Crise econômica no Japão pode trazer até 30 mil dekasseguis de volta ao Brasil

Marcus Vinicius Gomes
Especial para o UOL Notícias
Em Curitiba (PR)

Os efeitos da crise econômica no Japão - em que o PIB (Produto Interno Bruto) do último trimestre de 2008 caiu 12,7% quando comparado com o mesmo período de 2007 - podem trazer entre 10 mil e 30 mil dekasseguis de volta ao Brasil até março deste ano.

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A estimativa é do Consulado do Japão no Paraná e do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micros e Pequenas Empresas), que mantêm um programa de atendimento de dekasseguis nos dois países. O número, se confirmado, representa um enorme crescimento no retorno de brasileiros descendentes de japoneses ao Brasil. A média, em igual período, nos anos anteriores era de 500 dekasseguis.

Segundo dados oficiais, existem atualmente 316.967 brasileiros (descendentes ou não) trabalhando no Japão. Destes, cerca de 80 mil são oriundos do Paraná. Os demais são originários, em sua maioria, do Estado de São Paulo.

De acordo com Marcos Aurélio Gonçalves, coordenador no Japão e no Brasil do Projeto Dekassegui Empreendedor do Sebrae, o reflexo das demissões de dekasseguis faz parte de uma reprogramação das indústrias japonesas entre os meses de outubro e novembro e pode ser reavaliada no próximo período, caso haja sinais de crescimento nas exportações.

"Como o ano fiscal no Japão termina em março, há um sentimento de retomada da atividade industrial que pode fazer com que esse número de regresso de dekasseguis caia, mas mesmo assim ainda será expressivo", afirmou.

Os setores mais atingidos são o automoblístico e o eletro-eletrônico. Em contrapartida, segundo Gonçalves, há uma oferta de empregos nos setores de hotelaria, turismo e de rede de alimentos, que estão empregando brasileiros, mas cuja remuneração não é tão atraente quanto nas indústrias. "Geralmente eles pagam, em média, 20% a menos do que os dekasseguis receberiam nas fábricas".

Pouco atrativo
Dados da Embaixada e do Sebrae mostram que a estabilidade da economia brasileira e a crise no Japão desenhada a partir de meados da década já haviam produzido efeitos que fizeram com que o salário oferecido pelos japoneses deixasse de ser um atrativo para os dekasseguis.

O pico de brasileiros residentes no Japão ocorreu em 2004, quando a Embaixada brasileira registrou a entrada de 322 mil brasileiros no país. De lá para cá, o retorno ao Brasil tem sido constante e só não se expressa nas estatísticas porque nascem cerca de 4.000 filhos de brasileiros anualmente no Japão.

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Após ver os resultados dos exames ginecológicos, Paula também teria dito que não estava grávida.

"O salário de hoje não é mais o que era 20 anos atrás. Se os dekasseguis tivessem investido o mesmo tempo em Educação e profissionalização no Brasil, hoje estariam recebendo salários semelhantes ao que ganham no Japão trabalhando em expediente de oito horas", avalia Maria Isabel Guimarães, também coordenadora do Programa Dekassegui Empreendedor do Sebrae.

Descendente de japoneses, o dekassegui Edemar Takeo Ishi, 54 anos, concorda. Ishi passou 15 anos no Japão. Viajou para o país pela primeira vez, em 1990, e só retornou em 2000, depois de passar dez anos cumprindo expedientes de 12 horas, com apenas uma folga por semana, em fábricas de auto-peças e de cerâmica.

No Brasil decidiu investir em um caminhão bitrem (com duas carrocerias) e contratar um motorista para dirigi-lo. Um ano e meio depois estava falido. Decidiu então retornar ao Japão, em 2003, com a mulher, Eva Fátima, 45 anos, e o filho, Tiago, 22 anos, que estudou em escolas japonesas e fala a língua fluentemente.

Com a crise no Japão, desistiu de retornar ao país e pensa agora em vender alguns imóveis que adquiriu no Brasil e investir em um restaurante de comida japonesa.

"No Japão você ganha bem, mas gasta muito. Meu salário médio era de US$ 3.500 mas só o aluguel do meu apartamento era de US$ 800", lembra. "Não era o meu caso, mas quando um empregado estrangeiro é demitido no Japão, perde também a moradia, porque a empreiteira que o contratou manda que você desocupe o imóvel. Essa é uma realidade que muitos brasileiros enfrentam", completa.

De acordo com Maria Isabel, os dekasseguis chegam ao Brasil com o pensamento de investir o dinheiro que economizaram em um negócio próprio. O ramo preferido é o da alimentação. Só no Paraná, os dekasseguis enviam anualmente para o país cerca de US$ 600 milhões (R$ 1,3 bilhão) que são aplicados em imóveis ou custeiam parte das despesas de membros da família que permaneceram no Brasil.

A colônia japonesa representa 1,5 milhão de habitantes no país. Destes, 54% estão concentrados em São Paulo e 24,6% no Paraná. Os demais estão espalhados por vários Estados.

Destino
Segundo Marcos Aurélio Gonçalves, a maioria dos dekasseguis que retornam ao Brasil escolhem o Paraná como destino. "Eles levam em conta a qualidade de vida e a segurança para criar os seus filhos", afirma.

Londrina e Maringá, no Norte do Estado, e Curitiba são as cidades preferidas onde os descendentes de japoneses estabelecem residência. "Geralmente eles vêm para a cidade sem conhecer ninguém, gostam, compram uma casa e montam um negócio com a esperança de trazer os parentes para o mesmo lugar", afirma Gonçalves.

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