Após confusão no AM, família indígena tira menina de hospital para ser tratada por pajés

Especial para o UOL Notícias
Em Manaus (AM)

Após polêmica entre médicos e integrantes de um tribo indígena no Amazonas, a família de uma adolescente de 12 anos da etnia Tukano conseguiu tirar a menina do hospital onde estava sendo atendida e a levou para receber tratamento de um pajé. O caso aconteceu em Manaus, na última sexta-feira (16).

Há pouco mais de duas semanas, a menina, que vive na comunidade de Pari Cachoeira, no município de São Gabriel da Cachoeira (a 858 km de Manaus), se preparava para pescar quando foi picada por uma jararaca. A menina foi enviada para a Casa de Saúde Indígena do município onde começou a ser tratada, mas como o ferimento causado pelo veneno da cobra piorou, ela foi transferida para Manaus, onde foi internada em um pronto-socorro.

A partir daí, começaram os desentendimentos entre a equipe médica e a família da menina. Os médicos não permitiram que pajés da etnia tukano fizessem os rituais de cura que a sua cultura tradicional pregava. Com o tempo, a ferida da menina foi evoluindo. Ela corre o risco de ter o pé esquerdo amputado.

Os pajés impuseram uma série de restrições à equipe que iria cuidar da menina. Entre elas a exigência de que nenhuma mulher no período menstrual se aproximasse da garota. Na cultura tukano, mulheres nessas condições 'atraem maus espíritos'. Além disso, os índios se opuseram aos tipos de curativos feitos na perna da paciente.

"Nós não impedimos que os pajés entrassem no hospital. Eles só não podem fazer os rituais com tambores porque isso pode incomodar os outros pacientes", disse o diretor do hospital, Joaquim Alves Barros Neto.

Depois de procurarem o Ministério Público Federal para intervir no assunto na última quarta-feira (14), a família da menina conseguiu um acordo com a direção do hospital e a menina foi transferida para a Casai (Casa de Saúde Indígena) da Funasa (Fundação Nacional de Saúde) em Manaus.

De acordo com Joaquim Alves, a menina continuará sendo tratada com os antibióticos receitados pelos médicos 'não-índios', mas poderá ser submetida aos rituais de pajelança da etnia tucano.

Segundo o representante da Coordenação Amazonense das Religiões de Matrizes Africanas e Ameríndias (Carma), Alberto Jorge Silva, o episódio é um típico caso de "choque de culturas". "Não dá para entender porque os médicos não aceitaram o tratamento que os pajés queriam fazer se a base da nossa medicina vem de conhecimentos ancestrais, muitos dos quais oriundos de tribos indígenas", criticou Alberto.

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