"Deixei de pensar como um dekassegui", diz brasileiro que morou no Japão

Marcus Vinicius Gomes
Especial para o UOL Notícias
Em Curitiba (PR)

Nascido em Palotina, no Oeste do Paraná, o descendente de japoneses, Fabio Miura, 37 anos, retornou ao Brasil em 3 de janeiro deste ano, no rastro da crise financeira global.

Miura foi trabalhar no Japão em duas ocasiões. Na primeira temporada, passou cinco anos. Na segunda, três anos e meio. Para Miura, o problema dos dekasseguis está em acreditar que sempre podem retornar ao Japão, caso as coisas no Brasil não dêem certo. "A crise mostrou que não teremos uma segunda chance", afirma. A seguir os principais trechos da entrevista.

  • Franklin de Freitas

    O dekassegui Fábio Miura, ao lado dos filhos e da mulher, Cristiane, em sua casa, em Curitiba

UOL - Quanto tempo o senhor trabalhou no Japão?
Fábio Miura -
Na primeira vez, cinco anos, entre 1991 e 1996. Fui para lá com 18 anos. Voltei em 1996, passei sete anos no Brasil e decidi retornar em 2005. Fiquei até janeiro deste ano.

UOL - Qual era o seu objetivo?
Miura -
O de todo dekassegui. Eu e minha mulher, Cristiane, deixamos nossos dois filhos no Brasil e fomos para o Japão com o pensamento de ganhar dinheiro suficiente para comprar uma casa e investir em nosso próprio negócio, o que parte da minha família também estava fazendo.

UOL - O senhor conseguiu?
Miura -
Não. Quando voltei, em 1996, investi o que havia ganho em uma loja de auto-peças, mas acabei quebrando por falta de conhecimento. Descobri que para abrir um negócio é preciso 70% de experiência e 30% de capital.

UOL - O senhor aprendeu algo?
Miura -
Eu diria que deixei de pensar como um dekassegui. Todo brasileiro que vive no Japão ganha em iene, mas converte o salário em reais e diz: "estou melhor do que no Brasil". Mas acontece que ele gasta em iene. Vive uma vida de classe média baixa em um apartamento apertado, mas crê que se estivesse no Brasil seria um membro da classe média alta.

UOL - A crise mundial vai mudar isso?
Miura -
Terá que mudar, porque os dekasseguis que retornarem agora ao Brasil sabem que, se errarem novamente, não poderão embarcar para o Japão e retomar a sua rotina de trabalho. Nâo vale a pena.

UOL - Por quê?
Miura -
Porque os salários não são mais vantajosos, mesmo com a rotina de horas extras. Se eu tivesse investido na minha educação, por exemplo, poderia estar bem mellhor.

UOL - O que o senhor pretende fazer agora?
Miura -
Voltar a ser brasileiro e esquecer que sou um dekassegui. Vou viver de acordo com os meus padrões e investir em um negócio que eu tenha conhecimento. É o que todo descendente de japoneses deveria fazer.

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