Força Nacional volta a Alagoas para conter maior taxa de homicídios do Brasil

Carlos Madeiro
Especial para o UOL Notícias
Em Maceió (AL)

Os índices de violência registrados em Alagoas voltaram a preocupar as autoridades nacionais. Nesta segunda-feira (9), a Força Nacional de Segurança volta ao Estado, apenas três meses após encerrar as atividades em território alagoano. A missão principal da tropa será conter o crescimento no número de homicídios no Estado, inclusive com as recentes mortes de policiais militares. A taxa de homicídios registrada na capital, Maceió, foi a maior do país em 2008.

Taxas de homicídios nas capitais brasileiras

Maceió (AL) 104 por 100 mil habitantes
Recife (PE) 90 por 100 mil habitantes
Rio de Janeiro (RJ)37 por 100 mil habitantes
São Paulo (SP)23 por 100 mil habitantes
Fonte: Mapa da Violência
Essa é a terceira vez em uma semana que o Estado recebe apoio federal para casos ligados à segurança pública. Na quarta-feira (4), autoridades locais, com apoio da OAB nacional, visitaram o ministro da Justiça, Tarso Genro, para pedir reforço de policiais federais para a conclusão de mais de 300 inquéritos pendentes das eleições 2008. Na sexta-feira (6), peritos federais chegaram ao Estado para investigar cinco mortes dentro de presídios em Maceió.

No ano passado, a Força Nacional de Segurança passou sete meses em Alagoas e conseguiu reduzir os índices de violência em 33%. Mas em novembro e dezembro, logo após os militares deixarem o Estado, o número de homicídios voltou a patamares registrados antes da visita dos agentes federais.

Depois do longo período em Alagoas, a Força Nacional deixou o Estado com a certeza de que a redução nos índices de criminalidade continuaria, e que não seria necessário voltar em curto prazo. "O governo está tomando as providências para que estes números diminuam cada vez mais", declarou no final de outubro o então comandante da Força, Major Thomaz D'Aquino.

Como os resultados positivos não vieram e a violência voltou aos patamares do início de 2008, o próprio governador Teotônio Vilela Filho (PSDB) fez o pedido de retorno da tropa ao ministro Tarso Genro. Vilela atendeu à recomendação do Conselho Estadual de Segurança Pública. Nesta segunda, 65 policiais de vários Estados do Brasil chegam a Alagoas por um prazo inicial de 60 dias. Eles também devem reforçar a segurança nas quatro cidades onde acontecerão novas eleições municipais, marcadas para oito de março. Os militares ficarão na sede do BOPE.

Índices de violência no Estado de Alagoas (2008)

Furtos e assaltos16.653
Assassinatos2.064
Veículos roubados1.781
Tentativas de assassinatos478
Fonte:SEDS/AL
Além dos militares, chegam também equipamentos que a polícia alagoana não possui, como oito viaturas blindadas, fuzis 556 e pistolas ponto 40. A Tropa Nacional vai usar em Alagoas, pela primeira vez, 65 pistolas Taser. A arma de baixa letalidade transmite impulsos elétricos para imobilizar suspeitos.

Na quinta-feira (5), o coordenador nacional de Operações da Força Nacional, Capitão Luigi Pereira, chegou em Alagoas para conhecer a realidade local e discutir as operações que serão realizadas pela tropa. O comandante deixou claro que precisa estudar as especificidades do Estado para as ações surtirem mais efeitos. "Cada missão é especifica, pois cada Estado tem sua cultura. Atuaremos de acordo com a estratégia traçada pela Secretaria de Defesa Social. os índices estatísticos demonstrarem a necessidade real de atuação", ressaltou.

O secretário de Defesa Social em exercício, Washingon Luiz, afirma que existe hoje um déficit de 50 policiais especiais de Alagoas, que estão em treinamento na academia da Força Nacional, em Brasília. "Então, essa tropa vai apoiar as ações das polícias Civil, Militar e até mesmo a Federal, para inibir a criminalidade", afirma.

Dados assustam
Mesmo com sete meses de atuação da Força Nacional, a violência em Alagoas fechou o ano de 2008 com dados que assustam. Ao todo, 2.064 pessoas foram assassinadas no Estado. Em janeiro, segundo dados ainda não-totalizados, pelo menos 164 homicídios foram registrados nos 102 municípios alagoanos.

VIOLÊNCIA EM ALAGOAS

  • Carlos Madeiro/UOL

    Por medo da violência, população fecha ruas e as transforma em condomínios fechados

  • Primeira Edição

    Atuação da Força Nacional de Segurança, em 2008, em Alagoas

  • Divulgação

    O secretário de Segurança de Alagoas, Washington Luiz, e o chefe de Operações da Força Nacional, Capitão Luigi, em reunião realizada na última quinta-feira (5)


Em novembro e dezembro, já sem a Força Nacional, o número de homicídios cresceu. Foram 182 e 204 mortes, respectivamente. Quando os militares federais estavam em Alagoas, esse número variou de 133 a 173.

O maior problema está na capital. Com 30% da população do Estado, Maceió concentra 49,9% das mortes violentas em Alagoas. Em 2008, 1.025 pessoas foram mortas de forma violenta na capital. Outros 198 homicídios foram registrados nos municípios da região metropolitana.

A situação é tão grave que alguns bairros precisaram de medidas especiais, como a implantação de lei seca após as 22 horas. Hoje, moradores transformaram ruas em verdadeiros condomínios fechados, com segurança 24 horas.

Com uma população de 924 mil habitantes, a taxa de homicídios da capital chegou a 110 por cada 100 mil habitantes, segundo os últimos dados. Segundo a ONU, a média mundial é de 7,6 por 100 mil, e países que já passaram por guerras civis, como Israel, Croácia e Israel, apresentaram "índices alarmantes" de 80 por 100 mil.

Por mais que as autoridades se esforcem em ressaltar que o problema da violência "é nacional", os índices proporcionais de outras capitais mostram que os assassinatos são um problema muito mais grave em Maceió do que em outros Estados.

De acordo com "Mapa da Violência 2008", do Ministério da Justiça, dos 100 municípios mais violentos por mortes no país, seis são de Alagoas. A média de homicídios na capital alagoana é três vezes maior que a da cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, que registrou média de 37,7 mortes por 100 mil habitantes em 2006 (ano referência do levantamento). Se a comparação for com São Paulo (23,7 mortes por cada 100 mil), a diferença cresce para quase cinco vezes mais. No mesmo estudo, Maceió já apresentava taxa de 104 para cada 100 mil.

A segunda capital mais violenta do país, Recife (PE), apresentou naquele ano média de 90,9. Porém, segundo dados já de 2008, divulgados pelo governo, o Estado vizinho a Alagoas conseguiu reduzir o número de mortes para 52,5 por 100 mil.

Armas
Um dos maiores problemas enfrentados pela Segurança Pública no Estado é a facilidade com que as armas de fogo chegam às mãos dos criminosos. Poucos dias após assumir o cargo de secretário de Defesa Social, neste ano, o delegado aposentado da Polícia Federal, Paulo Rubim, declarou que "em Alagoas, arma parece que dá em árvore", afirmou. Na semana passada, pouco depois de apresentar os dados de violência em 2008, ele teve um sério problema estomacal e foi operado às pressas. Rubim ficará afastado das atividades por tempo indeterminado.

A preocupação do secretário tem respaldo nos dados. No ano passado, segundo relatório da Polícia Militar, 507 pessoas foram presas por porte ilegal de arma, o que dá uma média de quase dez por semana. "E essas são armas que se não tivessem sido tiradas de circulação estariam matando ainda mais pessoas. Essa questão é muito significativa no nosso contexto de mortes. Mas a polícia não é onipresente", afirma o tenente-coronel Carlos Luna, coordenador do Centro de Operações da Defesa Social.

Segundo ele, boa parte desses crimes são fruto de disputas pelo comando do tráfico de drogas na periferia da capital. Tanto que alguns bairros chegam a registrar média de 160 assassinatos por 100 mil habitantes. "A chegada do crack em Alagoas teve uma relevância muito grande nesse aumento no número de mortes. Isso porque quem tem problemas com tráfico acaba sendo morto. Mais isso não é somente um caso de segurança pública. É preciso mais ações sociais", resume Luna.

Com um efetivo de pouco mais de 8.000 homens, a Polícia Militar não consegue atender à população alagoana a contento. Segundo o próprio organograma da corporação, pelo 16 mil homens deveriam compor o quadro da polícia. A meta do governo era chamar mil policiais da reserva técnica por ano, o que não aconteceu em 2008.

Para piorar a situação, em janeiro quatro policiais militares foram assassinados no Estado. Neste fim de semana, outros dois policiais foram vítimas de assaltos, em Maceió e Arapiraca, e acabaram baleados. "Existe uma falta de respeito hoje à autoridade policial. Há também uma enorme desmotivação da tropa por conta dos baixos salários, pela falta de promoções. O governo tem que ver isso com urgência, pois estamos trabalhando em jornadas muito maiores que as indicadas", assegura o presidente da Associação de Cabos e Soldados, Wagner Simas.

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