Diretor é mal atendido em Hospital Geral de Alagoas e pede exoneração

Carlos Madeiro
Especial para o UOL Notícias
Em Maceió (AL)

Atualizado às 12h20

Inaugurado em setembro de 2008 para ser a solução da urgência e emergência em Alagoas, o Hospital Geral do Estado (HGE) se tornou a maior dor de cabeça da saúde pública estadual. Em menos de um mês, funcionários já denunciavam superlotação e carência de profissionais, remédios e suprimentos básicos. Agora, o maior hospital do Estado sofre com as constantes mudanças de gestão.

Crise da Saúde em Alagoas

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    O Hospital Geral do Estado
    (HGE) de Alagoas sofre com as constantes mudanças de gestão, além da superlotação e falta de medicamentos e profissionais

Nesta quarta-feira (4), o Diário Oficial trouxe a exoneração do então diretor-geral, Antonio de Pádua. O motivo oficial para a saída não foi informado, mas a pressão e o estresse causado pela falta de avanços eram notórios nas poucas entrevistas concedidas pelo diretor. Ele ficou apenas três meses à frente do HGE. No lugar de Pádua, assumiu ontem mesmo o médico ortopedista Alício Moreira, do quadro efetivo da Sesau (Secretaria de Estado da Saúde de Alagoas). Foi a terceira mudança em menos de cinco meses desde o início das atividades do hospital.

Pádua deixou o cargo a pedido próprio e assumiu a Superintendência de Regulação, Controle, Avaliação e Auditoria. Fiel escudeiro da gestão da Sesau, o ex-diretor passou por um caso inusitado no último dia 28 de janeiro e que teria sido a gota d'água para a entrega do cargo. Durante trabalho de rotina dentro da unidade, ele teve um mal-estar e precisou de atendimento no próprio HGE. Levado ao setor de cardiologia, Pádua foi mais uma vítima do mau serviço prestado na urgência da unidade. Por falta de papel especial, o exame solicitado pelo médico - um eletrocardiograma - não pôde ser realizado.

Medicado, Pádua foi orientado a fazer um exame de sangue. Foi quando sofreu de outro mal comum dentro da emergência: a longa espera pelo atendimento. Irritado com a demora para a coleta do sangue, ele "descobriu" que apenas dois profissionais trabalhavam no laboratório em plena tarde de quarta-feira. O número é bem menor que o necessário pela demanda.

O caso, confirmado por funcionários do hospital, não foi comentado pelo ex-diretor, que preferiu entregar o cargo em silêncio, sem detalhes do ocorrido. Médico do quadro do Estado, o novo diretor, Alício Moreira, disse que é um grande desafio ter recebido o convite de assumir a direção do hospital e ressalta que a sua experiência junto ao hospital o fez assumir o cargo. "Trabalho nesse hospital há oito anos. Já tenho uma experiência para detectar os graves problemas do HGE, além disso tenho um bom relacionamento com o secretário de Saúde, que me deu garantias de me apoiar nesse trabalho".

Moreira destaca que as ações prioritárias na sua gestão serão "dar mais eficiência ao abastecimento de medicamentos e suprimentos para a unidade hospitalar". Para ele, o HGE esbarrava na falta de planejamento de médio prazo. "Vamos acompanhar de perto o trabalho do almoxarifado. Existem pontos que precisamos estar mais atentos, como o uso de materiais desordenado", destaca o novo diretor, completando que vai reorganizar as alas do HGE, separando as enfermarias por especialidade.

O secretário de Saúde, Herbert Motta, foi genérico e comentou, por meio da assessoria de imprensa, sobre as alterações de cargos administrativos, também oficializadas no Diário Oficial de quarta. Ele assegurou que as mudanças eram necessárias e vieram para tentar melhorar o atendimento à população. "Vamos reforçar as ações e otimizar os serviços em todas as unidades de urgência e emergência do Estado. O foco será o HGE, que deverá prestar atendimento de excelência", disse o titular da pasta, que pretende utilizar "profissionais que possuem trajetória no SUS", como é o caso no diretor do HGE.

As mudanças têm como maior objetivo conter a crescente demanda ao HGE, principalmente por conta da greve dos médicos prestadores de serviço ao SUS em Alagoas, que teve início no dia 19 de janeiro.

Escassez de profissionais

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    O presidente do Sinmed, Wellington Galvão, afirma que pelo menos 100 profissionais deixaram a emergência no Estado entre dezembro de 2007 e janeiro deste ano. Segundo Galvão, um profissional ganha R$ 2.000 mensais para dar um plantão de 24 horas por semana. "O valor é o mais baixo do Nordeste", garante

Hospital
O novo Hospital Geral de Alagoas foi fruto da fusão da antiga Unidade de Emergência com o Hospital Escola Dr. José Carneiro. Com investimentos de R$ 20,5 milhões, o novo complexo deu um salto de infraestrutura e no número de leitos oferecidos. Dos 279 leitos das duas extintas unidades, o novo hospital conta hoje com 410. O número de atendimentos também cresceu na mesma proporção. Por dia, o HGE chega a prestar 800 atendimentos a todos os tipos de especialidades.

Mas o planejamento do Estado, ao que parece, não contava com a falta de profissionais. Sem concurso público, ninguém foi contratado para suprir o aumento no número de atendimentos, nem há previsão para seleção de médicos em curto prazo.

O hospital não foge à realidade dos demais das capitais nordestinas, onde o atendimento de saúde básica é precário. Por conta disso, pelo menos 50% dos atendimentos deveria ser realizado em unidades básicas de saúde.

Em Alagoas, a situação do atendimento de emergência é ainda mais precária. Fora da capital, apenas o município de Arapiraca, no agreste do Estado, conta com um hospital-referência para atendimentos de urgência. Todos os casos de alta complexidade têm de ser transferidos para o HGE, o que acarreta uma superlotação de ambulâncias do interior do hospital. Em Maceió, nenhum outro hospital público presta atendimento de urgência à população.

Por conta da maior demanda, os médicos reclamam de uma sobrecarga de trabalho. Segundo o Sindicato dos Médicos de Alagoas (Sinmed), pelo menos 100 profissionais deixaram a emergência no Estado entre dezembro de 2007 e janeiro deste ano. "Segunda-feira mesmo um intensivista pediu para sair, não aguentou o estresse. Depois que inaugurou o HGE, a situação piorou muito, pois o hospital tem uma boa estrutura, mas não tem profissionais suficientes. Todo dia um médico me liga para dizer que enfrenta problemas, sem contar os péssimos salários que são pagos", explica o presidente do Sinmed, Wellington Galvão.

Hoje, segundo Galvão, um profissional ganha R$ 2.000 mensais para dar um plantão de 24 horas por semana. "O valor é o mais baixo do Nordeste", garante. Por conta da defasagem, no final do ano passado, os neurocirurgiões do HGE pediram demissão coletiva e emparedaram o Estado ao afirmar que não aceitariam mais trabalhar com esses salários. Os médicos criaram uma cooperativa, mas como o poder público não pode contratar cooperativas para prestação de serviço, forçaram a firmação de um contrato de excepcional interesse público, com aval do Ministério Público. Agora, cada neurocirurgião tem uma remuneração média de R$ 8.000 por mês.

Para suprir a carência dos demissionários em várias especialidades, o Estado está firmando contratos temporários, oferecendo R$ 5.000 para os plantonistas. "Isso está gerando revolta dos efetivos", conta o presidente do Sinmed.

Galvão ainda explica que a situação é mais grave na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). "Lá são 50 pacientes para um médico. Não há como dar conta. Os médicos não suportam. É uma jornada desumana", reclama.

Denúncia
Um dos cirurgiões do hospital, que pediu para ter a identidade preservada, conta que a situação dentro do hospital é "cruel com os profissionais". "Temos um fluxo de trabalho muito maior que o suportável. O novo hospital tem uma excelente estrutura, mas esqueceram de contratar mais médicos. Temos mais pacientes, e não chamaram mais ninguém para atender. Além disso, a quantidade de suprimentos não é a suficiente, e sempre falta gaze, esparadrapo, medicamentos. É estressante. Só fica quem tem amor à causa", lamenta.

A Secretaria de Saúde espera implementar mudanças para melhorar o serviço. Na semana passada, a secretária-adjunta da Saúde, Júlia Tenório Levino, fez uma visita de inspeção ao HGE e informou que a Sesau está levantando as necessidades administrativas do hospital, que devem ser resolvidas de forma rápida. "Todo o esforço está sendo feito para que tenhamos atendimento humanizado e digno. O que não podemos é deixar a população com atendimento precário", garantiu a secretária.

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