Aeroportos pelo Brasil

Ação de aves de rapina reduz número de acidentes em aeroporto de BH

Rayder Bragon

Do UOL, em Belo Horizonte

Introduzida no ano passado, a utilização de falcões e gaviões no combate à presença de aves no entorno do aeroporto Carlos Drummond de Andrade, localizado na Pampulha, em Belo Horizonte, já apresenta resultados positivos. Segundo a administração do aeroporto, houve redução de 27% no número de colisões de aves contra os aviões após o uso da técnica nas imediações do local.

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    O gavião-de-penacho é uma das aves utilizadas na "vigilância" do Aeroporto Carlos Drummond de Andrade, na Pampulha, em Belo Horizonte

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    O falcão peregrino está entre as aves mais utilizadas na falcoaria

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    Uma coruja-buraqueira, capturada pelo gavião-de-penacho na última quarta-feira. Ela será solta em área distante do aeroporto

De acordo com a Infraero (Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária), a medida adotada na capital mineira faz parte do programa de Plano de Manejo da Avifauna, implementado a partir de 2007 por uma empresa licitada. Além dos falcões, são empregados armadilhas, um cachorro (que fareja ninhos no gramado existente ao lado da pista) e redes para evitar que aves menores choquem-se com as aeronaves.

Em 2007, no Carlos Drummond, foram registrados 26 acidentes com aves e, no ano seguinte, o número baixou para 19 ocorrências, conforme números do órgão.

Nesse cálculo entram todos os fatos relacionados com colisões das aves contra as aeronaves, mesmo as que não provocaram a interrupção do voo. O choque de um pássaro contra a fuselagem do avião, mesmo que em partes não vitais, já enseja a caracterização na estatística, segundo a Infraero.

São escalados no aeroporto mineiro, em sistema de rodízio, um gavião popularmente conhecido por gavião-de-penacho, dois outros da espécie asa-de-telha, além de dois falcões das espécies peregrino e de coleira. Eles vieram de centros de triagem do Ibama (Instituto Brasileiro de Meio ambiente e Recursos Renováveis) e de criadouros. Outros quatro estão em época de muda das penas e foram preservados do trabalho diário.

"São as aves mais utilizadas na falcoaria. Pela facilidade no adestramento, eles têm manuseio mais tranquilo e são bem mais adaptáveis ao comando humano", explica o consultor ambiental Gustavo Diniz, um dos responsáveis pelo treinamento dos animais e funcionário da empresa vencedora da licitação.

No dia-a-dia, ele e a equipe acionam as aves no intervalo entre os voos (as chamadas janelas) sob orientação da torre de controle. De acordo com Diniz, está em curso o adestramento das aves para a caça noturna, horário em que os voos são mais espaçados.

Até o momento, foram capturadas cerca de 350 aves que representavam situação de perigo aos aviões, como quero-quero, carcarás, urubus, além de pombos e corujas, segundo o consultor ambiental.

"Elas são recompensadas com pedaços de carne de frango ou codorna após a captura. As aves capturadas que sobrevivem são aniladas (pulseira colocadas na pata) e soltas em áreas distantes do aeroporto. A simples presença dos gaviões ou dos falcões já afugenta, na maioria dos casos, os outros pássaros perto da pista", disse.

O período de treinamento, segundo o especialista, varia de acordo com a idade, o temperamento e a espécie das aves de rapina.

A engenheira de manutenção Gláucia Freira, funcionária da Infraero responsável pela fiscalização do serviço, explica as vantagens do método.

"O conjunto das medidas está se mostrando eficaz. O predador é mais uma ação para minimizar o risco de acidente aeronáutico, e tem se mostrado de grande valia", avaliou.

O uso das aves de rapina no local somente foi possível após autorização do Ibama, em março de 2008, e estudo das principais espécies que foram detectadas na ASA (Área de Segurança Aeroportuária), perímetro de 20 km em volta do aeroporto. Um fator de preocupação para a administração do Carlos Drummond é a existência de aterro sanitário na cidade de Ribeirão das Neves (8 km de distância), que atrai urubus e fica na rota de aproximação dos aviões. A lagoa da Pampulha, colada ao aeroporto, é outro ponto de vigília, já que para o local afluem garças e biguás.

O procedimento de monitoramento de aves pela falcoaria nas proximidades de aeroportos existe há bastante tempo em alguns locais da Europa e dos EUA.

"A prática já é muito antiga, pela própria característica da falcoaria na Europa, desde o tempo da era medieval. O aeroporto de Barajas (Madri), na Espanha, utiliza esse meio desde a década de 60. Na França também são utilizados esses animais", conta o biólogo Jorge Sales Lisboa, outro integrante da equipe.

Densamente povoado no seu entorno, o Carlos Drummond, construído na década de 30, ocupa uma área de 2 milhões de metros quadrados e passou a operar somente com rotas regionais a partir de 2005, quando o aeroporto Internacional de Confins, situado na região metropolitana de Belo Horizonte, recebeu a incumbência de abrigar voos nacionais e internacionais.

Acidente em Nova York
O acidente ocorrido no dia 15 de janeiro deste ano, em Nova York (EUA), com o Airbus A-320 da US Airways que precisou fazer pouso de emergência no rio Hudson, foi causado pelo choque de aves com a turbina da aeronave, segundo especialistas. Apesar do susto, todos os 155 passageiros sobreviveram.

No ano passado, o Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos) registrou 550 colisões entre aves e aviões no Brasil. O número pode ser bem maior já que, segundo estudo do órgão, apenas um em cada cinco acidentes são reportados pelos pilotos ou empresas aéreas.

Para ilustrar a situação brasileira, nos últimos dez anos ocorreram 3.800 colisões de pássaros com aeronaves no país, de acordo com o Cenipa.

Por seu turno, a Infraero registrou nos 67 aeroportos sob seu comando 219 acidentes no ano passado. A discrepância dos números pode ser atribuída à opção de alguns pilotos e empresas de informar diretamente o fato à Cenipa.

O aeroporto Salgado Filho (Porto Alegre) está em adiantado processo de implantação da falcoaria, com empresa escolhida para realizar a tarefa. No Galeão (Rio) e Garulhos (São Paulo) ainda não há previsão de adoção do sistema, segundo a Infraero.

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