'Aquecimento local': temperaturas podem variar mais de 10ºC entre regiões de SP

Gabriela Sylos
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Um dia de calor pode não ser sentido da mesma forma por dois moradores da cidade de São Paulo. As variações de temperatura podem ultrapassar os 10ºC entre uma região e outra. "O pico de variação em São Paulo chegou a 12ºC em 2007, a maior do mundo e o dobro de Nova York, que é de 6ºC", afirma a geógrafa e professora da Unesp (Universidade Estadual Paulista), Magda Lombardo.

As chamadas ilhas de calor se formam em áreas que concentram baixa vegetação, pouco contato com fontes de água, poluição, alto número de edificações e pavimentação, entre outros fatores. Nestes locais, as temperaturas são maiores e a umidade relativa do ar, menor. "São Paulo é um arquipélago de ilhas de calor", afirma Lombardo.

As diferentes temperaturas que podem ocorrer simultaneamente em regiões da capital
Simulação feita por Magda Lombardo, considerando um dia com tempo estável e sem nuvens

As regiões mais quentes estão no centro da cidade, como o bairro do Bom Retiro, e em áreas de grande aglomerado urbano, como o bairro de Itaquera, na zona leste, Santo Amaro, na zona sul, e Lapa, na zona oeste. "No centro, há registro de apenas 0,6% de cobertura vegetal em determinados pontos, em Itaquera tem pouquíssimas praças e toda a zona leste tem muita construção", exemplifica Lombardo, que estuda as ilhas de calor desde 1985.

"O Morumbi é um dos melhores bairros da cidade, com cerca de 40% de vegetação. Berlim (na Alemanha, uma das grandes cidades mais verdes do mundo), tem mais de 45% de cobertura vegetal", compara a geógrafa. A estudiosa afirma que uma cidade precisa de 30% de vegetação bem distribuída para ser considerada uma região saudável. Em São Paulo, a cobertura vegetal é de 52%, mas sua distribuição é bastante irregular: 75% dela está concentrada em bairros periféricos como Parelheiros e Tremembé. Nos distritos de Bela Vista e Sé, por exemplo, são apenas 0,36% e 0,22% de vegetação, respectivamente.
  • Alex Almeida/UOL

    Menina toma água em frente ao lago do parque do Ibirapuera, zona sul de SP. A cidade registrou hoje máxima de 31ºC, segundo o Inmet



A concentração de pessoas também pode ser causa da temperatura elevada. "A rua 25 de Março tem 4ºC a mais devido ao adensamento de pessoas, porque a população emana calor também", diz Lombardo. "A simples construção de um shopping gera 2ºC a mais na temperatura, segundo um estudo feito no Japão".

Para Augusto José Pereira Filho, professor do departamento de ciências atmosféricas do IAG, da USP (Instituto Astronômico Geofísico da Universidade de São Paulo), a cidade em si é uma grande ilha de calor, com variações internas de temperatura. E estas variações estão evoluindo. "Em 75 anos, a temperatura aumentou 2,1ºC no parque do Estado, uma área preservada durante todos esses anos", afirma Pereira Filho, que aponta o adensamento urbano no entorno do local como causa. No mesmo período, a umidade no parque diminuiu 7% e a precipitação de chuva cresceu cerca de 30%.

"Não tem nada a ver com aquecimento global, é local mesmo", ressalta o professor. Ele lembra que estudiosos do aquecimento global falam em elevação da temperatura no intervalo de séculos - já o aquecimento local produz efeitos maiores em poucas décadas.

Um estudo da Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente (SVMA) lembra, entretanto, que as ilhas de calor podem contribuir para o aquecimento global através, por exemplo, do aumento do uso do ar condicionado, que resulta em emissões de gases do efeito estufa.

Efeitos e soluções
O aumento da temperatura provoca efeitos que o geógrafa Magda Lombardo chama de "stress térmico". "O calor afeta a produtividade do trabalho, por exemplo", afirma. A alta temperatura e a poluição provocam desde uma irritação nos olhos até a morte, de acordo com Lombardo, que lembra das pessoas mais velhas que têm problemas de pressão. "É um problema de saúde pública", acredita a geógrafa.

Árvores plantadas em SP, segundo a Secretaria do Verde e Meio Ambiente

2005 37,8 mil
2006 168,5 mil
2007 172,9 mil
2008 185 mil

"A alta temperatura provoca mais formação de nebulosidade e maior precipitação", ressalta a meteorologista Maria Elisa Siqueira, do departamento de geografia da USP. "O aquecimento gera nuvens mais profundas e chuvas mais fortes, que provocam enchentes e deslizamentos de encostas, por exemplo".

Para Magda Lombardo, a solução está na cobertura vegetal. "Graminha não tem nenhuma interferência, tem que ter vegetação arbórea", acredita. "O centro precisa ser revitalizado através do verde. São Paulo também tem muitos vazios onde dá para colocar vegetação, mas tem que ter amparo político", afirma Lombardo. Para ela, as árvores deveriam estar no topo dos edifícios. "Em cima dos prédios tem piche. Se não der para colocar jardim, pelo menos poderia pintar o chão de tinta branca, para rebater a iluminação do sol", recomenda.

A estudiosa lembra novamente de Berlim ao citar a legislação da cidade, que exige a manutenção da vegetação em ao menos 50% da área de um terreno. "Aqui não existe nada semelhante a isso".

A Secretaria do Verde e do Meio Ambiente afirma que o zoneamento ambiental da cidade determina uma taxa de ocupação diferente em cada local. Em algumas regiões urbanizadas, por exemplo, um lote pode ser obrigado a ter apenas 15% de sua área permeável, ou seja, não cimentada. "Mas isso não quer dizer que esta área tenha que ser preenchida com árvores", explica a geóloga Patrícia Sepe, que trabalha na supervisão da SVMA. Em locais chamados de Zona Especial de Preservação Ambiental (Zepam), pode-se chegar a uma taxa obrigatória de 90% de área livre. Mas eles estão presentes apenas em 19 das 31 subprefeituras.

"As subprefeituras mais centrais, onde se localizam as ilhas de calor (justamente pela ausência de vegetação) não possuem Zepam e, portanto, o zoneamento não obriga os 90% de área permeável e sim 15%. Por isto talvez fosse necessário a desapropriação ou outros mecanismos que liberassem áreas densamente ocupadas e impermeabilizadas no centro para parques e áreas verdes", destaca Sepe. "Esta regra [de ocupação do solo] existe não necessariamente pelas ilhas de calor, é mais para a preservação do que restou da vegetação", afirma.

A geóloga elogia a legislação de Berlim, mas acredita que sua aplicação em São Paulo é difícil. "Somos regidos pelo direito de propriedade. É preciso uma mudança de mentalidade do proprietário, da construtora", lamenta.

A prefeitura planeja construir 31 parques lineares, voltados para a recuperação de fundos de vale e margens de rios e córregos: seis foram implantados, quatro estão em implantação e os outros 21 ainda estão no papel. "Em áreas muito urbanizadas não dá para demolir ruas ou derrubar favelas", afirma Sepe. "Teria que começar a desapropriar áreas não utilizadas para fazer pequenos parques", completa.

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