Na única rádio comunitária de SP, locutor é "pago" com espetinho de churrasco

Rodrigo Bertolotto
Do UOL Notícias
Em São Paulo

A rádio comunitária de Paraisópolis está em uma lista de 40 candidatas à regulamentação no município de São Paulo. Por enquanto, por lá só há a radiopatrulha dos 400 policiais que ocupam militarmente a região desde os distúrbios de 2 de fevereiro.
 

SEM JABÁ, MAS COM QUEBRA-QUEIXO

"As autoridades associam as rádios comunitárias ao crime. Mas, na verdade, elas são uma forma de mostrar para as regiões próximas que tem uma comunidade com cultura e opinião no meio dos barracos." Quem afirma é Reginaldo Gonçalves, locutor da rádio Heliópolis, único exemplar desse tipo de estação em todo o município de São Paulo.

A emissora na maior favela da cidade (Heliópolis e seus 120 mil moradores) é exemplo para a segunda colocada nesse ranking (Paraisópolis e seus 80 mil habitantes). Os dois nomes sonoros (os significados são, respectivamente, "cidade do sol" e "cidade do paraíso") escondem os maiores bolsões de pobreza da cidade mais rica do Brasil.

"Não é só porque conseguimos nosso registro que vamos parar a luta. Continuamos cobrando dos políticos de qualquer partido para que sejam cada vez mais estações", afirma Claudia Neves, locutora que estava no comando do microfone quando a rádio Heliópolis foi fechada numa manhã de junho de 2006 - os anos eleitorais são especialmente ruins para as rádios não-legalizadas, afinal, se deseja controlar o uso político que elas podem ter.

A rádio existe desde 1992, quando dois alto-falantes propagavam a programação. O povo a apelidou de "rádio corneta". Com dinheiro arrecadado por religiosos alemães, um transmissor foi comprado em 1997 e a estação da favela era ouvida em todos os aparelhos.

Depois de investidas em 1999 e 2000, a rádio Heliópolis foi fechada por uma diligência de agentes da Polícia Federal e da Anatel, a agência regulatória das telecomunicações, que levou os equipamentos em posse de um mandado de busca e apreensão. "O cara da Anatel falou: `chega de palhaçada, tira do ar que esta é uma rádio pirata?. Chorando, eu liguei o microfone e disse que por problemas técnicos a gente ia sair do ar", relata Cláudia. "E me despedi como sempre faço: `um beijo no coração de todos, fiquem com Deus e fui?", completa (veja depoimento em vídeo abaixo).

No total, o silêncio durou 13 meses. Nesse período, a prestação de serviço da rádio, como anunciar crianças e chaves perdidas, foi improvisada: a vinheta era gravada em CD no estúdio e executada pelos vielas locais por uma caixa de som acoplada em uma bicicleta.
"Teve uma senhora que voltou aqui depois de dez anos fora e queria achar a família e não conseguia, porque a favela cresceu. Procurou a rádio e estava fechada. Gravamos o anúncio, e a bicicleta achou os parentes. Foi o único jeito."

A rádio só voltou ao ar em agosto de 2007, aproveitando uma brecha da lei que possibilitava a transmissão em caráter experimental em caso de associação com uma entidade de ensino superior (a Universidade Metodista, da cidade vizinha São Bernardo do Campo, se disponibilizou). Outra ajuda veio do programa "O Aprendiz", da TV Record. Uma das equipes testadas pelo apresentador Roberto Justus esteve na favela e deixou como herança o tão necessário transmissor.
 

FECHADA, RÁDIO SUBIU NA BICICLETA

A oficialização da rádio Heliópolis só veio depois de muita pressão política e em meados de 2008. Precisou a Lei de Radiodifusão Comunitária completar dez anos para São Paulo contar com sua primeira e única estação não-comercial.

Seus 34 locutores são voluntários, que doam duas horas de seus dias. "Aqui radialista paga até para trabalhar. A única recompensa é quando um ouvinte manda espetinho, ovo de Páscoa ou perfume", conta Cláudia sobre seus admiradores e os mimos a ela endereçados.

Os anunciantes são chamados de patrocinadores e pagam R$ 50 mensais por 300 vinhetas tocadas nesse período. "É a quitanda do seu Zé, a padaria, a loja de material de construção. Esse dinheiro é só para pagar as contas", conta Reginaldo.

A rádio serve também para aumentar o senso coletivo. "Muleta e cadeira de roda a gente vive anunciando e doando. Depois de usar as pessoas devolvem, e nós anunciamos de novo. Vaga em escola e fralda geriátrica também são muito procuradas", conta Cláudia.

Os músicos locais também ganharam um veículo para sua arte. "As pessoas ouvem Heliópolis e pensam que só tem criminoso e traficante. Imagina o terror que seria se os 120 mil daqui fosse assim: São Paulo não ficaria em pé", sentencia o rapper André Nascimento, que atende também pelo nome artístico de Anônimo. Seu companheiro de cantoria, Fuá, relata com as canções deles descreve o cotidiano do bairro pobre. "A gente conta a enchente de dentro dela, com os vizinhos no telhado. Os jornalistas vêem de longe, as pessoas não se identificam com as notícias deles."
 

Outro artista e ouvinte é Pedro Vieira. Sua venda tem a placa na frente indicando que lá vive "o rei do quebra-queixo". O seresteiro vende o doce de coco cercado por pôsteres de artistas de forró, incluindo ele próprio. "Ouço o dia todo. Quando o movimento está fraco, ligo para conversar com os locutores. É tudo gente boa."

O estúdio já foi visitado por políticos e artistas, mas no dia em que a reportagem do UOL Notícias visitou a rádio da zona sul quem estava por lá era um grupo de universitários norte-americanos. O apresentador aproveitou para perguntar o que os EUA fizeram para criar a atual crise econômica mundial. Visivelmente surpresos, os visitantes arriscaram algumas respostas via tradutor, mas não convenceram quem está acostumado a sempre viver em crise.

Depois do passeio pela rádio, o grupo forasteiro desceu a rua da Mina e suas casas coloridas e deixou a quebrada. À medida em que eles se afastam, o sinal da rádio se embaralha, rap emitido de Heliópolis se funde com uma música sertaneja e o império das rádios comerciais.

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos