Artista narra o apocalipse de BH e põe personalidades políticas mineiras em quadrinhos

Rayder Bragon
Especial para o UOL Notícias
Em Belo Horizonte

Usando terno amarelo que parece o uniforme do Máskara (às vezes, ele troca por uma fantasia do Super-Homem), carregando uma enorme placa também amarela e oferecendo histórias em quadrinhos de carro em carro nas ruas de Belo Horizonte, Lacarmélio Araújo, 49 anos, diz não ter medo de ser tachado de louco.

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    Nos faróis, o importante é chamar a atenção

  • Reprodução

    Tem gente querendo que BH não seja mais a capital de MG

Palmilhando as ruas do centro, na verdade, ele realizou um sonho de menino: as histórias que vende são assinadas por ele próprio e garantem o seu sustento. Na verdade, mais do isso: pagaram sua moradia e garantiram para ele um codinome: "Ninguém me conhece por Lacarmélio, todo mundo me chama de Celton", diz em alusão ao super-herói criado por ele e protagonista de muitas das suas histórias em quadrinhos - muitas delas têm como cenário a própria Belo Horizonte.

A preferência nas vendas é por áreas de grande congestionamento, para onde vai com sua motocicleta e as revistas dentro de um baú.

Com lucro obtido com a venda das edições, Araújo driblou dívidas e conseguiu comprar o apartamento onde mora e que tem espaço suficiente para servir também de estúdio.

O artista afirma ter vendido mais de 1 milhão de revistas nas ruas e avenidas da cidade, que servem para os negócios e também são fonte de inspiração para ele. Em 2007, a Petrobras bancou uma tiragem de 100 mil exemplares dele para serem distribuídos gratuitamente nas ruas da cidade.

Nas edições, personalidades da cidade e fatos marcantes são retratados nas revistas em locais da capital que fazem parte do dia-a-dia de grande parcela dos moradores de BH.

A fornada que está sendo vendida é uma edição especial em torno da construção de Belo Horizonte, desde o tempo da Fazenda do Cercado, local da futura cidade, até a inauguração da nova capital, em 1897.

Histórias famosas que poderiam ser atribuídas às lendas urbanas de Belo Horizonte, como a aparição da Loira do Bonfim (que assombrava alamedas do bairro Bonfim próximas do cemitério de mesmo nome) e o Capeta do Vilarinho (nome de bairro da zona Norte onde moradores ficaram certa época com arrepios ao ouvir casos da visita do capeta), foram recontadas pelo quadrinista.

A personagem Celton está presente em quase todas as edições feitas pelo artista. Nas páginas da edição nº 19, Celton contracena com o ex-prefeito Fernando Pimentel e o governador Aécio Neves trocando socos com a criatura maligna da saga "O Apocalipse de Belo Horizonte".

Outro famoso nas revistas é o ex-presidente da República Itamar Franco, retratado como "Italmiro", cunhado da "dona Zulmira", a sogra intrépida de edições anteriores e que retorna na nova revista de Araújo, intitulada "O Combate da Sogra com o Capeta", a conferir nos melhores semáforos de Belo Horizonte ainda nesta segunda quinzena de janeiro.

Sobre o tema, Araújo conta que, quando publicou a revista intitulada "A Sogra Maldita", viu a edição se esgotar em curto espaço de tempo, mas, em troca, recebeu xingamentos de sogras ofendidas com a "homenagem". Tratou de confeccionar outra - "A Sogra Maravilhosa" - que se revelou um fiasco de vendas e lhe rendeu algumas dívidas. Pois é, a Sogra voltou...

Provações
Filho de família pobre da cidade de Inhapim (Região do Rio Doce - 275 km de BH), Araújo veio para a capital em 1972, aos 13 anos, acompanhando a mãe e uma irmã. O grupo se uniria ao primogênito da família, que estava em BH para "abrir caminho", como revelou Araújo.

A aptidão para as vendas nas ruas veio do aprendizado adquirido em inúmeras funções exercidas pelo artista logo após a chegada à cidade.

"Eu ia para as ruas vender coisas como picolé, mexerica, loterias. Eu fui engraxate, vendi pastel na fila do INSS. Isso tudo é que construiu o vendedor que hoje eu sou. Eu acho que se eu não tivesse tido esse período, com essas experiências, talvez eu não tivesse me sobressaído com a revista. A vida inteira eu tive experiência com a rua", explicou.

Em 1981, ele inicia a produção e a vendagem dos quadrinhos em bancas de revistas, o que lhe rendeu dívidas e a obrigatoriedade de ir, em 1990, a Nova York, EUA, onde foi desenhista, garçom e músico no metrô da cidade para saldar os compromissos atrasados no Brasil.

"Eu fui para batalhar grana para pagar dívidas que eu tinha aqui no Brasil por causa da revista e, de novo, a rua me salvou, porque eu consegui dinheiro após ter comprado um violão e começar a tocar no metrô. Eu, na rua, pareço um bicho", orgulha-se.

Nessa época, ele havia decidido que não editaria mais a revista. No entanto, a aposentadoria de Celton e de suas aventuras não duraria muito.

"Ficou uma lacuna, um buraco, uma coisa que eu nunca consegui lidar, uma tristeza que eu não sabia explicar e ela ia aumentando."

Em 1998, o super-herói Celton saiu do limbo para nunca mais deixar Araújo parado.

Já escaldado com os erros anteriores, Araújo iniciou então uma trajetória que lhe permitiu cuidar da família (mulher e filho de seis anos), além de ser convidado a dar palestras em empresas e faculdades sobre a sua obra e seus feitos. Os rendimentos mensais não são revelados por ele, que também comprou o carro e a moto com a qual procura os locais mais propícios às vendas.

  • Rayder Bragon/UOL

    Um certo apelo erótico ajuda nas vendas

  • Reprodução

    O herói Celton tem Belô inscrito em seu uniforme

"Passei a estudar com força a história de Belo Horizonte e de Minas Gerais. Troquei as portas de barzinhos, faculdades e as bancas pelas ruas", relembrou.

Araújo também aponta como fator de sucesso os papeis assumidos por ele nas diversas fases da confecção da revista.

"Fazer uma revista, vendê-la na rua e conseguir tirar o dinheiro disso para viver não é fácil. Tem de saber administrar isso. Se eu não soubesse administrar todo o processo, a coisa não ia funcionar", diz.

Araújo pretende saltos maiores. Conta que planeja viagem a São Paulo para tentar vender as suas revistas nas ruas e avenidas da maior metrópole da América Latina. As revistas escolhidas para a capital paulista são as que contêm temas mais universais, como o desemprego. Universal e atual.

Para completar a projetada escalada de bons negócios, ele afirma ter um dom para farejar os pontos mais lucrativos e descartar as esquinas menos vantajosas.

"Eu não sei explicar essa parte, mas se eu não tivesse essa coisa de saber o lugar que vai vender, sair fora dele quando está ruim e tomar uma posição, a coisa não andava. São uns troços que eu não sei explicar, mas é uma coisa de dentro de mim que fala - não fique aqui que você não vai vender - isso funciona comigo."

Nessas horas de clarividência, será que não é o super-herói Celton quem está dando uma mãozinha ao seu criador?

Poderosos e afinados também na ficção
Denominados de "varões de fibra" por Araújo na edição 19, o governador Aécio Neves e o ex-prefeito Fernando Pimentel se veem às voltas com um inimigo sobrenatural, o Fantasma de Ouro Preto.

Para derrotá-lo, a dupla, que unida na eleição municipal de 2008 conseguiu suplantar os adversários e eleger Marcio Lacerda (PSB), desta feita não deu conta do recado sozinha. Teve de pedir auxílio ao super-herói Celton na empreitada para impedir que BH fosse destruída.

A trama se desenrola na revista de nome "O Apocalipse de Belo Horizonte" e mostra os dois políticos trocando sopapos com o fantasma, que é derrotado após muita escaramuça. Custa R$ 2, é só achar o cruzamento certo em BH.

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