Cratera de Pinheiros completa dois anos com vizinhos acumulando queixas

Rodrigo Bertolotto
Do UOL Notícias
Em São Paulo (SP)

Para os moradores do bairro paulistano de Pinheiros, o 12 de janeiro de 2007 é um dia para se esquecer. Mas as rachaduras nas paredes e os caminhões transportando terra lembram, a todo momento, o deslizamento que vitimou sete pessoas e a cratera que engoliu rua, casas e comércios.



No aniversário de dois anos da tragédia, os vizinhos se queixam que os problemas continuam e que foram pequenas as indenizações pagas pela Via Amarela, consórcio responsável pela construção e exploração da linha 4 do Metrô. "Meu prejuízo foi muito grande e só aceitei a mixaria que eles me ofereceram porque minha família pediu para tirar o processo. Eles me f... de verde e amarelo", reclama o espanhol Fidel Montes, dono de uma marcenaria que ficou fechada por três meses.

Ele mora na vizinhança e também não tem boas recordações dos meses em que ficou em um hotel: "Fiquei como encarcerado lá. Você reduzir a vida dentro de um quarto é uma prisão. Quando voltei para a casa foi uma alegria." Mas durou pouco. Atualmente, tem de encarar os caminhões carregados de terra madrugada adentro e as rachaduras que não param de aparecer na parede. "Vou esperar o fim das obras para pedir que eles consertem, porque cada dia aparece uma trinca nova", afirma o espanhol.

Uma das 70 famílias retiradas das cercanias foi a da comerciante Silvia Rossano. "Engordei seis quilos no hotel, mas enjoei da comida e do quarto e voltei para casa ainda com os pedreiros arrumando o piso", conta Silvia, que também se queixa do barulho noturno dos caminhões.

José Carlos de Oliveira tinha sociedade em um estacionamento que ficava na esquina das ruas Capri e Gilberto Sabino e foi engolido pelo deslocamento de terra para dentro do buraco à beira da marginal do rio Pinheiros. Hoje, ele cuida dos carros na rua e aluga vagas em garagens das cercanias. "Eu era microempresário, agora sou um flanelinha."

DESLIZA, TOMBA E RACHA

  • Airton Vignola/Folha Imagem

    Caminhões tombados na cratera criada após deslizamento

  • Ricardo Nogueira/Folha Imagem

    Casa vizinha apresenta rachadura em parede com quadros

Sua mulher, Maysa Soares, toma conta de um mercadinho cheio de rachaduras. O local ficou fechado três meses, enquanto o concorrente a poucos metros dali permaneceu aberto e lucrando com a fome e a sede de jornalistas, bombeiros e operários. "Sorte deles. Nós dançamos. Nossos produtos foram encaixotados e levados para um depósito da Via Amarela. Estragou tudo. Acho que eles deviam pagar muito mais pelo que fizeram", reclama Maysa.

Na semana passada, o promotor Arnaldo Hossepian Junior protocolou na 1ª Vara Criminal de Pinheiros, em São Paulo, um documento em que denuncia 13 pessoas ligadas ao consórcio e ao Metrô como responsáveis pelo acidente nas obras da linha 4, acusando os engenheiros envolvidos de negligência e imprudência.

De posse dos laudos feitos pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e pelo Instituto de Criminalística, o promotor afirmou que a tragédia poderia ter sido evitada. Os laudos haviam demonstrado também ter havido explosões momentos antes do acidente e que o plano de evasão no entorno da obra não funcionou. Na entrevista coletiva, Hossepian disse, porém, que não acredita que os responsáveis sejam presos.

Se nos corredores da Justiça a perspectiva é de nada acontecer para os responsáveis pela obra, nas ruas vizinhas ao local da tragédia os moradores ainda são surpreendidos com problemas decorrentes das obras da linha 4.

A taxista Rosa Maria Pescuma foi desalojada por decisão judicial e teve de abandonar sua casa na rua Gilberto Sabino na última semana de 2008. Diante de sua porta há cavaletes e placas de "proibido passar". Ela e seus dois cachorros tiveram de ir morar com a filha no município de Osasco. "Meus clientes e amigos estão aqui. Saio com dor no coração."

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