Mesquita do centro de SP luta contra estigma de reduto de traficantes nigerianos

Rodrigo Bertolotto
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Não é só em Gaza que os muçulmanos temem por seu futuro: a mesquita do centro de São Paulo pode ser desalojada a qualquer momento, afinal, a prefeitura pretende que o prédio que aloja o templo vire sede da Secretaria Municipal de Educação.
 



"Não durmo à noite com essa história. Estou preocupadíssimo. Precisamos achar outro lugar, de preferência uma casa térrea, também no centro. O problema é conseguir dinheiro para comprar o imóvel. Entrego a sorte nas mãos de Alá", afirma Jair Maceió, o presidente da mesquita Bilal al Habashi, que ocupa desde 2004 o apartamento 906 do edifício Esther, construção modernista de 1938 que o prefeito quer ocupar argumentando que está em "estado irreversível de degradação".

O Cedial (Centro de Divulgação do Islã para a América Latina) bancou a compra do apartamento, mas são os rendimentos do aposentado Jair e a contribuição dos frequentadores que custeiam a manutenção do local. "Hoje passamos o chapéu e juntamos R$ 30. Não dá nem para os produtos de limpeza. E ainda temos de dar uma parte para reconstruir Gaza", se lamenta e lembra o conflito entre israelenses e palestinos que domina o noticiário nesse começo de 2009.

Jair adotou o nome islâmico Mohammed Ali Numaire quando abraçou a religião aos 17 anos em 1969, quando nos EUA o movimento negro tinha em sua vanguarda o grupo Panteras Negras e Malcolm X, líder que se aproximou da fé de origem arábica. O nome que Jair escolheu é referência direta ao boxeador norte-americano campeão mundial que virou muçulmano na prisão após ser declarado desertor ("Ele deve muita coragem para se negar a combater no Vietnã").

O presidente da mesquita diz que foi duro no começo virar muçulmano. "Eu adorava dançar, e isso era proibido por seu poder inebriante. Outro problema era conseguir ler o Alcorão. Não sei ler em árabe, e um amigo me conseguiu um exemplar publicado em Portugal, porque no Brasil não havia."

Além de manter o apartamento-mesquita, outra luta de Jair é para tirar do local o estigma de ser um reduto de traficantes nigerianos - integrantes dessa máfia, que leva a cocaína sul-americana para a Europa, povoam as calçadas da vizinha avenida São João. "Aqui nigeriano é minoria. E muçulmano metido em tráfico é minoria também. A gente não aceita nem bebida alcoólica, imagina entorpecente", diz o líder.
 

  • Rodrigo Bertolotto/UOL

    Menina brinca enquanto pai reza entre frequentadores da mesquita

"No começo, o pessoal do prédio estranhou tantos negros subindo o elevador na mesma hora. Achavam que era reunião dos mafiosos. Depois acostumaram", conta Jair. A política de boa vizinhança incluiu até convidar o morador do andar de cima para uma visita: o chef francês Olivier Anquier deixou sua cobertura e andou entre eles.

Chefiando a cerimônia das sagradas sextas está um tanzaniano Chris Juma, pregando em português, inglês e árabe. Um fiel vindo da Somália entoa os cânticos sobre o tapete. Um nigeriano se esconde atrás de coluna para evitar imagens. Mas os negros brasileiros que frequentam o apertado templo mostram com orgulho sua fé. "A nossa não é uma conversão. É uma reversão, porque nossos antepassados eram islâmicos", afirma José Ailton Valias, lembrando que parcela dos escravos era de origem muçulmana.

Na entrevista, ele mostra postais de Meca e Medina (Arábia Saudita), que visitou no ano passado como parte da peregrinação que todo islâmico tem que fazer em vida. E ri quando conta que convenceu os amigos de faculdade a beber água com gás, para desespero da dona da cantina.

"Os convertidos são mais valorizados que aqueles que nasceram muçulmanos por terem optado", conta Tutsiati Rasnazarath, que, apesar do nome, é brasileiro de mãe católica e pai que se converteu ao Islã nos agitados anos 60 quando o movimento negro dos EUA e do Brasil se aproximou dessa fé. Tutsiati tem uma loja de produtos black (camisetas da NBA, tênis multicoloridos e bonés de rapper), onde é ajudado pelo meio-irmão Mohammed Omar. "Meu pai virou islâmico e aproveitou para ter várias mulheres", brinca Tuti, apelido providencial para os amigos, que incluem rappers muçulmanos do ABC que frequentam a mesquita de São Bernardo do Campo.

Omar conta que sentiu uma quentura no coração quando Tuti o levou pela primeira vez a uma mesquita. "Minha mãe era do candomblé, mas tinha medo quando descia o santo em alguém". Ele diz que o Islã trouxe calma em sua vida, mas quando engravidou a namorada evangélica teve que pedir tantas vezes perdão, de joelho e com a cabeça encostada no chão, que até apareceu uma mancha na testa. "Já pedi bastante perdão por essa falta. Caso com ela em março. Hoje eu só agradeço a Alá", diz, com um sorriso no rosto.
 

  • Rodrigo Bertolotto/UOL

    Locais e africanos se misturam em templo em apartamento

Já a conversão de Ilma Maria Kanauna, professora de História, parece um paradoxo, afinal, ela era militante feminista que se submeteu ao xador, a vestimenta que deixa só o rosto à mostra. "Neste país, chega a ser uma afronta a minha decisão. Mas deixei de ser feminista porque as mulheres negras sempre trabalharam fora, então, falar em emancipação é algo ultrapassado. No Islã, a mulher deixa de ser objeto como a civilização ocidental a reduziu, mais ainda as negras no Brasil, sexualizadas com o Carnaval", argumenta.

Criada em meio de uma família cristã, ela conta que seus sobrinhos ainda pedem sua benção. "Eu levo numa boa e digo que Alá os proteja", brinca Ilma. Por sua vestimenta branca dos pés à cabeça, ela também é confundida na rua com uma mãe de santo. Já os vizinhos da mesquita central já se acostumaram com os costumes deles, inclusive quando chega dezembro e o Ramadã, no qual os muçulmanos jejuam durante o dia e rezam e dormem na mesquita à noite. "A gente não faz muito barulho. Sabemos que estamos em um prédio lotado", conta Jair.

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