"Termo lambe-lambe é usado mais por uma questão afetiva do que técnica", diz museólogo

Rayder Bragon
Especial para o UOL Notícias
Em Belo Horizonte

Praticamente extintos na Europa e América do Norte, os fotógrafos popularmente conhecidos como lambe-lambes tentam manter viva a tradição da fotografia em países da América Latina, África, Oriente Médio e Ásia.

Segundo o museólogo e pesquisador Abílio Afonso da Águeda, que defendeu tese de doutorado em 2008 na Universidade Estadual do Rio de Janeiro intitulada "O fotógrafo lambe-lambe: guardião da memória e cronista visual de uma comunidade", o profissional que ainda resiste se descaracterizou e utiliza o equipamento apenas como meio de chamariz.

Lambe-lambes de BH

  • Rayder Bragon/UOL
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    No alto, José Marcos da silva, 82, mais velho lambe-lambe de BH; ao centro, Francisco Alves dos Reis, 56, o Chico Manco; e, finalmente, a antiga máquina, usada para atrair clientes

"Por uma questão mais afetiva do que técnica, o termo lambe-lambe ainda é utilizado. Muitas vezes, as tradicionais máquinas lambe-lambes só são utilizadas para chamar atenção dos possíveis clientes", explicou.

No entanto, o pesquisador faz um resgate histórico da importância do trabalho que, segundo ele, contribuiu para disseminar a fotografia no país.

"Os fotógrafos ambulantes, que no Brasil passam a ser popularmente denominados como lambe-lambes, podem ser considerados os principais agentes responsáveis pela democratização do acesso ao retrato fotográfico porque a produziam mais barata. O lambe-lambe permitiu às classes populares acesso ao consumo de retratos fotográficos", diz.

"O lambe-lambe também pode ser definido como um guardião da memória e cronista visual de uma determinada comunidade. Por meio dos depoimentos e das fotografias é possível identificar mudanças e as permanências em diversos aspectos da vida social cotidiana", conta.

A derrocada da profissão, segundo o pesquisador, começou a ser percebida com a introdução de inovações.

A segunda metade do século 20 testemunhou o período de decadência desse tradicional ofício, com o surgimento de novas concorrências e novas tecnologias fotográficas, como máquinas fotográficas mais baratas, cabines automáticas de retratos para documentos, máquinas do tipo Polaroid e a tecnologia digital", contou.

Outro fator considerado por Águeda para o declínio dos lambe-lambes foi a transformação no modo de vida dos cidadãos dos centros urbanos.

"Houve mudanças no contexto sociocultural que afetaram o lazer e as formas de sociabilidade nos espaços públicos das grandes cidades brasileiras e diminuíram a procura pelos serviços desse profissional", disse.

A principal causa dessa mudança nos grandes centros urbanos, explica o pesquisador, foi a insegurança, que fez as famílias optarem pelo ambiente fechado dos shoppings centers em detrimento de praças, jardins e parques.

Para ele, a preservação da profissão deveria ser no âmbito cultural e ela não deveria ser mais encarada como uma atividade econômica.

"A possibilidade de sobrevivência desta tradicional técnica fotográfica, no meu ponto de vista, estaria restrita a uma perspectiva de valorização cultural deste 'saber-fazer'. Por isso, a importância do reconhecimento do ofício dos lambe-lambes deve ser encarada como patrimônio cultural, com potencialidade de agregar valores simbólicos e inserir essa prática cultural no mercado turístico das cidades", avalia.

A Prefeitura do Rio de Janeiro, por meio da Secretaria Municipal de Cultura, tornou o ofício de fotógrafo lambe-lambe em "patrimônio imaterial da cidade" em 2005. "Apesar do decreto, atualmente, no município do Rio só existem três profissionais atuando, em dois espaços públicos cariocas - dois no Largo do Machado (zona Sul) e um no Jardim do Méier (Zona Norte)."

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