Bombeiros e MST fazem confronto inusitado por área na Grande SP

Rodrigo Bertolotto
Do UOL Notícias
Em Franco da Rocha (SP)

Os bombeiros lutam contra o fogo e a água. O MST luta pela terra. Mas em Franco da Rocha (Grande São Paulo), eles fazem um confronto inesperado. E a razão para isso é a posse de uma mesma área, que pertence ao governo estadual. Os agricultores querem seguir plantando, como fizeram nos últimos 40 anos, nos sítios que compraram em um loteamento irregular. Já a corporação planeja ampliar para lá seu vizinho Ceib (Centro de Ensino e Instrução de Bombeiros), considerado o principal centro de formação profissional da América Latina.

A disputa pela terra em Franco da Rocha


"Minhas raízes estão aqui. Como vou entrar em um barraco com dez vacas e nove filhos? Querem que meus filhos virem maconheiro, bandido, assalte, mate o filho do bombeiro e vá parar na cadeia?" Na porteira de seu sítio sitiado, seu Dito (nome de cartório Benedicto Aureliano) escreve na cabeça o roteiro trágico do filme, olhando para o morro vizinho. De lá, já vem transbordando a favela Pretória, destino mais previsível de se perder seu terreno.

A Procuradoria Geral do Estado deu prazo até esta sexta-feira (23) para a desocupação, mas o processo está na 1ª vara civil do município para decidir a execução ou não do mandado de reintegração de posse para o Estado, o que já está sentenciado há mais de dez anos. Das 86 famílias originais, metade abandonou suas casas, que foram postas abaixo a marretadas pelos bombeiros. A outra metade, porém, resistiu à pressão dos homens uniformizados de cinza e vermelho. E em meados de 2008 se aproximou do Movimento Sem-Terra.

"Já apelamos para vários políticos e conseguimos aumentar o prazo de saída. Agora o MST é nossa esperança", define o chacareiro Valdecir da Cunha. Seu pai se estabeleceu ali na década de 60, mas foi embora em 1989 quando a briga judicial esquentou. O sonho de uma aposentadoria tranquila acabou quando soube que a terra era estadual, o que impossibilita a lei do usucapião. Deixou para o filho a área sob litígio.

A adesão recente aos sem-terras cria ainda confusão na cabeça desses agricultores. Seu Dito embaralha a sigla e diz que se não fosse o "SMT" estaria fora dali, logo após o grupo entoar o coro de "MST, A Luta é Prá Valer". Mesmo com o representante paulistano da entidade abrindo com um grito de "companheirada" a reunião em uma das chácaras, seu Tião (o alagoano Sebastião dos Santos) tem dificuldade com os pronomes pessoais: "Eles do MST estão ajudando muito." Dona Teresinha (a paranaense Maria Teresa Ribeiro) vai logo corrigindo. "Tião, é para falar: `Nós do MST?. Nós somos eles. Eles são nós."
 

MST entra no conflito

  • Rodrigo Bertolotto/UOL

    Agricultores se reúne sob bandeira do movimento sem-terra

Ambos estão 14 anos plantando milho, feijão e mandioca e criando animais por lá. Teresinha é a líder comunitária. "Eu cuido da papelama toda e sou a mais louca entre os loucos", dispara no município conhecido nacionalmente pelo hospital psiquiátrico do Juqueri. "Pela honra e glória de Deus a gente é do MST. É assim que eu respondo quando o pessoal anda pela rua e vê a bandeira vermelha hasteada", responde a evangélica sobre sua adesão ao MST em setembro passado.

O eixo formado pela rodovia Anhanguera é base dos três únicos assentamentos do movimento na Grande São Paulo, com núcleos no bairro de Perus e nos municípios de Cajamar e Franco da Rocha. A proximidade e a necessidade fizeram os sitiantes ameaçados buscarem o apoio de uma entidade que completou nesta semana 25 anos de existência e mudou seu espectro de atuação.

Nas pesquisas de opinião pública, o MST em geral divide opiniões, dependendo da posição política do entrevistado. Situação muito diferente que a ocupada pelos bombeiros, sempre no topo da lista de confiabilidade perante o público. Mas, para nesse município paulista, as coisas se apresentam invertidas. "O serviço deles é tirar as pessoas do fogo e da água. Não é botar pressão na gente", reclama a pernambucana Isaura de Souza, 62.

"Isso era só mato quando cheguei aqui há 30 anos. Não tinha nem sinal de bombeiros", conta Isaura. "Os caroços de manga que a gente jogou logo que veio já são tudo árvore hoje. Criei aqui minha filha Dionete. Quando ela casou com o Rafael, ergueu a casa aqui também. Eles derrubaram dias depois quando ela e o marido estavam trabalhando. A coitada foi tocada para fora toda barriguda. Isso dá amargura na gente", desfia sua sina a pernambucana.

De cada casa que ainda não sofreu a ação dos bombeiros, sai um relato triste. Há 20 anos por lá, João Vieira (ou João das Vacas) conta do prejuízo judiciário. "Com tanto tribunal, vendi minhas vacas para pagar o advogado. Os bombeiros vieram e quebraram meu chiqueiro. Derrubaram na ponta do fuzil a placa com o nome do sítio. Proibiram a gente de plantar. Se aparece um trator na estrada, eles apreendem. Ameaçam até prender a gente se pescarmos no rio daqui."

Seu Tião aponta para as casas destruídas. "Boi e vaca, pelo menos, têm cercado. Nem isso vai sobrar para a gente. Eles cortaram nossas cercas e o povo vai ser jogado na rua. Quando a gente comprou aqui não sabia desse rolo. Gastei 300 mil cruzeiros, o valor de um carro, para ter nossa terrinha. Estava tudo tranqüilo até que os bombeiros olharam para cá e começaram a pressão. Aí veio o tempo da derruba."
 

Localização do atrito

  • UOL Arte

A escola de bombeiros começou suas atividades em meados dos anos 90, albergando atualmente mil alunos e ocupando uma área de 111 hectares, que contam com auditórios, conjunto aquático, pátio de treinamento e laboratório de resgate, além de alojamentos. O centro de instrução planeja utilizar a área ocupada pelos sitiantes para exercício tático em caso de grandes emergências, argumentando em comunicado oficial que "apenas uma corporação bem preparada e treinada constantemente gerencia catástrofes".

O que os agricultores classificam como pressão e ameaças são justificadas pelos homens fardados como algum "comum" em uma área considerada "militar". "Recentemente os ocupantes da área do centro fizeram um acordo com a Justiça, optando pela saída do terreno de forma passiva e amigável. Dessa forma algumas residências foram desmontadas por integrantes do Corpo de Bombeiros em conjunto com os moradores, aproveitando alguns materiais de construção", escreve o setor de comunicação social da corporação.

Dona Teresinha duvida que aquela superfície cheia de árvores frutíferas seja arrasada para dar lugar a um descampado para treino de salvamento. "Isso é um lugar nobre. Está dentro do centro do município e do lado do distrito industrial. Eles vão fazer hospedagem para os bombeiros", diz ao lado de um abacateiro de tronco grosso e copa frondosa que denuncia suas décadas de existência. Um poste próximo está lotado de placas de estabelecimentos: pesqueiros, casas de repouso, uma escola de equitação e um hotel fazenda.

A chácara de Terezinha fica no alto de um morro que avista todo o vale. "Não sei como as crianças conseguiram passar de ano com tanta preocupação. Elas não sabiam se voltariam para casa e não encontrariam nada. Ficou esse terror. Meu esposo até adoeceu de tristeza." Ela conta que o orelhão da Telefônica foi desativado em dezembro e que até o programa federal "Luz para Todos", destinado e aprovado para os agricultores, acabou sendo desviado para a favela vizinha, que agora conta com energia elétrica oficial, enquanto a área rural continua na base dos gatos e gambiarras.
 

A cruz e a marreta

  • Rodrigo Bertolotto/UOL

    Pôr-de-sol passa Igreja evangélica que foi marretada pelos bombeiros

O mundo de maior confrontação foi em setembro último. No dia 20, uma procissão marcaria a adesão coletiva ao MST. Policiais cercaram a área, com cães e carros antimotim. "Até o sapato do padre que veio rezar a missa foi revistado. Derrubaram as hóstias e uma santa que ele carregava. Eles tentaram tomar as bandeiras que estavam nas casas. Foi um fuzuê com tanto policial assim no meio do mato."

No cenário nebuloso, seu Tião quer acrescentar mais fumaça. "Já me decidi a plantar tabaco, pode ser aqui ou em Arapiraca minha terra [considerado o local do fumo de corda mais nobre do Brasil] Depois eu enrolo o fumo e vendo para os cabras do MST, que devem fumar demais", brinca.

O governo acenou até agora com um lugar em conjunto habitacional e uma carta de crédito, mas os agricultores querem terra, que é da onde tiram o sustento. "Sem estudo, sem carteira assinada e sem aposentadoria, em três meses a gente vai do apartamento para a rua. O que a gente sabe fazer é lavrar a terra", sentencia Teresinha, entre um bananal e um cafezal. Basta saber o que pensa a Justiça.

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