadeiros irmãos vida louca. São os Bin Laden de bombeta que lutam contra o sistema e buscam a libertação da periferia."

Em 2004, tentou a sorte nas urnas e conseguiu a eleição, como primeiro vereador petista do município - tanto é que foi o líder da oposição em muitos momentos como único representante dela.

A reeleição foi complicada, mas conseguiu ser um dos três únicos vereadores a se reeleger na cidade. "Fizeram tanta campanha difamatória que não sei como a minha própria mãe votou em mim", conta. "Muito irmão não votou em mim porque qualquer nota de R$ 20 compra a escolha do cara. Esse é a realidade."

Ele promete criar nos próximos anos uma casa de cultura hip hop semelhante a que existe em Diadema. Na gestão passada, conseguiu aprovar o 13 de maio como o dia municipal do hip hop: "É para apagar com essa falsa abolição que existe nesse dia."

Anderson fala em uma força coletiva após a conscientização e que a sigla 4P de sua denominação pode significar também "poder para o povo pobre, periférico e proletário". Ele diz acreditar que "uma revolução silenciosa" está começando por Francisco Morato.

Prova dessa mentalidade de grupo é que ele não conseguia durante a reportagem se adaptar ao formato da entrevista perfil individualizada em que se enquadra este texto: toda hora, ele interrompia as respostas para apresentar personagens da cidade e da comunidade. Como se o retrato só valesse se fosse do conjunto.

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