Sem anestesiologistas, idosas esperam por cirurgia há um mês

Paulo Francisco
Especial para o UOL Notícias
Em Natal (RN)

Os idosos e as crianças são as maiores vítimas da crise da saúde que Natal enfrenta desde o início de janeiro, quando os contratos entre o governo do Rio Grande do Norte e as cooperativas médicas não foram renovados por decisão do Ministério Público Estadual, que os considerou ilegais.

Falta de médicos já adiou cerca de 2.000 cirurgias em Natal

Proposta do Ministério Público, de um contrato emergencial das cooperativas médicas com a prefeitura de Natal por um período de três meses, é rejeitada pelos presidentes do Sindicato dos Médicos e da Cooperativa dos Anestesiologistas.

No hospital Walfredo Gurgel em Natal, o maior da capital e que recebe doentes de todo o interior do Estado, já são cerca de 300 pessoas na fila aguardando cirurgias ortopédicas e neurológicas. Nos corredores do hospital se amontoam doentes em macas a espera das cirurgias.

A promotora de Saúde de Natal, Elaine Cardoso Teixeira, que visitou durante a semana o hospital Walfredo Gurgel, disse que os números da crise da saúde no município são bem expressivos e que são as crianças e os idosos que mais sofrem.

No hospital Itorn, da rede privada em Natal e que atende pelo convênio do SUS (Sistema Único de Saúde), cerca de 300 cirurgias de ortopedia foram adiadas. Duas senhoras idosas sofrem desde o final de dezembro internadas numa enfermaria a espera de uma cirurgia do fêmur. Assim como elas, o garoto Gleydson Jonatas dos Santos, 13 anos, residente em Macau, a 190 km de Natal, também aguarda uma cirurgia no fêmur.

Crise na Saúde em Natal

  • Paulo Francisco/UOL

    Nas camas, Dulcinea Monteiro, 79, e Adilia Maria Correia, 94, aguardam por cirurgia em Natal

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    A promotora Iara Pinheiro, que atua na área da Saúde

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    Gleydson Jonas dos Santos, com seu pai, o pescador Josefá da Silva dos Santos

Os três pacientes não fazem parte da estatística das cirurgias que os hospitais da rede pública e os conveniados deixaram de realizar desde o dia 31 de dezembro, último dia que vigorou os contratos de quatro cooperativas médicas com o governo do Estado.

Segundo as famílias desses pacientes, eles são vítimas do boicote que os anestesiologistas começaram a realizar com a não renovação dos contratos das cooperativas para prestar serviços na rede conveniada.

Adília Maria Correia, 94 anos, Dulcinea Monteiro, 79 anos, e Gleydson deram entrada no Itorn entre os dias 22 e 28 de dezembro, quando ainda vigorava o contrato com a Coopenast, que reúne 120 anestesistas.

Segundo Elzenir Feliciano de Oliveira, filha de Dulcinéa, que procurou o MP de Saúde para denunciar o caso, a sua mãe chegou a ser preparada para a cirurgia, mas o procedimento foi adiado com a alegação de que o médico tivera um problema de pressão.

A outra filha de Dulcinéa, Vera Lúcia, que faz companhia à mãe internada na enfermaria do hospital, disse que a informação do hospital para a não realização da cirurgia era de que os anestesistas estavam em greve. Ela contou que as enfermeiras estavam dando diariamente uma injeção anticoagulante para evitar uma embolia ou trombose na paciente.

"Minha mãe sofre de mal de Alzheimer e tem deficiência visual. Ela fraturou o fêmur numa queda da cama e está desde o dia 26 de dezembro internada aqui, sem que ninguém informe quando será a cirurgia", disse Vera.

Governo do RN admite
déficit de pessoal

Com 15 mil servidores, a secretaria de Saúde do Estado admite que faltam 4.000 servidores, entre médicos, outras categorias da área de saúde e funcionários de nível médio.

Segundo Vera Lúcia, até que família tentou pagar um anestesista, mas o hospital informou que só realizava a cirurgia caso a equipe toda fosse contratada a um preço de R$ 8 mil. "Eu não tenho dinheiro para pagar tudo isso e a minha mãe pode morrer. Mandaram a gente se ajoelhar e pedir a Deus", disse ela.

Internada desde o dia 22 de dezembro, a dons Adília sofreu também fratura do fêmur ao cair da rede. A filha dela, Raimunda, disse que a mãe já está definhando na cama e sofre de delírios. "Estão dando Diazepan para acalmá-la", denunciou a filha.

Segunda ela, sua mãe por duas vezes foi preparada para a cirurgia e a desculpa foi que não havia anestesistas. "O pior agora é que ela chora e grita pedindo para ir pra casa e nós não temos o que fazer, porque eu só saio daqui com a cirurgia", disse Raimundo.

A reportagem da UOL procurou o presidente do Sindicato dos Médicos, Geraldo Ferreira, anestesista, e o presidente da Coopanest, José Madson Vidal.

Outro lado: médicos defendem cooperativas

Segundo eles, não há cartel.

Ambos disseram que desconheciam os casos dos pacientes do Itorn, mas condenaram seus colegas pela falta da cirurgia no período que ainda vigorava os contratos das cooperativas médicas com a secretária Estadual de Saúde para que elas atendessem nos hospitais privados conveniados com o SUS.

"Isto não deveria ter acontecido, foi uma falta grave não por parte da cooperativa, mas do médico que deixou de atender esses pacientes", disse o presidente da Coopanest.

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