Saúde vive caos em Natal; Estado e município decretam estado de calamidade pública

Paulo Francisco
Especial para o UOL Notícias
Em Natal (RN)

O Estado do Rio Grande do Norte e a sua capital, Natal, decretaram esta semana estado de calamidade pública na área da Saúde em uma ação conjunta da governadora Wilma de Faria (PSB) e da prefeita Micarla de Sousa (PV). A crise do setor, causada principalmente pela falta de médicos, uniu as duas adversárias políticas na tentativa de sanar o problema. Os decretos de calamidade pública têm validade de 180 dias e nesse período, Estado e Prefeitura podem contratar profissionais em caráter emergencial e temporário, sem burocracias.

O governo do Estado já convocou 131 médicos especialistas, como anestesiologistas, ortopedistas, cirurgiões-gerais e pediatras, para atender a rede hospitalar. Além da contratação imediata, a governadora também determinou a ampliação do número total de convocados, de 792 para 853, dos profissionais que foram aprovados em concurso, mesmo excedendo o número de vagas previstas.

Pacientes aguardam atendimento no RN

  • Paulo Francisco/UOL

    O mecânico Lucio da Silva Lima, 53 anos, de Macau (RN), passou toda a última quarta-feira (7) esperando atendimento no setor de emergência do hospital Waldedo Gurgel, em Natal

  • Paulo Francisco/UOL

    Com o pé imobilizado, o agricultor Severiano Pereira de Albuquerque, 40, de Lagoa Dantas, município a 110 km da capital, cansou de esperar e acabou indo embora à procura de outro hospital

  • Paulo Francisco/UOL

    João Valdevino de Sena, cortador de cana, espera há 12 dias para operar o braço, que fraturou em um acidente de bicicleta na cidade de Goianinha, e até agora não conseguiu fazer a cirurgia

Já a prefeitura de Natal informou que serão contratados 100 novos médicos para suprir a falta de profissionais nas unidades e postos de saúde da capital.

A prefeita Micarla de Sousa disse que resolveu decretar o estado de calamidade pública depois de ter percorrido várias unidades de saúde do município e constatado a falta de médicos. Segundo ela, desde a campanha eleitoral, informações de que a saúde do município estava em situação crítica eram mais do que comuns. "Encontramos um déficit de aproximadamente 200 médicos na rede de saúde de Natal", disse a prefeita.

A crise na rede hospitalar do Estado começou ainda no final do ano passado, quando os médicos entraram em greve. A Justiça determinou o fim da paralisação, mas o presidente do Sindicato dos Médicos, Geraldo Ferreira, disse que a categoria vai recorrer.

Na quinta-feira (9), Wilma e Micarla, juntamente com seus respectivos secretários de Saúde, George Antunes e Levi Jales, tiveram uma reunião de emergência. A prefeita de Natal solicitou a reunião com a governadora, argumentando que a prefeitura não tem condições de enfrentar o problema isoladamente.

Cooperativas médicas
Como o governo atribui a situação de caos na saúde pela proibição da promotoria pública para o Estado contratar cooperativas de médicos para atender a rede hospitalar, a governadora convocou na quarta-feira uma reunião de emergência com os promotores para cobrar deles uma alternativa para a crise. Afinal, segundo um assessor da governadora, se os promotores ajudaram a criar o caos na saúde, eles agora também têm que ajudar na busca de uma saída.

Segundo a secretaria de Saúde do Estado, o governo tinha três cooperativas médicas, incluindo uma dos anesteseologistas, que prestavam serviço à rede hospitalar. Mas a Promotoria Pública determinou que o governo não poderia mais renovar os contratos, uma vez que muitos associados dessas cooperativas tinham vinculo de emprego com o Estado. E alguns médicos associados ficaram com dois vínculos de empregos com o governo, o que a lei proíbe.

O secretário estadual de Saúde, George Antunes, disse que um novo concurso será aberto para preencher vagas em áreas que não foram preenchidas no concurso anterior, como neurocirurgia e psiquiatria.

Para atender a rede hospitalar nesse período de crise, o governo conta com anestesistas das Forças Armadas (Exército e Marinha), que estão atendendo os pacientes do SUS. Os pacientes estão sendo encaminhados para o Hospital do Coração, conforme distribuição dos pacientes feitas pelo Hospital Walfredo Gurgel.

Os doentes não atendidos na rede pública também estão sendo levados para os hospitais privados contratados em Natal e em Mossoró. Outros estão sendo encaminhados para as clínicas médicas nas unidades da rede estadual na região metropolitana e para o Hospital da Polícia Militar.

Doentes esperam médicos
No maior pronto socorro de Natal, o Clovis Sarinho, que funciona anexo ao hospital Waldedo Gurgel, o atendimento está precário pela falta de médicos. A reportagem do UOL passou a tarde de quarta-feira (7) no local e constatou inúmeras vítimas do descaso.

O cortador de cana João Valdevino de Sena, de Goianinha, cidade a 55 km ao sul de Natal, passou boa parte do dia na frente do pronto socorro, aguardando uma cirurgia no braço. Segundo ele, faz 12 dias que fraturou o membro em um acidente de bicicleta e até agora não conseguiu fazer a cirurgia. "Eu já vim duas vezes aqui e a informação é que não tem anestesista no hospital", disse Sena.

O mecânico Lucio da Silva Lima, 53 anos, de Macau, a 190 km ao norte de Natal, também passou maus momentos na sala de espera do setor de emergência do hospital. A mulher dele, Maria Vailda, disse que o casal chegou por volta das 10h30 no hospital.

Um médico atendeu o seu marido e o encaminhou para internamento em seguida. Até as 15h30, enquanto a reportagem permaneceu no hospital, o casal ainda estava sentado na sala de espera. O mecânico reclamava de dor de cabeça. Segundo a mulher, ele é diabético e estava internado em Macau, mas o hospital de sua cidade o encaminhou para ser melhor atendido em Natal.

O agricultor Severiano Pereira de Albuquerque, 40 anos, de Lagoa Dantas, município a 110 km da capital, sofreu uma queda de moto e chegou às 9 horas de quarta para receber atendimento. O clínico geral de sua cidade imobilizou seu pé esquerdo e o encaminhou para Natal, com a esperança de que na capital o paciente tivesse um atendimento especializado com ortopedista. Sem sucesso, Severiano ficou até as 15h30 sentado na emergência e acabou indo embora à procura de outro hospital.

A diretora médica do hospital Walfredo Gurgel, Fátima Pereira, disse que o único ortopedista do local tinha dobrado o plantão de quarta para quinta-feira e não tinha condições de atender mais ninguém.

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