Médicos permitem que pajés participem do tratamento de menina índia picada por cobra

Leandro Prazeres
Especial para o UOL Notícias
Em Manaus

O tratamento médico é o normal. Mas, no horário da visita, entram os pajés. Eles entoam cânticos e fazem benzimentos. Os pajés não podem, no entanto, utilizar ervas ou outros produtos da floresta no tratamento da menina.

Depois de alguma polêmica, médicos e pajés da etnia tucano se revezam no tratamento da adolescente indígena de 12 anos de idade que foi picada por uma jararaca no município de São Gabriel da Cachoeira (a 858 quilômetros de Manaus).

De acordo com diretor do hospital, Raymisson Monteiro, a menina apresenta quadro de subnutrição e uma necrose de boa parte da perna direita. Os médicos tiveram de realizar um procedimento chamado de depridamento, que é a raspagem dos tecidos mortos.

"Não há motivo para não aceitarmos eles aqui. Se fossem evangélicos, nós não teríamos que aceitar os pastores?", indagou o médico.

No último dia 16, a menina chegou a ser retirada do Pronto-Socorro da Criança da Zona Leste, em Manaus, para ser tratada exclusivamente por pajés, mas voltou a ser internada, dias depois, desta vez no Hospital Universitário Getúlio Vargas (HUGV), também em Manaus, onde se recupera do ferimento. O Pronto-Socorro da Criança não havia aceito que a menina recebesse a visita dos pajés.

De acordo com Raymisson, o estado de saúde da menina é grave e, no momento, alguns movimentos da perna direita estão seriamente comprometidos, no entanto, o risco de amputação é mínimo. "Eu poderia dizer que há somente 10% de chances de nós termos de amputar a perna da paciente", afirma Raymisson.

Ovídio Barreto, avô da menina e pajé da comunidade de Pari Cachoeira, disse que seus parentes não quiseram impedir que a neta fosse tratada por médicos brancos, mas que fazem questão de que ela fosse acompanhada por especialistas no "saberes tradicionais" de sua tribo. "É nosso direito", afirmou o pajé.

Raymisson Monteiro diz que, apesar de os pajés estarem autorizados a realizar os seus rituais no hospital, a base do tratamento da adolescente é a medicina ocidental. "Nós estamos administrando antibióticos e outros remédios como fazemos com qualquer paciente. Nós os deixamos fazerem os rituais, mas a prerrogativa do tratamento é nossa", explica.

O médico, que é cirurgião vascular e especialista em acidentes ofídicos, afirma que não há previsão para que a menina receba alta. "A internação dela é por tempo indeterminado. Ela está muito debilitada e os ferimentos na perna inspiram muitos cuidados."

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos