Veraneio de periferia toma "balneários" da Grande São Paulo

Rodrigo Bertolotto
Do UOL Notícias
Em Carapicuíba (SP)

Parece uma descida para o litoral paulista: oito pistas de rolamentos atravessando túneis em meio a mata da serra. Até o pedágio ajuda a compor o roteiro. Mas o surgimento da Cohab Carapicuíba na paisagem revela que aquele é o Rodoanel, via que orbita pela Grande São Paulo.
 

CENAS DE UM VERÃO EM CARAPICUÍBA

O único "balneário" à vista é o lago do parque dos Paturis, que nos finais de semana calorentos, como este último, recebe cerca de 5.000 pessoas. Para se refrescar por lá, há os latões de cerveja a R$ 2,50, além das gratuitas sombras e águas turvas. Mas mesmo com uma placa proibindo o nado e a pesca, centenas praticam as duas atividades no lago cheio de caramujos, piranhas e detritos.

"Essa água é boa, nunca tive nada. Olha que venho aqui desde pequeno", diz, confiante, Lucas Souza, 12. Com outros sete amigos saiu do bairro de Rochdale, no vizinho município de Osasco, ele pegou o trem, passou três estações e chegou à opção de veraneio a seu alcance.

Outro itinerário fez Washington Alves, 10, percorrendo em meia-hora de bicicleta desde a osasquense Vila Yolanda. "Minha mãe não sabe que eu estou aqui. Se não, não deixaria", confessa, antes de dar um salto mortal vestindo só uma cueca, mesma indumentária da maioria dos banhistas mirins.

As meninas entram de roupa e tudo. É o caso das irmãs Vanessa e Amanda Prado, de 16 e 13 anos. Recém-mudadas para o conjunto habitacional vizinho, elas estreavam no lago. "Saímos para conhecer o bairro. Vimos tanta gente tomando banho aqui, fazia calor e pulamos dentro da água", disse Vanessa. As duas contavam que a caminhada até seu apartamento seria suficiente para secar as roupas e os pais não se dessem conta.

Menos aventureiro é o programa do aposentado Milton Brogna. Diariamente ele estaciona seu carro e fica das 11h às 16h, sob um guarda-sol, pescando carás, tilápias e pacus (todos do tamanho de um dedo) para fritar à noite em sua casa em Quitaúna. Conta que já saiu um dourado de nove quilos dali.

"O único problema aqui são os nóias e os viados que vem perturbar a gente", desabafa o pescador. O parque dos Paturis ganhou as páginas policiais no ano passado quando um assassino em série matou em poucos meses 13 homossexuais frequentadores do parque sem cerca, iluminação e com banheiros em péssimo estado.
 

NATAÇÃO NO SUBÚRBIO

  • Diego Padgurschi/Folha Imagem

    Garotos nadam entre vegetação da Billings, em São Bernardo

  • Rodrigo Bertolotto/UOL

    Em lago de Carapicuíba, menino improvisa toca com saco plástico

Do outro lado da estrada dos Romeiros, passando um muro com anúncios de shows de Camisa Suada, Mala Sem Alça e Pagode Bombado, está a lagoa de Carapicuíba. O imenso reservatório é vizinho do rio Tietê e, vez ou outra, acaba contaminado e seus peixes amanhecem boiando. Lá também a pescaria e o banho atraem os moradores, lembrando a tradicional piada carioca que "praia de paulista é o rio Tietê".

O veraneio na Grande São Paulo flui em outras direções. Para o sul, há os que pegam a rodovia Anchieta e param antes da descida da serra do Mar. O destino é a prainha do Riacho Grande, em São Bernardo do Campo. A parecença praiana é maior: há uma faixa de areia trazida, atracadouros para embarcações, restaurante flutuante e salva-vidas e guarda-sóis enfileirados esperando os turistas urbanos.

Além de entulhos, as margens das represas Billings e Guarapiranga reservam outras praias artificiais, como a que está no parque Estoril, também em São Bernardo, ou a orla paulistana próxima à avenida Robert Kennedy.

Na direção norte, existe opção em Guarulhos - e não é o aeroporto e um voo para a costa nordestina. O bairro Água Azul reserva a mesma receita de lago, banho, pesca e quitutes nas barraquinhas. Glamour mesmo só nos nomes das ruas próximas, como Cote D?Azur, Honolulu, Acapulco, Nice, Veneza e a avenida Miami que beira o lago guarulhense.

Na cidade dormitório de Carapicuíba, as opções de lazer são poucas fora dos cubículos em que as pessoas moram. Há até um projeto para montar um passeio de barco pela lagoa local, mas a constante poluição de suas águas mostra que as autoridades planejam outro destino para o local - ambientalistas afirmam que o lodo tóxico do vizinho rio Tietê é despejado lá, fato negado pela Cetesb (Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental).

Por lá, um menino toma um picolé de amendoim (R$ 0,60), enquanto o pai prefere a versão salgada da leguminosa para acompanhar seu conhaque - ambos os produtos comprados por R$ 1 de barraca improvisada no porta-mala de um Ford Belina. O calor dá vida ao parque no município operário, mas, quando terminam o domingo, as férias escolares e o verão, as pessoas retornam para sua rotina, e a água verde-oliva de lá perde seu atrativo refrescante e ganha uma feição dura como o resto do panorama.

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