Fotógrafo "lambe-lambe" incorpora tecnologia para sobreviver em Belo Horizonte

Rayder Bragon
Especial para o UOL Notícias
Em Belo Horizonte

A cena fazia parte do cotidiano de um Brasil da primeira metade do século 20. Em cada canto da cidade havia um tripé com um caixote, um pano escuro e filas de pessoas esperando a vez para serem fotografados por profissionais conhecidos como "lambe-lambes".

Lambe-lambes de BH

  • Rayder Bragon/UOL
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    No alto, José Marcos da silva, 82, mais velho lambe-lambe de BH; ao centro, Francisco Alves dos Reis, 56, o Chico Manco; e, finalmente, a antiga máquina, usada para atrair clientes

O "lambe-lambe" em atividade há mais tempo na cidade de Belo Horizonte, José Marcos da Silva, 82 anos, bate ponto todo dia, das 7h às 17h, na praça Rui Barbosa, popularmente conhecida como Praça da Estação, centro da capital. O fotógrafo usa uma máquina digital de 4 megapixels, com zoom ótico de até 4 vezes. Junto, usa uma impressora compacta que funciona a bateria e imprime 8 fotos 3 x 4 em três minutos.

Sem utilizar a velha máquina lambe-lambe há 15 anos, ele relembra o trabalho penoso de outrora e confessa sentir saudade apenas do dinheiro mais farto e das pessoas que o procuravam com mais assiduidade. "Quando iniciei, em 1957, eu ganhava mais dinheiro, e as pessoas que me procuravam davam mais valor ao meu trabalho, viravam clientes e amigos. Hoje isso é raro de acontecer."

Apesar das amizades conquistadas e da queda no faturamento (ele diz sobrar entre R$ 500 a R$ 700 por mês), Silva conta ter ficado satisfeito com o avanço tecnológico da fotografia e não pensa em aposentadoria.

"A máquina daquela época dava muito mais trabalho. Ela era pesada, levava tempo para montar e o processo todo era muito cansativo. Hoje, é mamão com açúcar, a máquina digital é fantástica. Só largo a fotografia quando não puder mais andar", disse Silva, que afirmou ter criado os seis filhos com a profissão.

Nascidos como contraponto aos sofisticados e caros estúdios, os fotógrafos ambulantes atendiam a uma massa de pessoas menos abastadas nas praças e jardins das cidades. A fase áurea, no entanto, começou a declinar na segunda metade do século passado e resultou em uma profissão que ruma para a extinção e cujos remanescentes sobrevivem graças à incorporação de tecnologias, à fidelidade de antigos fregueses e da captação de escassos clientes atraídos pela curiosidade de serem fotografados "à moda antiga".

A centenária máquina da qual derivou o nome de "lambe-lambe" virou peça de colecionador e fomenta o saudosismo de alguns que trabalharam com o instrumento. O apelido conferido ao fotógrafo veio em razão de a ponta da língua ser utilizada no processo do trabalho diário. Sem luz para enxergar, o profissional conseguia saber qual lado continha a emulsão que revestia o material dando uma pequena lambida no negativo. Desse modo, eliminava-se o risco de colocar o material de forma errada.

A fotografia, sempre em preto-e-branco, era revelada no interior do caixote, sem a necessidade levar o filme ao laboratório. Ao todo, eram necessários 15 minutos no processo.

Através dos anos, com a introdução de novas tecnologias e a dificuldade crescente de encontrar produtos necessários ao seu funcionamento, a utilização das máquinas "lambe-lambes" foi descontinuada.

Outro "lambe-lambe" veterano, Francisco Alves dos Reis, 56 anos, conhecido como "Chico Manco" pelos frequentadores do parque municipal Américo Renê Gianetti, centro de Belo Horizonte, mostra com orgulho a máquina para ser fotografado ao lado dela, que diz ter conhecido aos 11 anos, idade que ingressou na profissão.

"Eu guardo ela comigo para mostrar às pessoas e em palestras que dou em escolas e universidades. Trabalhar com ela não era fácil, todo o processo tinha de ser calculado mentalmente. Então, eu calculava um minuto para a exposição de luz no negativo, exposição de luz no papel, e por aí vai", conta. Sua máquina hoje faz foto de até 8 megapixels e também tem zoom ótimo de até 4 vezes.

A maioria dos clientes é formada por pais que levam os filhos ao parque nos fins de semana e aproveitam para levar uma lembrança dos pequenos aboletados em cima de uma moto de brinquedo ou de uma réplica de boi em tamanho reduzido. "Hoje em dia, as crianças preferem a moto. É raro alguém tirar fotos no boizinho", suspira Reis.

De terça a domingo, ele divide o espaço do parque com mais 8 colegas de profissão; eram 14 há menos de 15 anos.

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