Pichadora da Bienal busca emprego, pichação busca reconhecimento

Rodrigo Bertolotto
Do UOL Notícias
Em São Paulo (SP)

Uma mão agita a lata de spray fazendo um barulho parecido com uma coqueteleira. Mas é na outra mão que está o líquido alcóolico: uma garrafa de vermute barato em que dá beiçadas. Dali a minutos vai estar pendurado de ponta-cabeça no alto de um prédio, depois de ter escalado pelas janelas da fachada. Tudo na calada da noite, com a cidade a seus pés.



A figura do pichador ganhou fama com a invasão que o grupo fez na Bienal em outubro último e a posterior detenção por quase dois meses de uma garota que pintava as paredes brancas da tradicional exposição de artes. Atualmente, Caroline Pivetta da Mota distribui seu currículo atrás de um emprego, sem muitas esperanças.

Há diferença entre pichador e grafiteiro?

Exato um mês após sua saída da Penitenciária Feminina de SantŽAna (zona norte de São Paulo), a pichadora mora de favor na casa de amigos. "A situação está osso, só quem já passou pelo veneno é que te ajuda. Busco emprego por buscar. Sei que ninguém quer contratar uma pessoa que acabou de sair da cadeia", fala Caroline de volta ao seu habitat: a esquina das ruas 24 de Maio e Dom José Gaspar, transformada no "point" dos pichadores da cidade. "Cada R$ 1 que ganho ou gasto vale muito para mim", diz a artesã que percorre o centro vendendo seus produtos. O processo por depredação de patrimônio cultural corre na Justiça, e ela será ouvida em audiência em fevereiro.

Vindo de Parada de Taipas (zona norte), o camarada ao seu lado solta uma frase de apoio: "Ela está na pista de novo. É uma guerreira que fortalece o movimento." Pelo calçadão do centro, reúnem-se toda noite de quinta cerca de 200 pichadores para trocar experiências e partir para os ataques. "É um negócio da hora. A polícia pode te catar. O morador pode abrir a janela e te derrubar do beiral. O corre faz parte", conta Piaba (nome de pixo), vindo do Embu.

  • João Wainer/Folha Imagem

    Caroline Pivetta da Mota posa após liberta de penitenciária

Como Caroline, Pera, da gangue New Boys, é uma das raríssimas garotas por lá. Ela começou adolescente e mesmo agora, casada e com filho, segue no "corre". "Meu marido é gerente de uma multinacional. Ele entendeu que é um hobby meu. Sabe que é suave a relação com os amigos pichadores. Todos me respeitam. Com a polícia é que me dou mal." Ela conta que pior é encarar moradores irados. "Um vez eu já estava no terraço de um prédio quando todos os moradores apareceram ao mesmo tempo. Eles queriam me jogar lá de cima. Chamei a polícia: melhor eles que os moradores."

Outro veterano, Norman, da gangue Legião, lista os equipamentos utilizados em suas aventuras noturnas. "A gente usa pé-de-cabra para arrombar a última porta antes do terraço. Escada é mais raro. Mas a molecada hoje em dia escala pela fachada. Os caras são audaciosos."

Caroline imagina fazer uma exposição com fotos de rabiscos seus e de amigos espalhados pela cidade de São Paulo. "Quero que as pessoas vejam as imagens e tirem suas próprias conclusões. Não quero empurrar goela abaixo uma idéia", afirma Caroline, apesar dela usar as expressões "terrorismo poético" e "arte urbana" para o que faz pelos muros da cidade.

A relação da pichação com a arte, com a cidade e com a sociedade já foi objeto de estudos acadêmicos, como de Massimo Cavenacci, professor de antropologia cultural da Universidade La Sapienza, de Roma. "A rebeldia dos pichadores é parte do movimento incontrolável e imprevisível da nova metrópole. E a arte deles tenta sempre ir além do que é estabelecido e mata a precedente, mas isso não é um crime", analisa o intelectual italiano em entrevista ao UOL.

Cavenacci não diferencia pichadores e grafiteiros. E, segundo ele, ambos se transformam em outra coisa quando expõe em galerias e museus. "Eles acabam entrando pela porta de serviço e são usados, afinal, a pichação é higienizada para funcionar no meio da arte institucionalizada", teoriza o professor.

SÉRIE DE ATAQUES

  • Fernando Donasci/Folha Imagem

    Em junho, pichadores pintam a Faculdade de Belas Artes

  • Choque/Folha Imagem

    Em setembro, a galeria Choque Cultural é invadida em novo ataque

  • Choque/Folha Imagem

    No outubro, o alvo foi a Bienal de Artes, que celebrou o vazio

O curioso é que a opinião catedrática se assemelha com a imagem que os pichadores fazem deles mesmos. "A nossa é uma galeria a céu aberto: a cidade é nosso suporte. A cidade nos criou e agora não pode acabar com a gente", critica um pichador de Guaianases que preferiu não se identificar (a maioria dá, no máximo, o nome que rabisca).

Outra concordância é sobre a ação repressiva, que, além de detenções, inclui cobrir os grafites com tinta cinza, uma marca das administrações municipais de José Serra e Gilberto Kassab. "Chamar a polícia não é uma obra de arte. É declarar a própria incapacidade político-intelectual. O prefeito deveria se ocupar da poluição do ar em primeiro lugar e favorecer um novo urbanismo de São Paulo. A mentalidade da cidade está tão parada como seu trânsito", sentencia Canevacci, autor do livro "A Cidade Polifônica" sobre a metrópole paulista. O mano do fundão da zona leste tira a mesma conclusão e pergunta: "O Kassab quer apagar a cidade, irmão. Na minha vila, ele chega pintando os muros de cinza e não corta o mato cheio de rato. O que prejudica mais?"

Orientado por Canevacci, o pesquisador carioca Gustavo Coelho estudou a produção de Rafael Augustaitiz, o Pixobomb, quem é considerado o mentor da série de invasões de 2008, que começou em junho na Faculdade de Belas Artes (onde era aluno), passou pela galeria Choque Cultural (que recebe exposições de grafites) e finalmente entrou em outubro na Bienal de São Paulo, tomando o andar do vazio, que estava sem obras. As pichações nesses locais renderam boletins policiais e fama midiática.

"Conheci o Rafael após a sua obra, seu poema terrorista nas Belas Artes. Como eu já vinha pesquisando intensamente as produções juvenis indisciplinadas nas metrópoles e em especial a piXação (sic), consegui criar um laço muito forte com ele, uma vez que para mim a pesquisa mais interessante, mais intensa é aquela que mergulha sem equipamentos de segurança, a todo fôlego, se misturando, se sujando", respondeu Coelho.
Ele diz que os pichadores "não estão muito certo e nem querem muito saber o que é estética e o que é crime." Para Coelho, a ação na Bienal mostrou o confronto com a arte institucionalizada. "A arte deu provas mais uma vez de que está sempre muito atenta, em vigília, sempre servida por um batalhão não só de seguranças, mas de um "pessoal da limpeza", que não são as serventes, mas os curadores", afirma.

O pesquisador afirma que o impacto dos pichadores é maior que a ação conjunta mais famosa na cultura nacional, a Semana de Arte Moderna de 1922, marco do movimento modernista. "A Semana de Arte Moderna foi polêmica, mas uma polêmica nada suja, uma polêmica bem civilizada e higienizada. A polêmica estava nas obras e nos artistas convidados. Nada foi invadido, tudo o que aconteceu estava basicamente no programa, eram polêmicas aguardadas, planejadas. Em suma, mesmo sendo polêmicas, estas estavam amparadas pelo certame da Arte com `aŽ maiúsculo. De todo modo eram tempos diferentes, hoje a própria complexidade do acontecimento cidade se ocupa de polemizar em ações imprevistas", diz.

Guardadas as devidas proporções, os pichadores atualmente são tão incompreendidos como os modernistas foram em sua época. "O playboy e a patricinha passam de carro e não entendem o rabisco. Mas os outros pichadores vêem, e o cara ganha seu ibope", explica Alemão, da gangue Antirratos. Se no futuro a pichação for assimilada pelas instituições artísticas, basta saber que tipo de arte será a próxima.

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